É blogger, instagramer e — arriscamos dizer —, se a internet tivesse as fronteiras de Portugal, era primeira-ministra do html. Ana Garcia Martins, Ana Margarida, A Pipoca Mais Doce. No fundo, uma miúda que aos 22 anos começou a escrever um diário em formato digital e que agora, aos 38, não só vive dele como o transformou num blogue que lidera o top dos mais lidos há vários anos.

Acredita que haja quem pense que tem uma vida de luxo e que não paga por nada do que consome. Mas não só pagou o jantar de ontem como o pequeno-almoço que escolheu para acompanhar esta conversa. Esqueça as tostas de abacate ou as smothie bowls. Ana Garcia Martins come um croissant com fiambre e — choquem-se — bebe café com açúcar. “Sou uma pessoa absolutamente normal”, começa por esclarecer.

Vem maquilhada porque sabe que a entrevista envolve fotografias, mas agradece a todos os santinhos o facto de poder trabalhar a partir casa e de pijama, sempre que possível.

É mãe de duas crianças — o Mateus, de 6 anos, e a Benedita, de 14 meses — mas continua a não ser muito fã de crianças. “Mas gosto muito das minhas, atenção”, refere, habituada a que o sarcasmo a obrigue a explicar as piadas muitas vezes.

Agora que o humor passou da escrita ao stand-up, prepara-se para correr o País num espetáculo em nome próprio, a que deu o nome de “Agora deu-me para isto” e ao qual a MAGG se associa enquanto media partner. E preparem-se que Ana põe o mesmo filtro no palco que punha nos primórdios do blogue, ou seja, zero. “Se uma piada for boa, tenho que a fazer”.

Costuma tomar o pequeno-almoço fora?
Nem por isso. Eu trabalho maioritariamente em casa e, por isso, aproveito quando tenho alguma coisa fora para estas coisas.

Gosta de trabalhar em casa?
Gosto. Adoro não ter de ter um cuidado especial com a imagem, posso estar de pijama o dia todo a trabalhar. Não tenho que me preocupar em vestir-me, em maquilhar-me. Mas sou facilmente ‘distraível’ e estando em casa rapidamente começo a pensar em tirar alguma coisa do congelador para o almoço ou em pôr roupa a lavar. É fácil confundir o território do trabalho com o território de tua casa.

Como é um dia normal na sua vida?
Eu não tenho dois dias iguais, mas tento que parte do dia seja para trabalhar, responder a emails, produzir conteúdos, ir a reuniões, cumprir com compromissos com marcas. Não é que vá a muita coisa, faço uma triagem muito cuidada daquilo a que vou. Não sou nada de ir a eventos.

Mas foi-se tornando mais criteriosa ao longo dos anos?
Sem dúvida. Percebi que isso me consome muito tempo, tempo que posso canalizar noutras coisas. Prefiro aproveitar esse tempo para ficar a produzir conteúdos do que para ir a um evento que, ah e tal, é muito giro e venho de lá com uma escova de dentes. Depois de tantos anos a fazer isto, já não é bem isso que me move.

Desde que fui mãe, faço uma melhor gestão do tempo. São eles a minha prioridade e sei que a partir das 17 ou 18 horas o tempo é para eles. E como a maior parte dos eventos é ao fim da tarde, digo que não a muita coisa.

E como era a Ana Margarida antes da era Pipoca?
Ana Margarida (risos). É que nem sei muito bem. O blogue já tem 15 anos, eu era uma miúda, tinha 22 anos. Mas acho que era e sou uma pessoa absolutamente normal, com os dramas da idade.

A diferença é que decidiu partilhá-los.
Eu sempre tive diários. Escrevia imenso sobre os meus “dramalhões” de adolescência.

Ainda os tem?
Sim, devem estar em casa dos meus pais. Um dia tenho que ir lá e ver o que me consumia naquela altura. Mas o blogue surgiu na altura em que eu comecei a trabalhar como jornalista. Percebi rapidamente que as coisas sobre as quais gostava de escrever, ou o registo mais humorístico e sarcástico no qual gostava mais de escrever, não tinham espaço no jornal. Na altura estava a fazer também um curso de escrita humorística com o Ricardo Araújo Pereira e pensei: “Ok, vou criar um blogue e depositar nele todas as parvoíces que me vêm à cabeça”. Isto foi há 15 anos, era impensável que alguém pudesse tirar algum rendimento de um blogue e muito menos viver disso.

