Tenho familiares e amigos tóxicos. O que é que posso fazer para lidar com isso?

Foi a pergunta desta semana de uma leitora. Infelizmente, a família é um dos palcos mais comuns nos quais se desenrolam as relações tóxicas.

Problemas emocionais e psicológicos como ansiedade, pânico, fobias e depressão (só para mencionar alguns) costumam ser os primeiros a manifestar-se na relação com pessoas tóxicas

Os leitores perguntam, a psicóloga Sara Ferreira responde. É assim todas as semanas. Saúde, amor, sexo, carreira, filhos — seja qual for o tema, a nossa especialista sabe como ajudar. Para enviar as suas perguntas, procure-nos nos Stories do Instagram da MAGG.

Querida leitora,

Geralmente, existe a ideia de que uma pessoa “tóxica” é aquela personagem de “film noir”, com ar transtornado, que anda por aí e com as quais não temos assim tanta ligação emocional ou que trazem o rótulo “perigoso” estampado na testa.

Desenganem-se os leitores desprevenidos. Infelizmente, a família é um dos palcos mais comuns nos quais se desenrolam as relações tóxicas. Se numa relação de “amizade” ou “amor” (tóxica) com alguém, e dependendo dos contextos, não é fácil identificar, reconhecer e agir em conformidade com essa “toxicidade”, o que dizer no caso de familiares próximos (pai, mãe, irmãos, etc.)? Apesar de tudo, é bem mais fácil pôr um ponto final à relação com o seu parceiro ou com a sua amiga do que fazê-lo com os seus sogros, os seus tios ou os seus pais, não é verdade?

Antes de mais, talvez valha a pena entender o que é que, no fim de contas, faz com que uma família seja considerada tóxica. Esta informação será útil para a leitora poderem identificar se “sim” ou “sopas” no caso de restarem dúvidas.

Para que uma família seja considerada tóxica, ao menos um destes fatores pode ser identificado na convivência habitual dos seus membros. E eles são, em resumo:

1. Dificuldades de comunicação

A comunicação faz-se notar pela sua ausência. Cada integrante da família funciona como um órgão “independente”, que simplesmente dividem espaços comuns. Carecendo de um vínculo afetivo mais consistente (e coerente), tendem a basear as suas interações numa espécie de “utilitarismo”, na medida em que as pessoas “valem” pelas funções ou os papéis que desempenham ou representam umas para as outras, e não pelo que são, como pessoas, justamente.

2. Distanciamento emocional

São os casos em que os pais nunca chegam a atender as necessidades afetivas básicas dos seus filhos. Mesmo nunca tendo faltado comida na mesa, a conexão emocional, porém, sempre foi fria ou ambivalente, sem manifestações ou verbalizações explícitas de amor, como abraços, beijos ou outros gestos de compreensão, apoio ou carinho.

3. Manipulação emocional

Para se conseguir a atenção de algum membro do núcleo familiar, ou de modo a que ele aja de acordo com a vontade ou o interesse de um outro membro, normalmente recorre-se à chantagem emocional, às mentiras (descaradas ou veladas), às distorções, omissões, intrigas, vitimização, enfim, manipulação vária.

4. Conflitos constantes

É muito comum a falta de respeito entre os membros de uma família tóxica, inclusive, dada a existência de um histórico (presente ou passado) pautado por episódios de violência verbal, psicológica, emocional e/ou física (e em alguns casos, sexual).

5. Troca de papéis (emaranhamentos familiares)

Isto acontece nas situações em que, por exemplo, os pais são mais imaturos emocionalmente do que os filhos, e esses se veem obrigados a assumir as funções de “pais dos pais”, ou “mãe/pai dos irmãos”, etc.. Ou quando há um caso típico de triangulação, ou seja, um irmão mais novo julga-se mais “adulto” do que os irmãos mais velhos ou em contextos em que um dos filhos acaba por atuar como pai/mãe, incentivado pelo progenitor, deixando de lado seu papel natural, que é de filho.

Depois deste mini-cardápio (indigesto) para as relações, mas perfeito para as ralações, talvez a leitora já tenha concluído se a sua família se inscreve naquilo que é descrito como “dinâmicas tóxicas” dentro de uma família.

Afinal, hoje em dia, quem é que não ouviu falar sobre pessoas tóxicas?

