Pela altura em que foi detida, ninguém no seu círculo conhecido queria acreditar. A dinâmica entre Rosa e Luís Grilo parecia ser boa e ninguém imaginava que a história entre os dois tivesse um fim digno de série policial. Só que, em julho de 2018, o engenheiro informático e triatleta desapareceu depois de sair para um treino, para só vir a ser encontrado sem vida a 24 de agosto. Com o corpo em estado avançado de decomposição, foi encontrado sem roupa, com um saco na cabeça, a 130 quilómetros de casa, em Avis, perto de Benavila, onde Rosa tem família.

Após várias incongruências, quer nas histórias que relatava, quer na relação das mesmas com os factos apurados pela Polícia Judiciária, a viúva passou de vítima colateral a principal suspeita, em conjunto com o amante António Felix Joaquim, na altura com 42 anos, com quem há muito tempo mantinha uma discreta relação. Em setembro de 2018, a dupla foi acusada pelo Ministério Público dos crimes de homicídio qualificado agravado, profanação de cadáver e detenção de arma proibida, e colocados em prisão preventiva.

Um ano depois, o mediático julgamento tem início esta terça-feira, 10 de setembro, no Tribunal de Loures. Julgados por um coletivo de juízes e quatro cidadãos selecionados por sorteio, Rosa Grilo e António Joaquim correm o risco de enfrentar a pena máxima de prisão — estipulada nos 25 anos, em Portugal.

A infância, a faculdade e o trabalho. Quem é Rosa Grilo?

Filha de Américo e Maria Antónia, Rosa Grilo terá crescido como filha única em Alverca (teve um irmão, que morreu à nascença). É nesta mesma localidade que os pais continuam a viver. Ao “Observador” relembraram a infância da mulher de 44 anos, descrevendo-a como “uma menina muito meiga e quietinha, mas também muito inteligente e perspicaz.”

De acordo com o que apurou o mesmo jornal, numa conversa com os pais que terá decorrido no rescaldo da prisão de Rosa Grilo, esta terá aprendido a ler “mais cedo do que os outros meninos” — aos quatro anos, já sabia fazer a sua assinatura. Além disso, “comia à mesa dos restaurantes como um adulto, de faca e garfo”, recordou Maria Antónia.

Luís Grilo entra na sua vida ainda na altura da puberdade. Conheceram-se apenas quando ela tinha 12 anos, a propósito de uma festa de Passagem de Ano, em Alverca, a que foi com as duas primas — a quem tratava por “manas” — e com quem frequentemente brincava.

“Nunca mais se largaram”, contou Américo. Aos 20 anos casaram, em Aveiras de Cima. Tiveram um filho, Renato, com 12 anos pela altura em que a mãe foi detida e o pai assassinado.

Triatleta assassinado. A relação secreta que acabou em crime

Rosa Grilo não foi a aluna mais empenhada. Segundo revelou o mesmo jornal online, até à quarta classe teve um bom aproveitamento, mas com a adolescência, começou a dar mais atenção àquilo que estava fora da escola. Tanto assim é que chumbou dois anos letivos por faltas: “Dizia que ia para a escola, mas quando nós saíamos para o trabalho ela voltava para casa. Sabe como são estas idades”, recorda ao Observador Maria Antónia.

Mas concluiu o 12.º ano de escolaridade e seguiu para a faculdade, ainda que durante um período breve. Inscreveu-se na licenciatura de Gestão e Recursos Humanos na Universidade Moderna, aquela que, a dois anos de chegar ao fim, não terminou. Mas já conhecia a vida laboral: trabalhou como secretária num escritório de leilões nos tempos académicos, tendo, mais tarde, trabalhado como executiva de leilões numa empresa.

Por esta altura, já há alguns anos que Luís Grilo fazia parte da sua vida. Era ele, aliás, que a ia buscar e trazer à faculdade. É junto dele que, mais tarde, passa desempenhar a função de responsável administrativa na empresa informática Gsystem, fundada por Luís há 14 anos.

Mais pormenores sobre a vida da mulher foram reveladas pelos pais ao jornal “Observador”: Rosa Grilo era apaixonada por animais (sobretudo cães) e pelo Benfica, o clube de toda a família — incluindo o marido, que tinha uma ótima relação com os sogros.

A personalidade da mulher era frequentemente elogiada por todos. Ao programa “Linha Aberta“, com Hernâni Carvalho, da SIC, uma antiga colaboradora da empresa de Luís Grilo descreveu-a como sendo “naturalmente bem disposta pois passava o tempo a rir”, mas ressalva que por vezes monstrava ter uma personalidade um pouco fútil e sem emotividade.”