As pessoas não sabiam quem eu era, nem sequer o meu nome. Eu queria que as pessoas gostassem de ler o que eu escrevia, independentemente da minha imagem. Não queria que tecessem comentários do género “só escreves isso porque és um trambolho” ou “só escreves isso porque és gira”. Eu queria que as pessoas se focassem no mais importante para mim, que era a escrita”

Para quem é que escrevia nessa altura?
Estamos a falar de uma altura sem Facebook e Instagram, não havia forma direta de chegar às pessoas. Na altura, usava-se muito aquelas chain letters [mensagens partilhadas e que incentivam à partilha sucessiva] e havia quem pegasse em textos meus e partilhasse aquilo em corrente. Eu cheguei a receber os meus próprios textos.

Foi aí que percebeu que o que escrevia tinha impacto nas pessoas?
Acho que só senti isso cinco anos depois da criação do blogue, quando uma editora me contactou com a proposta de transformar o blogue em livro. E foi só nessa altura que eu deixei de ser anónima. As pessoas não sabiam quem eu era, nem sequer o meu nome. Eu queria que as pessoas gostassem de ler o que eu escrevia, independentemente da minha imagem. Não queria que tecessem comentários do género “só escreves isso porque és um trambolho” ou “só escreves isso porque és gira”. Eu queria que as pessoas se focassem no mais importante para mim, que era a escrita.

Chegou a fechar o blogue em alguma altura?
De vez em quando tinha umas crises, geralmente quando estava mal com namorados. Aí fazia umas pausas mas normalmente duravam três dias. Eu gostava mesmo daquilo, e continuo a gostar.

Essas pausas nunca foram provocados por comentários desagradáveis de leitores?
Não, mas às vezes dá vontade.

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Qual foi a pior mensagem que já recebeu?
Já desejaram inúmeras vezes que eu morresse, que a minha família toda morresse, coisas super violentas e agressivas e completamente desniveladas com os meus conteúdos. Eu escrevo sobre coisas inócuas e inofensivas e de repente aquilo mexe com as pessoas de uma maneira e eu só pergunto de onde vem toda aquela agressividade. E isso tem tendência a aumentar. No início do blogue, a reação das pessoas era mais leve, as pessoas comentavam quando gostavam e, quando não gostavam, até podiam comentar mas de uma forma cordial e seguiam a sua vida. Agora parece que há uma obrigatoriedade de comentar e, preferencialmente de forma negativa e agressiva. É muito cansativo. Tenho de estar sempre a pensar no que vou escrever, sem que as pessoas se chateiem. Mas é um exercício inútil, já percebi. As pessoas chateiam-se com as coisas mais básicas e inofensivas.

No geral, o feedback negativo sobrepõe-se ao positivo?
Não, de todo. O feedback positivo é muito maior, mas é óbvio que se em 50 comentários tens 49 bons e um mau, é o mau que te vai ficar a perturbar.

Apaga comentários?
Apago e também bloqueio pessoas, porque acho que se confunde muito a liberdade de expressão com má criação. Não podes dizer tudo o que te passa pela cabeça e acho que as pessoas não fazem aquele exercício simples que é pensar: “Eu diria isto se estivesse cara a cara com a pessoa? Não? Então não vou dizer numa caixa de comentários”.

Como lida com os comentários? Consegue ouvi-los sem que a afetem?
Os que me afetam são aqueles que acho injustos e que não correspondem à verdade. É fazerem juízos de valor sobre mim com base naquilo que veem nas redes sociais. Ao contrário do que se possa pensar, não expomos tudo da nossa vida.

Neste momento, e com 40 anos, não vou parecer uma miúda de 20, nem quero. Sou uma pessoa de quase 40 anos e que tem um ar de 40 anos, mas cuidado.”

E quando esses comentários são sobre a sua imagem?
Há uns anos era muito mais insegura. Agora, acho que a proximidade dos 40 me traz uma leveza de espírito. É uma das coisas boas do avançar da idade. É óbvio que me preocupo com a minha imagem e tenho os cuidados mínimos, mas não vivo de todo obcecada com isso. Vivemos numa era em que se dá demasiada importância à imagem, temos milhares de contas de Instagram cheia de corpos perfeitos e acredito que isso cause demasiada pressão, sobretudo em miúdas mais novas que querem atingir determinada meta quando essa meta é inatingível. Muitas vezes, aqueles corpos nem sequer são verdadeiros, porque há manipulação da imagem.

