“Faça o bem e o bem virá ter consigo”. “Comece o dia com um sorriso”. “Se pode ver algo de bom em mim, então não está apenas em mim, mas em nós”. Estas são apenas algumas das frases que encontra todos os dias quando abre o Instagram. São inspiradoras (ou pelo menos têm esse objetivo) e pretendem incentivar as pessoas a serem “a melhor versão delas mesmas” de forma a viverem uma vida plena. Lamechas? Talvez, mas tanto as mensagens como as fotografias que inundam as redes sociais podem estar a criar mais ansiedade do que motivação.

Mas o que é isto de viver uma vida plena? A psicoterapeuta Sara Kuburic explica ao jornal britânico “The Guardian” que é uma vida cheia de significado, liberdade, responsabilidade e fundamentada num autêntico relacionamento com a própria pessoa.

“Parece que as redes sociais definem ‘viver plenamente’ como ser aventureiro, espontâneo e extrovertido. Para as pessoas que levam uma vida mais tranquila, as redes sociais dizem-lhes que estão a viver a vida de forma errada”, refere a psicóloga Erin Vogel ao mesmo jornal. A especialista continua a explicar que a internet influencia a vida das pessoas ao ponto de estas compararem as suas com as dos outros.

O resultado? Sentem, por vezes, que não vivem a vida ao máximo porque, por exemplo, não saem à noite todas as sextas-feiras ou não têm fotos ao por do sol, como várias pessoas que seguem. Só que aquilo que as redes sociais não mostram é que algumas daquelas fotografias foram tiradas há semanas e não representam aquele momento. A verdade é que os aventureiros que vivem a vida de forma plena, também têm noites no sofá a ver séries, como qualquer um de nós.

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Ainda assim, Erin Vogel refere que tirar fotos “pelo Instagram” pode ter um lado positivo, no sentido em que faz com que as pessoas se esforcem por tentar viver novas experiências: “Pode reservar uma excursão para a sua próxima viagem a pensar ‘isto vai ser divertido'”. Mas a parte negativa acontece quando no fundo a pessoa está a pensar no “quão incríveis vão ficar as fotografias”.

O mesmo acontece com as tais frases inspiradoras: “É possível que a aparente inspiração se possa encaixar numa categoria mais ampla”, indica ao mesmo jornal Gordon Pennycook, professor de ciências do comportamento na Universidade de Regina, no Canadá.

Esta categoria relaciona-se com vários fatores: o facto de os conteúdos partilhados online refletirem que nós não pensamos sobre esses assuntos e que “é por isso que as citações inspiracionais não fazem sentido”, já que não correspondem à nossa realidade diária. Acrescenta que, ainda assim, as mensagens espalham-se porque têm um género de apelo emocional.

A questão é que o problema não está nas mensagens que são partilhadas pelas pessoas, mas na forma como as pessoas vivem a vida real. “Viver plenamente, na era do Instagram, é muitas vezes reduzido a fazer coisas que valem a pena documentar”, refere a psicoterapeuta Sara Kuburic.

A especialista acrescenta que a vontade de viver uma vida plena não é nova. A novidade está no facto de viver plenamente se ter tornado numa preocupação: “A pressão para provar isso aos nossos ‘amigos’ é uma das principais razões pelas quais não o estamos a fazer”.