Tiago Aldeia. “Se nós atores fizéssemos uma greve não parávamos o País”

É mais conhecido por Rodas, o bad boy com pinta de "Morangos Com Açúcar" mas, em entrevista, garante que sempre foi um miúdo muito certinho.

Tiago Aldeia diz que "Morangos Com Açúcar" deveria regressar porque "nunca deixámos de ter jovens" — que possivelmente não se sentem representados na televisão

Paulo Simões

Há atores que, independentemente dos anos de carreira que tenham, vão permanecer para sempre associados a uma das suas personagens. No panorama nacional, Nuno Homem de Sá nunca vai deixar de ser António da novela “Ninguém Como Tu”, exibida na TVI em 2005, e cuja morte e a busca pelo assassino pararam o País. As séries internacionais não fogem a esta regra e Michael C. Hall será sempre reconhecido como o homossexual complexado e não assumido de “Sete Palmos de Terra”, mesmo com a popularidade que “Dexter” alcançou.

Tiago Aldeia, o ator de 33 anos, tem quase 16 anos de carreira. Já fez televisão, cinema e teatro mas foi através da personagem Rudolfo Damião (ou Rodas) de “Morangos Com Açúcar” que ficou conhecido. Embora os anos tenham passado desde que integrou o elenco da série juvenil, em 2003, Tiago mantém as feições, a personalidade extrovertida e até um ar de bad boy que pediu emprestado a Rodas.

No entanto, e em entrevista à MAGG, o ator que faz parte do elenco de “Nazaré”, a nova novela da SIC, desvaloriza e diz que nunca foi o “rebelde com piada” em que Rodas se tornou.

“Era um miúdo muito certinho”, garante, mas não esconde a influência que a personagem teve em si. Durante a conversa, Tiago falou da televisão portuguesa — de como se faz muito com tão pouco — e defendeu que os “Morangos Com Açúcar” preencheram um gap geracional que hoje talvez não se encontre representado na ficção nacional.

“Nunca deixámos de ter jovens em Portugal. Perguntam-me sempre quando é que os ‘Morangos’ vão voltar e eu acredito que deviam voltar. Sempre é mais pedagógico do que algumas das referências que existem no YouTube que os putos vão ver hoje em dia.”

Passou pela fase de querer ser astronauta ou bombeiro ou sempre quis ser ator?
Essa fase aconteceu quando era muito novo. Devia ter 6 ou 7 anos, mas lembro-me que queria ser jogador de futebol, guarda-redes ou médico. Mas rapidamente, e os teatros da escola tiveram muita influência nisto, percebi que podia ser tudo se fosse ator. No fundo, a opção que tomei foi essa: escolher um trabalho que me permitisse continuar a brincar e a fazer de todas as profissões.

Essa paixão pela representação nasceu só por opção ou tinha influências?
O meu pai sempre trabalhou em produção de televisão e, como ator, também fez alguns papéis. À medida que fui crescendo fui também acompanhando-o nas gravações das primeiras novelas, ia ao teatro, tinha oportunidade de ir aos bastidores e fazer parte daquele ambiente que na altura achava tão especial.

Lembra-se do seu primeiro papel, ainda que a brincar?
Perfeitamente. Foi num dos teatros da escola e fiz de José, pai de Jesus. Na altura era muito novo mas fiquei rendido à mística e às luzes do palco.

Havia muito nervosismo?
Muito, mesmo. Recordo-me de estar muito nervoso ao ponto de achar que as palavras não me saíam. Ao mesmo tempo, essa adrenalina fascinou-me e ainda hoje lhe acho piada.

E hoje, já com vários anos de carreira, ainda sente esse nervosimo?
Sim, sempre [risos].

Tem um ritual específico?
No cinema e na televisão não tanto, mas no teatro tenho alguns. Gosto de estudar bem as cenas, perceber de onde venho e para onde vou, sentir-me no percurso de personagem.