Neste momento, e com quase 40 anos, não vou parecer uma miúda de 20, nem quero. Sou uma pessoa de quase 40 anos e que tem um ar de quase 40 anos, mas cuidado. Mas não digo que os comentários não me afetam. Afetam, principalmente quando são feitos com o intuito de magoar. Quando dizem “És feia”, o que é que eu posso fazer em relação a isso? Operar-me? Se me disserem que não gostam do cabelo assim ou de determinado penteado é uma coisa. E, mesmo aí, são opiniões. Se eu mudasse alguma coisa de cada vez que alguém o sugere, transformava-me por completo.

Alguma vez esse feedback foi longe demais?
Não, porque cada vez que um comentário ultrapassa os limites que eu impus a mim mesma como sendo os níveis mínimos de decência para estarem numa rede social minha, eu bloqueio a pessoa e acabou-se o contacto.

Escreve agora menos sobre a sua vida pessoal. É porque perdeu interesse ou porque há conteúdos que dão mais dinheiro?
Acho que não deixou de ter interesse, até porque quem me segue há mais tempo prefere esse tipo de conteúdos mais pessoais. Há pessoas que viveram comigo todas as fases: a miúda que arranjou o seu primeiro emprego, que teve problemas com os namorados, que ganhava mal, que estava a recibos verdes, que arranjava um namorado, que casava, que tinha filhos. Muitas pessoas viveram as mesmas coisas na mesma altura e acho que foi essa empatia que ajudou o blogue a crescer.

Essa empatia não se perdeu quando o blogue ficou menos pessoal?
Há quem diga que sim, que já não me vê como a amiga que estava sempre ali, a “the girl next door”. A verdade é que isto passou a ser o meu trabalho e tenho contas para pagar. É normal que uma grande parte dos meus conteúdos sejam pagos, mas tento que não se perca o lado mais pessoal. No Instagram tenho um conteúdo pago e, se calhar, os cinco seguintes são só de coisas do meu dia a dia.

Quando é que percebeu que poderia viver do blogue?
Não houve uma perceção real, até porque não havia na altura ninguém a fazê-lo. As primeiras propostas surgiram quando eu ainda era jornalista, o que me impedia de avançar com muitas delas. Quando percebi que havia cada vez mais propostas de trabalho às quais eu não podia dizer que sim por ter carteira de jornalista, pensei que talvez estivesse na hora de investir neste projeto. Isto dito assim parece fácil, mas andei para aí “dez anos” até tomar a decisão final. Eu gostava muito do que fazia, estava na “Time Out” desde o número 1 e tinha também muito medo do que poderia acontecer. Não havia ninguém que tivesse feito o mesmo e eu só me imaginava a ir para casa e ficar tipo Bridget Jones de pijama a cantar o “All by myself”. Assustava-me muito o ficar sem dinheiro, dependente do meu marido. Mas pronto, já lá vão uns sete anos e não me arrependo de todo. E trabalho muito mais agora do que alguma vez trabalhei, porque trabalho para mim. Se eu não trabalhar, ninguém o faz por mim.

Acompanhando o crescimento natural das coisas, o blogue passou para as redes sociais. Como é a sua relação com estas plataformas?
Eu sou sempre a última pessoa a chegar a todas as redes, sou muito velha do Restelo e muito cautelosa. Eu fui a última dos meus amigos a aderir ao Facebook, e depois de muita insistência. O Instagram a mesma coisa. Hoje em dia sei que são incontornáveis e são ótimas plataformas para alavancar o meu trabalho. Diria até que atualmente já sou mais instagrammer do que blogger.

Quem é que segue no Instagram?
Sigo cerca de duas mil pessoas, mesmo assim é muita gente.

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Costuma fazer daquelas limpezas às páginas que segue?
Sim. É muito fácil a coisa descambar porque de repente estou a seguir uma série de pessoas quando no fundo não sigo ninguém. Percebi que seguia pessoas que não me aportavam nada, não me faziam rir, não me davam uma ideia de um filme para ver, um restaurante para experimentar, do que quer que fosse. Eram só perfis esteticamente bonitos, mas que dali não se tirava nada. Gostava de seguir no máximo umas 500 pessoas, por isso ainda tenho muito trabalho pela frente.