E o que são? Em resumo, são todas aquelas que acabam por trazer sofrimento emocional e uma série de problemas em função dos seus padrões de comportamento.

É importante entendermos que há uma série de consequências ao deixar que a convivência dentro de uma família tóxica se estabeleça e ganhe força. Eu sou testemunha disso, na vida “real”, com imensa frequência no consultório. Problemas emocionais e psicológicos como ansiedade, pânico, fobias e depressão (só para mencionar alguns) costumam ser os primeiros a manifestar-se. As sequelas que as marcas da toxicidade nos relacionamentos deixam são muitos e geralmente é preciso uma coragem hercúlea e um amor-próprio homérico para se conseguirem ultrapassar.

Também é possível que sejam desencadeados transtornos de personalidade, além da criação de dependência emocional, sentimentos de inferioridade, baixa auto-estima, dificuldade nos relacionamentos, entre muitos outros sintomas.

Por isso é que as estratégicas de distanciamento (mesmo não sendo as “ideais”, porque não são de todo fáceis) são as mais recomendadas, invariavelmente, em toda a literatura científica sobre o problema. Muitas vezes, porque é mesmo a única forma minimamente possível de uma pessoa se reconstruir e/ou recuperar a sua integridade pessoal (sobretudo, psicológica e emocional) depois das experiências de abuso. Acaba por ser um imperativo vital, tal como respirar.

Pela pergunta que me colocou, depreendo que a leitora talvez verifique que tem empregue energia em pessoas (sejam familiares ou amigos) que a fazem sentir mal, ou que a devolvem a uma constante sensação de fracasso ou de incompreensão? Para além disso, talvez sinta que devesse ter uma voz mais ativa na sua família ou relacionamentos? Conseguir estabelecer limites com os colegas de trabalho? Ou quem sabe conseguir valorizar-se perante um amigo explorador ou enfrentar o ‘bullying’ na internet ou na vida offline? Enfim, tudo isto existe, tudo isto é triste, tudo isto é tóxico.

Mas não é tarde, nem é cedo! Perante todos estes problemas reais, dou-lhe a conhecer algumas estratégias para lidar com pessoas ou situações tóxicas na sua vida.

Novamente, vale a pena clarificar (ou definir) o que é uma “pessoa tóxica”.

Alguém tóxico é, acima de tudo, alguém que exerce sobre si um efeito nocivo ou destrutivo, tal como o veneno mesmo, depois de ingerido. Que a(o) ataca, deprecia, desvaloriza, o invalida ou apenas se queixa e lamuria, despejando sobre si o seu lixo emocional (mas que não faz nada para mudar a situação). Noutras palavras, alguém que não lhe é benéfico, construtivo ou favorável (ou até simplesmente “agradável”) no sentido de, recorrentemente, ter o “condão” de a(o) fazer sentir-se mal.

Alguém que a(o) “bota abaixo” sistematicamente, a si e às suas ideias, sentimentos, pensamentos, decisões, projetos ou ambições (sobretudo se os mesmo de alguma forma puderem concorrer para o seu bem-estar e/ou sucesso).

Se algo ou alguém nos intoxica, e se queremos recuperar-nos disso, não há muito mais a fazer senão… desintoxicar.

Porque é que é importante libertar-se das pessoas tóxicas — e como o fazer

As pessoas tóxicas ou negativas são pródigas em afastá-lo dos seus objetivos pessoais, ‘adubando’ a sua mente de impossibilidades e fazendo da dúvida um ‘plantio’ na sua cabeça.

A energia negativa que trazem interage com o seu próprio campo energético (o quê, acha que a ”energia” é só aquela fatura que se paga ao fim do mês?) , para não mencionar os contributos que dão ao seu (aumento de) ‘stress’ e ansiedade.  Sabia que estes pode ter um impacto negativo e duradouro no cérebro, quando vividos continuadamente?

Note, porém, que a sua saúde e bem-estar é uma responsabilidade inteiramente sua e não uma “benesse” que algo ou alguém lhe podem conceder ou não. Por isso, tem um papel ativo nisto de saber ou não cuidar-se. E se busca mudanças positivas na sua vida, necessita de espaço e condições para que as mesmas aconteçam.