Em teatro gosto de entrar com o pé direito no palco, prefiro estar em sossego total antes de assumir uma cena, rever tudo na minha cabeça e meditar um bocadinho para atrair boas energia. Depois tenho aquelas coisas que são rituais mesmo estúpidos. Se costumo entrar no teatro por um lado, começo a entrar por outro.

É mais supersticioso no teatro?
Muito mais, sim. Principalmente porque estou a ser visto por uma plateia e porque, nesse contexto específico, há muita energia e há uma troca direta entre os atores e o público. Talvez por isso tenha mais atenção a esse lado espiritual, digamos assim.

A ideia que tem da representação é agora muito diferente da que tinha com 16 anos, quando desempenhou o seu primeiro grande papel em “Morangos Com Açúcar”? Houve um deslumbramento?
Não sei se pelo o facto de já estar habituado a toda a aquela envolvência ou de já ter alguma familiaridade com o meio, nunca fiquei deslumbrado. Fiquei feliz por estar a concretizar um sonho porque, na adolescência, aquilo era mesmo o que eu mais queria fazer.

Já passou pelo teatro, cinema e televisão. O que é que encontra num meio que não encontre noutro?
Acima de tudo, gosto de representar e fico mesmo muito feliz seja em qual for o meio. Basicamente, o teatro tem muito que ver com o imediato e com uma coisa, uma experiência, que acontece ali entre os atores e o público que está a assistir naquela sala. Tudo o que acontece ali não é replicável em mais momento nenhum, por muito que a cena se repita em exibições futuras da peça.

A televisão é uma coisa muito mais frenética e não há grande tempo para respirar, ao contrário do teatro onde estás durante cerca de um mês a ensaiar. Mas essa rapidez entre cenas também me dá pica porque obriga a uma desenvoltura muito grande.

Qualquer ator se dá bem em televisão?
Diria que não. Um ator de televisão tem de saber lidar com altos níveis de pressão durante as gravações. O cinema, pelo menos utopicamente, é uma mistura entre a televisão e o teatro, já que geralmente implica uma fase de pré-preparação e de investigação muito maior. E digo utopicamente porque em Portugal não há dinheiro e, muitas das vezes, somos obrigados a fazer filmes em 15 dias.

O paradigma da ficção portuguesa mudou muito nos últimos anos. Para melhor?
Sem dúvida que sim. Temos, na nossa sociedade, o dom de fazer muito e bem, mas com pouco — e a ficção não foge muito dessa realidade. Tivéssemos nós o orçamento de uma Globo e faríamos as coisas de forma muito diferente, mas é importante perceber que somos só dez milhões e não 211 milhões [número da população no Brasil registada em 2019]. Por isso, no Brasil as coisas são feitas tendo essa escala em consideração.

Um das críticas que se faz à ficção portuguesa é que há maior foco no campo da imagem do que no argumento, que por vezes falha em vários pontos.
Em televisão todas as coisas contam. Imaginemos uma atriz que está a representar uma cena maravilhosamente bem no quarto dela e, de repente, vai à gaveta da sua mesa de cabeceira que supostamente está cheia de coisas. Abre a gaveta e nós, espectadores, vemos que está totalmente vazia e só lá está um papel.

Apesar de muitas vezes se notar falhas no argumento, este momento em específico nada tem que ver com isso nem com o desempenho da atriz. Tem que ver com a equipa de produção, os adereços e, em última instância, o realizador que permitiu que aquilo acontecesse daquela forma. Isto para dizer que não é só em termos de argumento que as coisas podem falhar. Há uma série de fatores que vão construindo a qualidade das coisas e não serve de muito ter um argumento incrível se depois a realização não consegue acompanhar.

Tiago Aldeia revela que durante algum sempre sentiu-se incomodado por só o reconhecerem como Rodas

Paulo Simões

Tem havido uma preocupação crescente na qualidade mas temos que ter consciência de que o produto novela tem uma receita e, portanto, nunca dá para fugir muito disso.