O que é que faz à quantidade de coisas que as marcas enviam para casa?
Dou muita coisa, a amigos, a familiares, a instituições. É muito fixe receber coisas mas ao fim de 15 anos a receber coisas não é assim tão fixe. De repente, já não sei o que lhes fazer e já nem sequer tenho tempo de vida útil para usar tudo aquilo que me mandam. Eu detesto a ideia de desperdício e ando muito numa de praticar o desapego. Dantes guardava tudo a pensar que podia fazer falta um dia. Agora paro e penso: “Se calhar não preciso de 27 cremes para a cara e se precisar um dia e não tiver, compro”.

Como é que lida com o dinheiro?
Eu cresci numa família de classe média, mais baixa do que alta, e, por isso, os meus pais sempre foram muito incisivos ao passar a mensagem de que é preciso poupar, de que é preciso ter um pé de meia, que é importante não nos endividarmos. Eu acho que os meus pais viveram isso um bocadinho de mais, deixaram de viver algumas coisas para poupar. Eu já não sou tanto assim, mas sempre que recebo os meus pagamentos, parte vai para a minha conta poupança e outra parte para a poupança dos meus filhos. Sou incapaz de me endividar e acho que só comprei uma coisa a prestações na vida.

O quê?
Um iPod, na Fnac. E não é que não tivesse dinheiro para pagar tudo, mas fazia-me confusão dar tanto dinheiro de uma só vez. Mas não tenho problemas em gastar naquilo que me dá prazer.

Que é o quê?
Viagens, experiências gastronómicas e carteiras. Mas já não gasto muito dinheiro em sapatos, como antigamente. A calçada portuguesa é lixada, dá-me cabo dos sapatos todos, não vale a pena. Mas não me faz sentido estar a poupar para um dia mais tarde os usar, se nem sei se esse dia vai chegar.

Até chegar ao patamar em que está hoje, já teve de trabalhar de graça?
Enquanto jornalista, foi assim que comecei. Aí, fazia-me sentido porque era um estágio. Entrava às 5 da manhã na Antena 1, e às 2 da tarde ia para “A Capital”, até às tantas. Foram meses loucos, mas achei que essa era a altura certa para o fazer. E mais tarde, até o blogue ganhar alguma dimensão, fiz coisas de graça. Aliás, ainda hoje faço. As pessoas têm a ideia errada de que sempre que falo de uma marca é porque me pagaram. Não. Tenho até uma rubrica no blogue na qual dou a conhecer marcas portuguesas ainda com pouca visibilidade.

Qual foi a proposta mais absurda de uma marca que recebeu?
Uma marca de sapatos mandou-me um sapato de cada cor e avisaram-me que só se eu escrevesse sobre aquilo é que recebia o par da mesma cor. Ou uma marca de lentes de contacto que só me mandou uma das lentes. Ou então propostas a custo zero. Houve uma grande marca, mas uma grande marca mesmo, que queria fazer uma parceria e eu perguntei qual seria o retorno, eles disseram que não me davam nem o produto nem dinheiro e que podiam apenas emprestar-me as carteiras para usar quando quisesse. Disse que não, como é óbvio. As próprias marcas estão a adaptar-se a tudo isto. Estão ainda habituadas a trabalhar com os meios tradicionais, como a rádio, os jornais e a televisão e agora têm que lidar com isto dos influenciadores.

É óbvio que tenho muitos convites, mas não tenho convites todos os dias e sou incapaz de fazer o que muitos fazem de ligar a dizer: “Olhe vou comer aí e depois escrevo”. Tenho imensa vergonha. Mas se me convidam, aceito”

Quando é foi a última vez que pagou para dormir num hotel ou para comer num restaurante?
Para comer num restaurante deve ter sido ontem. Ah, e paguei este pequeno-almoço!

Isto é uma provocação.
Eu sei. É óbvio que tenho muitos convites, mas não tenho convites todos os dias e sou incapaz de fazer o que muitos fazem de ligar a dizer: “Olhe, vou comer aí e depois escrevo”. Tenho imensa vergonha. Mas se me convidam, aceito. É porreiro não pagar uma refeição, mas se eu quiser ir experimentar um restaurante vou e pago.