Manter-se em situações ou relacionamentos tóxicos, permitindo que estes impregnem os seus dias de negativismo, irá impedir que as oportunidades para o sucesso se manifestem. Por outro lado, libertar-se de pessoas tóxicas irá criar espaço para que outras pessoas (de preferência, positivas!) possam entrar, o que promoverá, incentivará, apoiará e ajudará o seu processo e crescimento como pessoa. Vamos a isto.

1. Decida o quanto a leitora (se) vale a pena

A leitora precisa sentir-se digna e merecedora de alcançar os seus objetivos, no sentido de se transformar na pessoa que quer ser ou de obter as coisas positivas que quer ter. Deixar de parte qualquer fonte de destrutividade na sua vida irá ajudá-la a chegar lá mais rapidamente. Trata-se de um compromisso consigo mesma, propondo-se a fazer as mudanças necessárias por e para si, não deixando que a culpa a mantenha no mesmo lugar (ou a faça adoecer).

2. Identifique as pessoas ou os fatores tóxicos na sua vida

Um truque simples e muito eficaz é perceber com que tipo de pessoas tende a sentir-se pior depois, do que antes de ter começado a falar com elas. Por norma, os seus níveis de energia baixam e a leitora fica frustrada, triste, com raiva e/ou aborrecida. É que sabe, existe uma grande diferença entre alguém que partilha consigo as suas lutas e desafios Vs. alguém que reclama constantemente.

Uma das diferenças é esta: alguém que está verdadeiramente em dificuldades está disposto a ouvir um feedback construtivo e está aberto a mudar (e muda). Por outro lado, os chorões e queixosos não querem mudar e, essencialmente, só desejam que sinta pena deles ou pretendem ‘sugar’ a sua atenção. Para além do espectro tóxico e drenante da sua energia pessoal, frequente e subtilmente denotam algum tipo de hostilidade ou crítica dirigida a si. Não temos de ser “venenosos” ao expressar os nossos pontos de vista uns para com os outros e isso, como é óbvio, afecta-a negativamente.

3. Deixe-os ir

Sem medos e sem culpas de os evitar. Utilize qualquer método que ache adequado (não atender chamadas, distanciar-se, etc.) mas não tem de se justificar ou dar demasiadas explicações por apenas querer proteger-se e defender-se com as suas ações das interferências nocivas na sua vida. Se lhe parecer o correto, faça-o com suavidade, graça e… amor! Indiretamente isso até lhes acaba por ser benéfico, pois é uma oportunidade perdida que eles (não) encontram para irradiarem só mal-estar. Mostre-lhes, porém, que permanecerá aberta a eles na possibilidade de os apoiar, a partir do momento em que mostrem querer ou estar prontos para adotarem uma postura mais construtiva/positiva, retomando eventualmente a relação.

4. Não se culpe

Mais uma vez, voltemos ao tópico 1) a leitora vale a pena. Se não for a sua melhor amiga, quem o será? Se não for a leitora a moldar a sua própria vida, há sempre algo ou alguém que o fará. Mas perceba que se  não cuidar de si, ninguém o fará por si. A leitora não está propriamente a abandonar alguém, mesmo que à primeira vista possa sentir-se assim.

Há uma diferença monumental entre abandonar alguém e deixá-las ir para que ambos (a leitora e elas) encontrem o seu espaço, o seu próprio caminho.

Se por acaso até já tentou mostrar-lhe alternativas, ou fazê-las contemplar outros prismas para mesma realidade, encorajando-as nesses sentidos, mas nada — absolutamente nada — parece surtir qualquer efeito nas suas atitudes, então talvez deva concluir que não é nem o que possa dizer ou fazer que terá o potencial de transformar os pensamentos ou comportamentos das pessoas tóxicas.

Em todo o caso, não tem a obrigação ou mesmo o direito de “mudar” quem quer que seja. E muitas vezes o sentimento por detrás em relação a manter estas pessoas na sua vida, é esse, o de achar que “deve” ou “tem de”, por culpa ou medo.

A propósito deste tópico, fiz um pequeno vídeo, que poderá ver em baixo, em que explico qual é o maior equívoco que podemos ter em relação ao amor.

As pessoas crescem e mudam, este, sim, é um direito que a todos assiste. E isto aplica-se a familiares ou “amigos” de infância (em especial, os que mostram não querer crescer… ou mudar), a bem da evolução!

