O processo é simples: as pessoas registam-se como potenciais dadores de medula óssea e aguardam que sejam chamados para o momento da doação. O problema é que, apesar de se terem comprometido, quando chega a altura há muitas pessoas que desistem de doar a medula óssea, colocando os doentes em risco de vida.

Só no ano passado, de acordo com o “Jornal de Notícias“, 80 pessoas inscritas para fazer a doação de medula óssea, desistiram quando foram chamadas para fazer a doação a um doente com quem são compatíveis. Em 2017 formam contabilizadas 110 desistências — menos 30 do que os últimos números — mas ainda assim, este valor é elevado dado que significa que 30 doentes (com diferentes patologias que podem ir desde defeitos genéticos até às doenças oncológicas) não receberam o transplante de medula óssea, que é o recurso terapêutico final que lhes assegura a sobrevivência.

Ainda que, de acordo com a Associação Portuguesa de Contra a Leucemia, Portugal seja atualmente o segundo maior registo de dadores da Europa e o terceiro do mundo, há várias questões que ficam por responder sobre os números de desistências. Porque é que os dadores recusam quando o processo é ativado? O que é que faz com que estas pessoas mudem de ideias depois de terem tomado a decisão de forma voluntária?

As respostas estão relacionadas com vários mitos que persistem. Mas antes de desmistificar as ideias que fazem com que algumas pessoas receiem fazer a doação, é preciso perceber o que é a medula óssea.

“É como se fosse um órgão, como o fígado, que está responsável pela produção do nosso sangue. Ou seja, é como se fosse a fábrica de sangue que produz as hemácias, as plaquetas e os glóbulos brancos”, explica à MAGG a hematologista Daniela Alves, do hospital Lusíadas, em Lisboa. A especialista acrescenta que são estes glóbulos brancos que produzem os leucócitos (responsáveis pela resposta imunitária) e defendem-nos das doenças bacterianas. Estes estão, normalmente, em maior quantidade na zona da bacia nas pessoas adultas.

O transplante de medula óssea torna-se necessário, quando esta deixa de funcionar ou devido a doenças oncológicas. Neste último caso, “tendo em conta que a medula óssea do doente com leucemia produz células más, assim que este apresenta algumas melhoras com os tratamentos de quimioterapia, a melhor maneira de manter a resposta é fazer uma substituição da medula”.

O que é que acontece depois disso? Dado que o sistema imunitário que o doente tem já não é o dele, e que o do dador nunca esteve exposto a nenhum célula cancerígena, funciona como se fosse um sistema de vigilância contínua da doença. Isto é, quando esta quer voltar, estão lá as células do novo sistema imunitário com uma maior capacidade para combater essas células más.

Mas para esclarecer todas as dúvidas sobre o processo de doação, a MAGG falou com a hematologista do hospital dos Lusíadas que desmistificou vários mitos sobre a doação de medula óssea.

O processo de registo como dador é burocrático?

“Não. E o problema muitas vezes é esse. A maior parte das pessoas são dadoras porque houve uma campanha de sensibilização por causa de um doente ‘conhecido’, como por exemplo, na angariação de dadores através do Facebook para uma criança que está doente. O que acontece muitas vezes é que as pessoas vão-se registar pensando naquela pessoa e depois quando são chamadas já não se lembram que se tinham registado”, refere a hematologista.

Outro dos exemplos acontece em terras mais pequenas, em que a população vai-se registar e muitas pessoas não percebem muito bem em que consiste e quem está a fazer o registo não tem muito tempo para explicar os pormenores.

Por isso, o que é importante é tomar consciência da decisão, já que o registo não tem nada que saber: basta preencher um impresso e tirar uma pequena amostra de sangue, como indica a Associação Portuguesa conta a Leucemia.

É possível conhecer o doente a quem se doa a medula?