Se o blogue A Pipoca Mais Doce começasse agora, tinha lugar?
Eu beneficio do fator antiguidade. Não é um posto, mas a idade dá-me alguns privilégios. As redes sociais fazem com que seja mais fácil divulgar o meu trabalho, mas por outro lado há muita gente no mercado e é difícil sobressair. Já pensei criar um blogue de raiz, anónimo, para escrever tudo o que me viesse à cabeça, como fazia no início do blogue e agora não posso.

Tem que se filtrar muito?
Muito mesmo. É o preço a pagar pela minha paz de espírito e não ter gente a infernizar-me a vida todos os dias.

É habitual vê-la com outras bloggers, algumas imagino que são também amigas. Ainda mantém algum amigo de infância?
A minha amiga mais antiga é minha amiga há 28 anos. Meu Deus. Mas a maioria dos meus amigos são do mercado laboral. Os meus grandes amigos são meus amigos há 15 anos, já não é nada mau. Tenho uma relação cordial com algumas bloggers, mas não tenho amigas.

Como recorda a sua infância?
Foi muito feliz. Vivi no centro de Lisboa e brincava na rua, algo que agora é impensável. Morava na Rua de O Século e a minha infância foi passada no Jardim do Príncipe Real. Tenho memória das noites quentes no jardim, de brincar lá com os meus vizinhos, de ir ao talho e às mercearias do Bairro Alto com a minha mãe.

Tenho saudades dessa liberdade e tenho pena que os meus filhos não a tenham. Mas voltando até à questão do dinheiro, lembro-me de não ter tudo o que queria. Lembro-me de ansiar muito por uma coisa, de esperar pelo Natal, de brincar com o brinquedo até à exaustão, algo que os meus filhos não sabem o que é. Tento passar-lhes essa mensagem, mas sei que o meu filho, o Mateus, não valoriza as coisas como eu valorizava. Tem uma pontinha de ingratidão que me chateia.

De repente fiquei filha única e percebi que os meus pais, que envelheceram 20 anos com a morte do meu irmão, não podiam voltar a passar por aquilo”

E como era na adolescência?
Foi super tranquila, nunca dei chatices. Gostava muito de estudar, não usei drogas, nunca fumei, nunca bebi. Mas os meus pais também não me davam muita margem de manobra, eram exigentes. A única chatice eram os recados que vinham para casa a dizer que falava muito, que desestabilizava a turma, que contava piadas. Isto do humor já estava enraizado.

Mas houve uma coisa marcante a acontecer no final da adolescência, a morte do seu irmão.
Sim, eu tinha 18 anos e ele 22. O que eu senti é que tinha uma pressão muito grande em mim. De repente fiquei filha única e percebi que os meus pais, que envelheceram 20 anos com a morte do meu irmão, não podiam voltar a passar por aquilo.

Mudou-a enquanto filha?
Eu já era responsável, mas fiquei ainda mais. Passei a viver com aquele peso de que não me pode acontecer nada e não era por mim, era por eles. Se isto acontece outra vez, se eles perdem outro filho, eles morrem. Ainda hoje, casada, com filhos e com quase 40 anos, quando vou para algum lado a primeira coisa que faço ao chegar é ligar aos meus pais. Principalmente porque o meu irmão morreu num acidente de carro.

E até aí volto a pegar na minha relação com o dinheiro. O meu irmão morreu num segundo, com 22 anos, e não viveu nada. Eu não quero viver permanentemente a pensar no dia em que vou usar o dinheiro. Eu sei lá se não me levanto daqui e me passa um autocarro por cima.

Os ataques de pânico começaram nessa altura?
Não, foi muito mais tarde, em 2010, no ano em que me casei. Estava no cinema a ver um filme de animação com uma amiga e de repente comecei a ter a sensação de morte iminente. O coração disparou e eu pensei: “Vou morrer”. Fui para o hospital em quatro piscas, cheguei lá, fiz todos os exames como boa hipocondríaca que sou, e nada. Mas os ataques aconteceram mais vezes e passaram a limitar a minha vida. Eu não saía de casa com medo que voltassem a acontecer de repente. Eu achava que não podia ser da cabeça, porque os sintomas eram reais. Mas lá me convenceram a ir a uma psiquiatra, já num quadro depressivo, e percebi que aquilo eram crises de pânico. Agora, continuo a ser ansiosa, mas como sei identificar os sintomas de uma crise, consigo controlá-los e evitar a medicação.