5. Traga mais leveza e positividade para a sua vida, chérie!

Rodeie-se de pessoas positivas e otimistas. Este é o tipo de pessoas através das quais se sente apoiada, protegida e nutrida emocionalmente quando estão por perto. Escutam-na, valorizam as suas capacidades e incentivam as suas iniciativas por mais arriscadas ou assustadoras que possam parecer (apenas por saberem e respeitarem que isso para si pode ser importante). Normalmente, são estas também as pessoas que respeita e admira, pois sabe que fizeram alguma coisa por si mesmas ou pelos outros para superar qualquer situação na vida, tendo tido a coragem para vencer ou mudar!

Embora seja importante saber que não é sua responsabilidade “mudar” o comportamento do outro, também é importante entender que nós somos realmente responsáveis pelo nosso próprio comportamento. Temos a capacidade de rejeitar a toxicidade dos sentimentos, palavras e ações erradas das pessoas com as quais interagimos. Em poucas palavras, mesmo que a pessoa tóxica não possa mudar (ou lidar com as emoções e a situação de forma diferente), nós podemos.

Entretanto, lembre-se que assim como existem pessoas tóxicas também existem pessoas nutritivas. Tal como um verdadeiro alimento, “nutritivas” é a palavra. Muito nutritivas. Porque uma relação saudável é uma relação que nos faz crescer, que nos faz evoluir e que nos faz mostrar a nossa melhor versão, o melhor que há em nós. Para quê estar com uma pessoa que nos torna ansiosos, tristes, agressivos ou deprimidos? Não estamos cá para sofrer. Temos direito a ser felizes.

Saber o que se quer e deixar isso claro é um processo que seleciona os relacionamentos de qualidade, pelo que será natural que algumas pessoas se afastem para que outras com intenções mais agradáveis se aproximem.

Há uma frase que adoro (e adoraria também saber qual o(a) seu/sua autor(a)!) que diz: “Mude a forma como se relaciona consigo mesma e começará a ver as mudanças a acontecer. O mundo trata-a da forma como se trata.”

Quando também fica doente, intoxicada ou estagnada, não consegue ajudar ninguém. Infelizmente, temos uma cultura que idolatra o sacrifício e a martirização, o que torna ainda mais difícil para uma pessoa conseguir esta proeza que é saber estabelecer limites saudáveis.

Se sua família está pobre, não é a ficar na pobreza que a vai ajudar. Se ela está estagnada, não é a estagnar também que algo de bom vai acontecer.

Se sua família está mental ou fisicamente doente, não é a ficar doente que vai conseguir melhorar o que quer que seja. Desidentifique-se da ideia de que tem que sofrer e perder algo para ser uma “boa” pessoa.

Não existe mérito ou utilidade nenhuns em deixar de evoluir para não ofender os outros. Não faz sentido deixar de gerar luz para evitar chamar atenção aonde existe sombra.

Acredite plenamente que quanto mais se transformar positivamente, quanto mais tomar todas as decisões difíceis em prol disso, quanto mais se desenvolver, mais estará apta a (realmente) ajudar os outros.

Pode até ser que, hoje, não tenha noção de exatamente como vai ajudar o outro: mas a natureza sabe. A leitora preenche algum papel no todo que não tem como saber até se conhecer profundamente.

Só aceitando conhecer-se e trabalhar-se é que vai começar a testemunhar o poder que os seus dons únicos têm para gerar coisas lindas para o mundo. Aceite conhecer-se, aceite distanciar-se de gente tóxica, aceite passar pelo processo e descobrir o seu poder pessoal.

Minha cara, neste final de verão, faça como as árvores que libertam as folhas mortas no outono, prontas para receber as folhas novas e viçosas da primavera vindoura. Elas, as folhas, na natureza, sabem que isso é uma condição fundamental para se ter flores e frutos na nova estação.

Aproveite então, por estes dias, para fazer uma “limpeza” na sua casa emocional.
Desintoxique a sua casa física. Desintoxique a sua casa emocional. Desintoxique a sua vida. E sinta-se bem com isso, ponto final.

Partilhe
Fale connosco
Se encontrou algum erro ou incorreção no artigo, alerte-nos. Muito obrigado. [email protected]