“A Rosa sempre foi uma boa menina, para mim e para toda a gente”, disse o pai Américo na mesma entrevista. Jesuína Lopes, a viver no piso por cima da empresa informática do casal, terá descrito a mulher como sendo “simpática, alegre e trabalhadora.” A vizinha Ana Raquel usou as palavras “pacata” e “tranquila” no momento de se referir a Rosa Grilo.

“Nunca pensei que ela pudesse ter um amante”, disse ao mesmo jornal um funcionário da Gsystem.

A relação de Rosa com Luís Grilo

O casal vivia numa vivenda de dois andares nas Cachoeiras, em Vila Franca de Xira, com o filho Renato, na altura com 12 anos. Tudo na relação de Rosa, na altura com 43 anos, e Luís Grilo apontava para um casamento feliz e estável. Pelo menos é isso que se subtrai de todos os testemunhos que foram ouvidos pela altura do crime e prisão da mulher.

“Eles eram muito brincalhões, tinham muita cumplicidade”, disse, no programa “Linha Aberta”, Tânia Reis, advogada e amiga de Luís e Rosa Grilo. “Tinham muita piada”, acrescentou, adiantando que os dois eram pessoas “risonhas”.

Ao “Diário de Notícias”, Paulo Tomás, proprietário de uma oficina de Alenquer, amigo e cliente da empresa de Luís Grilo, descreveu a relação dos dois como “muito carinhosa.”

“A Rosa e o Luís eram um casal normal e até demasiado cúmplice para o que é habitual. Tinham uma interação perfeitamente normal”, disse outro entrevistado ao “Observador”. Ao mesmo órgão de comunicação social, foram caracterizados como “um casal discreto, que não frequentava os espaços de convívio da terra.”

Apesar de uma vida familiar aparentemente equilibrada, sabe-se, desde que foi preso, que a mulher mantinha uma relação extra-conjugal com António Félix Joaquim, funcionário judicial a exercer no Campus de Justiça, divorciado e com dois filhos, de cinco e 11 anos, os mesmos com quem o filho de Rosa e Luís brincava várias vezes — era um argumento para ambos se encontrarem. Os dois conheceram-se na escola, em Alverca, local onde, na altura do crime, ele vivia e ela trabalhava. Segundo a PJ, citada pelo “Observador”, os dois mantinham uma relação muito próxima, mas discreta. De acordo com a “Sábado“, a viúva terá ajudado este homem financeiramente, de forma regular.

Rosa Grilo está há um ano em prisão preventiva no Estabelecimento Prisional de Tires

Cartas enviadas por Rosa Grilo à jornalista da SIC Ana Paula Felix davam conta de um cenário muito diferente: disse que foi vítima de agressões por parte do marido, ainda que os amigos duvidem destas acusações.

A antiga funcionária da Gsystem, que falou ao programa “Linha Aberta”, com Hernâni Carvalho, diz que “assistiu a algumas discussões entre o casal, na origem de falhas de Rosa Grilo, que tinha a faturação da firma a cargo dela.” De acordo com a mesma,  as discussões eram “rapidamente sanadas”, não tendo nunca assistido a “nenhum episódio de violência física ou verbal.”

“Eles estavam sempre bem, unidos. Nunca ouvimos um grito ali, mesmo antes de terem a empresa, quando moravam naquela casa”, terá ainda dito Jesuína Lopes, na mesma conversa com o jornal online.

Já a advogada Tânia Reis, amiga de Rosa há 20 anos, com quem mantinha uma relação pouco profunda — só se encontravam para beber café ou almoçar — adianta que a mulher se terá queixado sobre a relação dos dois, confessando-lhe que andavam a dormir em quartos separados. A mesma informação foi avançada pela Polícia Judiciária (PJ), citada pelo “Diário de Notícias“, que, terá assim, percebido que a relação do casal não era tão estável como a mulher descrevia.

A vida de Rosa Grilo na prisão

Em julho de 2018, Rosa alertou a GNR para o desaparecimento do marido, que, supostamente, saiu para treinar e não tinha ainda regressado. Mas a versão do que, alegadamente, terá efetivamente acontecido nesse dia é diferente: em co-autoria com a viúva, terá sido António Joaquim a disparar sobre Luís Grilo, no momento em que este dormia no quarto de hóspedes da casa do casal. De acordo a “SIC Notícias“, o despacho de acusação, a 15 de Julho de 2018, deu conta de que “os dois arguidos trocaram 22 mensagens escritas em três minutos para acertar os últimos detalhes relativos ao plano” que iria tirar a vida ao triatleta.