Também aqui a resposta é negativa. Daniela Alves indica que as pessoas nunca vão saber quem é a pessoa para quem estão a doar: “Tanto pode ser uma pessoa cá em Portugal, como alguém de outro país. Assim como nós também temos pessoas do registo alemão, ou americano, por exemplo, que vão para os nossos doentes. Às vezes as pessoas ficam de pé atrás por darem para uma pessoa desconhecida”.

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As células da medula extraem-se através de uma intervenção cirúrgica?

“Não existe cirurgia, é como se fosse uma transfusão de sangue, mas só se doam as células”, explica a hematologista Daniela.

Para extrair as células da medula há dois métodos: a forma mais clássica — a doação de medula — em que faz-se uma colheita de medula óssea a nível do osso ilíaco. Tendo em conta que seria impossível fazer essa extração com o dador acordado, este é levado para o bloco operatório, onde é-lhe dada uma anestesia geral. Depois a colheita é feita, normalmente, dos dois ilíacos e a medula é inspirada.

A outra forma é doar progenitores de sangue periférico que estão em circulação no sangue. E qual é o processo neste caso? “Requer que, uns dias antes, haja uma estimulação de fatores de crescimento através de injeções que levam à produção de células progenitoras. Ao serem estimuladas, essas células acabam por vir para o sangue e o dador é ligado a uma máquina como se estivesse a fazer diálise”.

Aquilo que acontece é que o sangue sai do braço, entra na máquina, e depois há um separador celular que encontra a zona de densidade que se quer e essas células são separadas. Este processo é mais fácil, já que não requer anestesia geral, tendo, por isso, menos riscos. E é precisamente sobre os riscos de que se trata o próximo mito.

A anestesia dada para retirar as células da medula pode levar é a paralisia?

É um mito que tem origem na ideia de que para doar medula óssea é necessário mexer na coluna. Só que Daniela Alves diz que este processo não tem nada a ver com a coluna.

“Uma coisa é a coluna que passa a meio. Outra coisa é o osso da bacia que é um bocadinho mais ao lado. Ou seja, não tem nada a ver com punções lombares. As pessoas tem tendência a confundir punção lombar com punção do osso ilíaco”.

Há dor?

Também não. Quer seja no bloco (que envolve a anestesia geral, logo não vai sentir nada), ou através da máquina, nenhum processo envolve dor.

Pode-se desenvolver leucemia depois da doação?

Esta questão é muitas vezes colocada devido à extração de medula que envolve as injeções que estimulam os fatores de crescimento. Ora, as pessoas pensam que, mais tarde, podem vir a desenvolver uma leucemia porque estimularam a medula.

“Isso é completamente falso. A grande maioria dos centros que faz colheita de células progenitoras normalmente vigia os dadores e o registo é igual ao da população normal. Não aumenta o risco de cancro de qualquer tipo”.

O dador pode ficar com anemia?

É normal que, depois da extração de células do corpo, haja tendência para que os valores das células sanguíneas desçam. Mas é por isso mesmo que os dadores fazem análises para ver se está tudo bem. “O nosso objetivo principal é garantir a segurança dos dadores”, refere a especialista.

Pode fazer-se mais do que uma doação?

Os dadores só podem doar medula óssea uma vez durante toda a vida. A hematologista Daniela Alves explica que o que pode acontecer é que a medula do dador não seja suficiente para o doente recuperar e, nesse caso, é-lhe pedido linfócitos — que é como se estivessem a dar sangue.

Os dadores podem sempre recusar, mas há muitos que são bastante benévolos e estão sempre prontos a dar.

Pode-se voltar de imediato à rotina diária?

O processo de recolha de medula óssea requer pelo menos três dias de internamento: “Por exemplo, entram num dia de manha, fazem a colheita, depois ficam em vigilância e saem no dia seguinte”, explica a especialista.

Depois, na maior parte das vezes, é-lhes dada baixa. O que pode ainda acontecer é que no método de doação de progenitores de sangue periférico, seja necessário que o dador use um catéter, não devendo fazer esforços, e é por isso que, também neste caso, está normalmente uma baixa associada.