A maternidade acalmou-a ou deu-lhe mais ansiedade?
Eu sou ansiosa com as coisas ligadas aos miúdos, tenho uma atitude muito profilática. Antevejo todos os perigos, todas as asneiras, todas as desgraças. Prefiro tirar-lhes um bocadinho de liberdade e garantir a segurança, do que deixar que façam tudo o que querem e acabar no hospital com cabeças partidas, como já aconteceu com o Mateus várias vezes.

Antes de ser mãe, nunca se assumiu como fã de crianças. Isso mudou com a maternidade?
Gosto muito dos meus filhos, mas dos filhos dos outros, hum, se calhar não tanto. Nunca fui de todo amante de crianças, nunca tive o mínimo jeito. Mas isso curiosamente até atrai as crianças, que costumam achar piada a quem não lhes liga assim tanto. Houve uma fase que achei que nem queria ter filhos, que não precisava disso para me validar. Nunca tive esse objetivo. Mas chegou um momento em que começou a fazer sentido, não tanto o ter filhos, mas sim o ser mais velha e ter uma família, ter netos. Mas para isso há que ter filhos primeiro, não é? Lá tive o primeiro e ainda demorei cinco anos a avançar para o segundo e hoje até me arrependo de não ter sido mãe mais nova. Tenho quase 40 anos de diferença da minha mãe e há um gap geracional muito grande e não queria isso para os meus filhos. Mas acabei por ter o Mateus com 32, a Benedita com 37 e agora penso que devia ter tido o segundo mais cedo para equacionar um terceiro. Não é hipótese posta totalmente de lado, mas não sei se me meto nessa aventura. Tinha que ser já e a Benedita ainda é muito pequenina. Mas eu gostava. Olha, não sei, vamos ver.

Mostrar ou não os seus filhos chegou a ser equacionado?
Não mostrei nenhum dos dois nos primeiros meses. Esses são momentos que gosto de guardar para nós. As pessoas são mazinhas e conseguem tecer comentários negativos e eu não queria isso. Não estava para ouvir ninguém dizer que eram feios ou gordos ou o que quer que fosse.

Eu sempre falei da minha vida de uma forma tão natural que não me faz sentido de repente pô-los numa redoma. Tento não fazer um uso abusivo da imagem deles e a verdade é que o meu blogue nunca passou a ser um mommy blogue e, por isso, se eles nunca aparecerem, os meus conteúdos continuam a fazer sentido. O Mateus agora já não acha tanta piada e por isso aparece menos. E no dia em que ele me disser que não quer aparecer mais, é isso que vai acontecer.

Eu não tenho mau fundo, não sou mal intencionada nem desejo o mal de ninguém. Mas a minha visão de todas as situações é sempre um bocadinho mais azeda, mais negativa. Sou excessivamente sarcástica e, para quem não me conhece bem, pode achar isso desagradável”

E como acha que eles vão reagir enquanto adultos a todos os conteúdos partilhados quando eles ainda não tinham poder de decisão?
Eles vão crescer com isso. Não vai ser algo do género: “Acordei aos 25 anos e percebei que a minha vida está toda na internet”.

E se fosse consigo? Se a sua mãe fosse A Pipoca Mais Doce?
Lá está, se eu tivesse crescido com isso seria uma coisa normal. Mas não consigo antecipar. Se calhar o Mateus daqui a uns anos vai pedir-me para tirar tudo o que publiquei sobre ele na internet e assim o farei.

Uma vez descreveu-se como sendo má pessoa. É mesmo?
Eu não tenho mau fundo, não sou mal intencionada nem desejo o mal de ninguém. Mas a minha visão de todas as situações é sempre um bocadinho mais azeda, mais negativa. Sou excessivamente sarcástica e, para quem não me conhece bem, pode achar isso desagradável. E acontece até com amigos que me conhecem bem e a quem tenho que explicar que estou a gozar. Mas percebo que para algumas pessoas seja demais.

