Histórias de quem se apaixonou a bordo de um avião

Um estudo diz que 1 em cada 50 passageiros conhece o amor da sua vida num voo. Foi o que aconteceu com Manuela em 2003 e com Ana em 2012.

Ana e Manuela conheceram o amor das suas vidas a bordo, ainda hoje mantêm as relações

Não estava a ser uma dia fácil para Ana. “Tinha deixado o chapéu em casa, tive de voltar para trás e estava a ver que me ia atrasar para o voo”, conta à MAGG a assistente de bordo portuguesa de 38 anos, que prefere ser identificada apenas pelo primeiro nome.

Há seis meses no Dubai, naquele dia ia fazer uma viagem de cerca de 6h30 entre os Emirados Árabes Unidos e Munique, na Alemanha. Quando entrou no avião, decidiu esquecer tudo o que tinha corrido mal naquela manhã e tentar tirar o melhor partido do dia.

Foi naquele momento que o viu sentado na terceira fila. “Ele estava no lugar à janela”, recorda. “Não vou negar que, quando o vi, achei que era bastante engraçado”. Ainda assim, estava longe de imaginar que acabava de cruzar pela primeira vez o olhar com o futuro marido.

Segundo um estudo realizado pelo banco britânico Hong Kong and Shanghai Banking Corporation (HSBC), que contou com a participação de mais de cinco mil viajantes, 1 em cada 50 passageiros encontra o amor a bordo. Será assim tão comum apaixonar-se dentro de um avião? Não encontrámos resposta para esta pergunta, mas descobrimos duas portuguesas a quem isto aconteceu. Contamos-lhe a história de Ana e Sven e de Manuela e Pedro.

“Trocámos telefones, conversámos meia hora e combinámos encontrar-nos nas férias”

Em 2003, Manuela estava num voo para o Egito com o irmão e uns amigos. A viagem de grupo estava a correr bem — afinal, era o início de umas férias que prometiam ser únicas —, e até o voo prometia corresponder às expectativas. Quando entrou a bordo, a portuguesa de 47 anos apercebeu-se de que havia um lugar vazio à janela. No momento em que começou a caminhar para lá, porém, alguém se sentou no banco. “Fiquei aborrecida”, recorda à MAGG. “E fui bastante antipática com ele.”

O homem que se sentou no lugar à janela chamava-se Pedro, viria Manuela a saber mais tarde. Apesar de um primeiro encontro atribulado, quis o destino que se voltassem a encontrar numa escala — estavam os dois a viajar para o Egito. Naquele momento, cruzaram olhares, começaram a conversar e o banco à janela ficou esquecido. “Trocámos telefones, conversámos meia hora e combinámos encontrar-nos nas férias”.

A chamada nunca chegou a acontecer mas, como não há duas sem três, Pedro e Manuela voltaram a encontrar-se por acaso, dias depois, num cruzeiro no Mar Vermelho. “No final das férias trocámos uns beijinhos”, ri-se. “No último dia, ele pediu-me em namoro, mas estávamos conscientes de que não ia resultar — eu vivia no Porto e ele em Faro”.

Só que acabou por resultar. “Acabámos por nos encontrar de 15 em 15 dias, umas vezes no Porto, outras em Faro e algumas em Lisboa — para ser menos pesaroso para os dois”. Um ano e meio depois, Manuela engravidou e Pedro foi para o Porto. Hoje, vivem no Algarve, já têm dois filhos e são felizes há 16 anos. Talvez o estudo tenha razão — é mesmo possível encontrar o amor a bordo entre passageiros.

Ana era assistente de bordo e apaixonou-se por um passageiro

Ana não era uma passageira naquele voo Dubai-Munique. Mas também quis o destino que encontrasse o amor num voo. A viver há seis meses nos Emirados Árabes Unidos, Ana estava a desfrutar de uma fase “relaxada”. A trabalhar numa companhia aérea, estava solteira e a aproveitar ainda para descobrir um país e uma cultura completamente novas. Só que aquele voo para Munique trocou-lhe as voltas.

Sven estava na terceira fila e viajava com um amigo. Com indicações da companhia aérea para tentar ao máximo interagir com os passageiros, Ana começou a conversar com o homem de nacionalidade alemã que achou “bastante engraçado”. “A companhia quer que eu meta conversa, eu vou meter conversa”, recorda à MAGG ter pensado naquele momento. Só havia um problema: entre os dois estava um outro passageiro (viria mais tarde a saber que eram amigos), o que “cortava a comunicação”.

Até que surgiu a oportunidade perfeita. Quando chegou com o carrinho de bebidas à fila onde se encontrava Sven, o amigo tinha-se levantado porque queria estar mais à vontade noutro lugar. Ana avançou, com “coisas obviamente muito profissionais”. “Perguntei-lhe coisas como: ‘É a primeira vez que está a viajar connosco? Está a gostar do voo? Veio a primeira vez ao Dubai?’.”