Sobre a televisão, Pedro Boucherie Mendes disse numa entrevista ao “Observador” que “a nossa ficção é absolutamente heroica”, em parte porque muitos dos projetos acontecem mesmo com um orçamento muito limitado. Vai ao encontro da sua posição anterior.
Se nós atores fizéssemos uma greve não parávamos o País. No máximo, as pessoas não viam televisão e não iam ao teatro ou ao cinema. Mas a verdade é que é dos meios que está cada vez pior, não só em termos de condições de trabalho, mas também em questões de pagamentos que vão-se diluindo com o tempo.

Existe a ideia de que à medida que os anos vão passando, as pessoas vão ganhando mais e vai havendo melhores condições. Isso não acontece em representação, salvo as devidas exceções. Para dar razão a essa afirmação, é verdade que cada vez tentamos fazer mais com menos.

Por isso irrita-o que falem mal da ficção portuguesa?
Quando nos comparam com a ficção brasileira, de forma errada, sim. Há uma forma correta de fazer esta comparação que é olhar para os orçamentos deles e perceber para o número de população para que estão a trabalhar. O nosso maior sucesso não é o maior fracasso deles em termos de audiências.

Só a língua, o sotaque e o jeito deles é naturalmente mais fluido. São culturas diferentes com realidades também elas muito distintas. E irrita-me quando se compara o nosso produto ao deles. Seria o mesmo que comparar uma novela nossa a uma série americana. Não podemos.

Se calhar temos dez mil euros para fazer um episódio (e estou a mandar para o ar um valor destes sem ter certeza sobre ele) e eles têm 100 mil. Não se fazem omeletes sem ovos. Reforço: temos cada vez mais mérito por tudo aquilo que conseguimos fazer com tão poucos ovos.

Há atores que nunca vão ser separados das suas personagens mais icónicas. No seu caso foi a personagem de “Morangos Com Açúcar”. O facto de ainda hoje o conhecerem como Rodas causa-lhe algum desconforto?
Durante uns tempos causou porque depois dos “Morangos” fiz muita coisa mas as pessoas só se focavam nessa personagem. Depois parei para pensar e percebi que era um privilegiado. Principalmente porque tinha dado vida a uma personagem que marcou gerações e continua a marcar as pessoas cada vez que a novela é reposta.

É que embora as reposições de “Morangos Com Açúcar” já não tenham assim tanto impacto, de vez em quando aparece-me um miúdo na rua que me trata pelo nome Rodas. Eu percebo que a tendência seja reconhecerem-me pelo Rodas mas já sabem o meu nome e que fiz outras coisas.

Na altura da série a televisão tinha outro impacto. Pode ser por aí?
Claro. Não havia Facebook ou Instagram e as pessoas saíam de onde estavam para ver os “Morangos” e as coisas marcavam muito mais do que marcam agora. A oferta não era tanta e havia a tradição de se ver aquilo enquanto atualmente há uma dispersão muito maior. Será difícil eu voltar a ter outra personagem tão interessante e tão marcante como o Rodas numa conjuntura semelhante.

Mas a verdade é que, nas temporadas seguintes, ainda estávamos nesse contexto e não houve um “vilão” tão interessante como o Rodas. Isso tem uma explicação?
Espero que tenha que ver com o meu talento [risos]. Mas sim, tenho essa noção e estou muito grato por isso. Prova desse impacto é a quantidade de comentários e reações que uma publicação de Instagram como uma fotografia do Rodas gera.

A explicação pode ter que ver com o facto de ser uma personagem interessante que debatia temas dos quais não se falava muito na altura, como o uso de drogas. O Rodas era um rebelde com alguma piada e isso resultou.

Também o Tiago era o típico bad boy?
Não era um bad boy, de todo. Talvez me tenha tornado mais do que aquilo que alguma vez fui [risos], mas era um miúdo muito certinho. Normal, vá. Estava ali entre o meio termo, pronto…

Não se quer comprometer.
Não [risos]. Na verdade, fiquei mais rebelde depois de ter dado corpo ao Rodas.