Um ano depois de ter sido acusada pelo Ministério Público — foi encontrado o seu ADN no saco do cadáver — a vida de Rosa Grilo mudou radicalmente. Hoje, faz-se longe de casa e do filho, entre as paredes do Estabelecimento Prisional de Tires.

Passa tempo na biblioteca, lê livros e escreve cartas — várias a órgãos de comunicação social. Já a aguardar julgamento em prisão preventiva, Rosa Grilo fez amizades no Estabelecimento Prisional de Tires. Além da relação que mantém com as suas companheiras de cela, a suspeita do homicídio de Luís Grilo avançou ao “Correio da Manhã“, em outubro de 2018 que é amiga de Diana Fialho, 23 anos, também suspeita, em conjunto com o marido Iuri Mata, da morte mãe adotiva, Amélia Fialho.

A vítima, com 59 anos, terá estado desaparecida durante uma semana, para vir a ser encontrada sem vida, depois de ter sido drogada, morta à martelada e depois queimada num mato em Pegões.

Os contornos da história de Rosa e Diana são semelhantes — além de os crimes terem sido feitos em co-autoria, também Fialho se terá mostrado angustiada pelo desaparecimento da mãe, tendo-se colocado à disposição para ajudar na investigação.

O mesmo jornal adiantou, em outubro de 2018, que as duas passavam cerca de uma hora juntas no recreio, longe das restantes presidiárias.

Numa entrevista à RTP, no programa “Linha da Frente“, Rosa Grilo referiu que na prisão de Tires se sente protegida. Divide cela com três presidiárias, duas das quais traficantes de droga, e adianta agora que só no momento em que foi detida percebeu quem eram os seus verdadeiros amigos.

Pela altura da entrevista, em março, a mulher apresentou-se ao jornalista da RTP maquilhada e com acessórios. Levava consigo o livro “Processo” do autor Franz Kafka, aquele que pela altura andava a ler, sugerido pelo inspetor da PJ que a interrogou, em setembro de 2018.

Segundo o “Correio da Manhã“, a mulher terá também enviado uma carta à revista “TV Mais” em março, na qual descrevia o cenário em que está a viver: cada dia que passa sem o filho é uma “tortura”, emagreceu dez quilos, mas continua a arranjar-se, cuidando do cabelo e das unhas.

Além de ler, a suspeita da morte de Luís Grilo também passa tempo com as outras reclusas, com quem gosta de conversar, assim como a ver televisão — lamentando, no entanto, só ter seis canais.

Além disso, pela altura em que a carta foi enviada, revelou que estava a ser acompanhada por um psicólogo, que a ajudava a enfrentar o processo de acusação que ainda teria de enfrentar.

Numa carta escrita ao “Correio da Manhã” em março, a viúva terá dito que ainda não tinha ultrapassado a morte do marido: “Sempre fez parte da minha vida”, acrescentou. Disse que sempre foi uma “esposa dedicada”, mesmo depois de iniciar a relação com António Joaquim.

Luís Grilo foi morto em julho de 2018, tendo o seu corpo sido encontrado a 130 quilómetros de casa, 39 dias depois do alerta, a 24 de agosto. Segundo a tese defendida por Rosa Grilo, na altura, o engenheiro informático e triatleta terá saído para fazer um treino de bicicleta, para nunca mais voltar. O corpo foi encontrado nu, em estado de decomposição, com um saco de plástico na cabeça. No meio de sucessivas falhas por parte da viúva em relatar os factos, foi encontrado o seu ADN no saco e na corda utilizada para tapar a cabeça do marido.

Depois de ser detida, a mulher voltou a versão da história: afinal, teriam sido uns angolanos, em busca de diamantes, a cometer o crime. Bateram à porta de casa do casal e deram dois tiros em Luís Grilo, na cozinha, ainda que nesta divisão nenhum vestígio de sangue tenha sido encontrado.

De acordo com a PJ, as motivações do crime terão sido passionais e financeiras: os dois queriam assumir a relação secreta que tinham há anos, tirando proveito dos bens de Luís Grilo — além da habitação, e do dinheiro depositado em várias contas em nome do triatleta, havia ainda 500 mil euros em indemnizações de vários seguros.