Toma, fica com esta também. Assim quando te voltarem a pedir uma caneta e não te devolverem, já não ficas sem nenhuma”

A conversa começou a fluir com rapidez. De repente, já tinham passado da interação meramente burocrática para partilharem mais informações sobre as suas vidas. Só que havia mais passageiros à espera de bebidas. “Disse que voltava quando tivesse mais tempo. Entretanto, obviamente, fartei-me de estar sempre a voltar”.

A companhia aérea em que Ana trabalhava (e ainda trabalha) tem como hábito entregar, em alguns voos, questionários de satisfação. Para excelente pretexto, havia formulários a bordo. “Eu disse ao meu supervisor: ‘Dá-me alguns que eu tenho uma data de passageiros a quem dar’. Obviamente, entreguei-lhe um”.

Sven pediu a Ana que lhe emprestasse uma caneta. “Por norma não costumo dar porque sempre que o faço, fico sem ela”, explicou-lhe. Ainda assim, e porque aquele passageiro não era igual a todos os outros, a assistente de bordo entregou-lhe a sua caneta. O alemão agradeceu e preencheu o formulário.

No campo para avaliar a satisfação do voo, havia quatro opções: “Mau”, “Bom”, “Razoável” e “Muito Bom”. Sven criou um quinto quadrado e acrescentou — e assinalou, claro — a opção “Excelente”. De seguida, devolveu-lhe duas canetas — a que Ana lhe tinha emprestado e a que Sven tinha perdida no fundo da mala. “Toma, fica com esta também. Assim quando te voltarem a pedir uma caneta e não te devolverem, já não ficas sem nenhuma”.

Além das canetas, o alemão deu-lhe ainda o seu cartão pessoal. Durante o voo tinham conversado sobre a possibilidade de Ana lhe mostrar o Dubai e de Sven a levar a passear por Munique. Assim já tinham como entrar em contacto.

Só que Ana sabia que nunca iria ter coragem de lhe ligar. “Eu sou portuguesa”, ri-se. “Para nós, é o homem que tem de dar o primeiro passo”. Portanto, a assistente de bordo tinha de arranjar uma estratégia para que fosse Sven a ficar com o seu número. E teve a ideia perfeita: “Fui ter com o meu chefe de cabine e disse-lhe: ‘Estes passageiros foram tão simpáticos, importaste que lhes dê uma caixinha de chocolates?’.” O chefe respondeu que não havia problema.

Outras conclusões do estudo

Com entrevistados de 141 países, 13% dos mais de cinco mil passageiros admitiram no estudo formar relações comerciais num voo. 12% disse travar amizades que ainda perduram.

Mas não fica por aqui: mais de metade dos entrevistados já fez conversa com desconhecidos durante a viagem e garante que “é muito fácil encontrar uma desculpa para iniciar uma conversa com o vizinho do assento.”

Discretamente, Ana entrou na casa de banho e pôs um papelinho com o seu número de telefone dentro da caixa de chocolates. Agora ele já tinha a possibilidade de ser ele a ligar, à boa moda portuguesa.

Sven percebeu a dica e mandou mensagem no próprio dia: “Queria saber se estás em Munique e se podíamos ir tomar café”. No hotel com a restante tripulação, Ana começou a pensar se teria tomado uma decisão errada. No entanto, e decidida a sair da zona de conforto, acabou por aceitar. Disse-lhe que se encontrassem em frente ao hotel onde Ana estava instalada.

“Acabámos num sports bar e eu de leggings… uma miséria”, recorda. A conversa fluiu com naturalidade noite dentro, mas quando se despediram Ana ficou com dúvidas se se voltariam a ver. “No dia a seguir, de manhã, não recebi mensagem nenhuma e pensei: ‘Ele lá me deve ter achado uma tagarela’.”

Só que o encontro tinha corrido tão bem. Tinha de arriscar: para não ir para o Dubai com dúvidas sobre se poderia ter feito mais, Ana enviou-lhe uma mensagem antes de partir. “Disse-lhe que tinha sido um prazer conhecê-lo e que esperava voltar a vê-lo passados 15 dias.” A mensagem teve efeito: “A partir daí nunca mais nos largamos”.

A conversa começou por mensagens, seguiu para o WhatsApp, mais tarde para o Skype e, duas semanas depois, estavam a encontrar-se novamente em Munique. “Nesta altura já estávamos muito próximos”.

Durante nove meses, a assistente de bordo e o agora marido viveram entre a Alemanha e o Dubai e, mesmo a morar em países diferentes, em setembro de 2013, casaram pelo civil. E qual não seria a surpresa: Sven pediu-a em casamento com uma caixa de chocolates. No ano passado, foram pais pela primeira vez.

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