Porque lhe é difícil sair das personagens que interpreta?
Durante uns tempos, pelo menos para mim, é normal que pequenos traços da personagem fiquem comigo. Estive dois anos em cena a fazer de Cajé na comédia “Mais Respeito que sou Tua Mãe!”, e o Cajé é muito labrego. A personagem falava muito alto e eu, na minha vida diária, fazia o mesmo. Dava por mim a ter de me controlar na maneira como me dirigia às pessoas porque esse traço ficou comigo durante algum tempo.

Apesar de uma geração de atores ter passado pelos “Morangos”, a novela sempre foi olhada com algum preconceito.
Mais no início, depois passou. Na altura toda a gente achava muita piada criticar o projeto.

Essas críticas vinham de atores veteranos?
Sim, que por acaso acabaram por lá passar. O que não deixa de ser curioso. Não percebiam como é que uma série podia ser sustentável com um elenco juvenil e tal, mas depois durou uma série de anos e alguns até passaram por lá.

Também é verdade que muitos dos atores que por lá passaram, acabaram por ficar pelo caminho. Um deles foi o ator João André que se juntou ao Carlos Coutinho Vilhena para contar a sua história numa série documental. Esteve a par?
Vi algumas coisas e achei interessante terem-lhe dado essa oportunidade. Mas, efetivamente, temos um mercado pequeno e perderam-se muitos e bons atores. Mais grave ainda: há atores que com 40 ou 50 anos de carreira que também se perdem e estão durante muito tempo sem fazer coisas novas.

É o lado assustador desta profissão porque há mil cães a um osso e não há oportunidades para todos. O facto de sermos um País pequeno com um mercado pequeno só potencia este lado mais negro.

Num dos episódios desse documentário, João André diz que o que mais lhe custou aceitar foi que, independentemente do talento, era importante ter uma boa gestão de carreira. É difícil de engolir?
Completamente. Mas há outro fator muito importante que é a sorte e é preciso muita, mas mesmo muito sorte para se singrar neste mercado.

Mas a sorte não se controla.
Precisamente, daí a elevada dificuldade do meio. Tal como o João, embora numa escala muito diferente, também tive alturas em que estive sem trabalho e por isso obriguei-me a estar sempre atento e a pensar em novos projetos. É o caso deste Chasing Sunsets que surgiu decorrente do meu gosto por viagens.

Sempre que tinha oportunidade, mesmo durante trabalhos, pegava no carro e arrancava às vezes sem destino. As pessoas, ou seguidores, que me acompanham sempre tiveram curiosidade em saber mais sobre sítios para aonde ia. Foi aí que surgiu essa oportunidade — a de mostrar os melhores pôr do sol em Portugal, que é uma coisa que fascina toda a gente.

Nessa busca, passa-se por sítios incríveis que a maior parte das pessoas não conhece e assim vamos dando a conhecer o nosso País de uma forma digital e mais orgânica com vídeos curtos e dinâmicos.

Havia um gap geracional que os “Morangos Com Açúcar” preenchiam?
Ainda há, porque não deixámos de ter jovens em Portugal. Perguntam-me sempre quando é que os “Morangos” vão voltar e eu acredito que deviam voltar. Sempre é mais pedagógico do que algumas das referências que existem no YouTube que os putos vão ver hoje em dia.

Acho que também vai ao encontro de uma das minhas preocupações que é o facto de achar cada vez mais importante que pais e filhos se sentem a ver a mesma coisa para, logo a seguir, debaterem sobre a cena que acabaram de ver. Os “Morangos” assumiram durante muitos anos esse papel e esse lado mais pedagógico que uma série também pode ter.

Isso vem contrariar o paradigma atual em que na Netflix, por exemplo, os episódios saem todos de uma vez e nunca ninguém vê uma série ao mesmo tempo. Já não há essa cultura de acompanhar um programa todos os dias à mesma hora.
É verdade, da mesma forma que agora também já se pode puxar os programas para trás através das novas boxes. Hoje vê-se tudo de forma muito diferente e a várias velocidades.

Partilhe
Fale connosco
Se encontrou algum erro ou incorreção no artigo, alerte-nos. Muito obrigado. [email protected]