Não tem medo de que, agora que passou para o stand-up, o público não perceba o seu humor?
Eu acho que é diferente fazer piadas no registo stand-up ou num blogue ou no Instagram. Eu não me assumo como humorista. É um título pesado e que não devemos ser nós a atribuí-lo a nós. 90% das pessoas percebem o meu humor e 99% sabe que estou a brincar, mas há sempre quem fique melindrado. Mas quem vai ver stand-up, à partida, sabe que vai ver humor e eu gosto dessa liberdade. É quase como retomar aos primórdios do blogue, quando eu não tinha filtro e dizia o que queria.

No mundo da comédia, há tantos egos como no dos blogues?
Ou mais! Só o facto de subir a um palco para fazer rir os outros é, por si, um ato egoico. “Ah, vou dizer umas piadas e as pessoas vão-se rir” . Os humoristas vivem tudo de uma forma exacerbada. Primeiro, é um núcleo muito masculino, muito fechado, há quase um compadrio.

Ser mulher nesse mundo, exige um esforço extra?
Eu sofro de um duplo preconceito: sou mulher e blogger e, por isso, sou logo rotulada de tonta, de fútil. Há sempre a ideia do “Vai mas é fazer piadas sobre sapatos que é o que tu sabes fazer”. Sei que quando subo ao palco tenho essa dupla barreira para ultrapassar. Há quem vá ao meu espetáculo de pé atrás: “‘Espera lá que é uma mulher e vem de um blogue”.

Ainda que sinta as coisas a mudar, sinto também que nos são impostos limites que não são postos aos homens, tanto em termos de linguagem, de postura, de piadas. Sempre ouvi que não posso dizer asneiras e que tenho que ter cuidado com a linguagem. É o “não sejas ordinária” e isso nunca se diz a um homem.

Achava que seria um mundo mais fácil?
Para mim é fácil porque percebi que não tenho de fazer um esforço para agradar aos meus pares. Quero que o meu reconhecimento venha do público, não me interessa muito se os meus colegas me acham piada ou não. Obviamente que quero ter uma relação cordial e porreira com as pessoas com quem trabalho, mas no meio humorístico há muito a ideia de que somos todos muito amigos mas há muita facadinha nas costas. No fim das atuações todos dizem uns aos outros que foram incríveis, mas por trás se calhar foi uma merda e não teve piada nenhuma. Isso só contribui para que sejamos medianos e não melhores. Eu não quero que me digam que tive muita graça quando eu sei perfeitamente que não correu bem. Lido com desconfiança aos elogios, principalmente quando sei que as coisas não me correram bem.

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Quem é que lhe acha piada?
Na tour, as pessoas compram bilhete para me verem, então serão pessoas que já acompanham o meu trabalho. Maioritariamente mulheres e maridos arrastados por elas. Há muita gente que só ficou a conhecer o meu trabalho quando fui ao “Levanta-te e Ri” e ao roast ao Toy e do José Castelo Branco. Ai tive muita gente, muitos homens principalmente, surpreendidos e a dizerem-me que não me seguiam e que achavam que só escrevia sobre batons e sapatos.

E a quem é que acha piada?
Acho muita piada ao Sinel de Cordes, que é um condenado pelas piadas que faz, mas eu acho-lhe graça. Acho muita graça ao Hugo Sousa, ao Guilherme Duarte, ao Guilherme Fonseca. Mulheres é que não há muitas. Ou melhor, até há. Faço parte de um grupo no WhatsApp que se chama “Mulheres no humor” e tem umas trinta pessoas. Mas gosto de ver mulheres a atuar. Estou atenta ao tipo de piadas, à forma como se vestem até.

Num roast à Pipoca, qual seria a piada mais fácil?
Tenho muitas coisas que são facilmente gozáveis. O vir de um blogue, o ser benfiquista, o ser casada com outro blogger. Há muito material para pegar,mas não há nada que digam sobre mim em contexto humorístico que me chateie. Desde que tenha piada e não seja insulto gratuito, eu acho piada. No roast, houve muita gente a perguntar se eu não tinha ficado chateada com as coisas que disseram sobre mim. Mas não fico mesmo. Àquela eterna pergunta sobre os limites do humor, eu respondo que não, não há limites. Desde que seja uma boa piada, vale tudo e se uma piada for boa, tem de se fazer.