O miúdo novo. “Metade da turma fez-lhe uma espera à porta do pavilhão”

Há jovens a serem atacados quando entram numa nova turma. Mas porquê? Ouvimos testemunhos e perguntámos a uma especialista como agir.

"Não subestimem as crianças", aconselha a psicóloga Vera Ribeiro da Cunha. Os jovens devem ser informados honesta e claramente sobre a decisão de mudá-los de escola ou sobre qualquer outra mudança

pixabay/pexels

Setembro é o mês de voltar à rotina: os miúdos regressam à escola, é preciso levá-los novamente aos treinos de natação e as reuniões de pais voltam a fazer parte da agenda. Às vezes é apenas um retorno aos velhos hábitos do ano anterior, outras vezes nem por isso. Isto porque, por vezes, os pais precisam de mudar de cidade, ou simplesmente de mover os miúdos de uma escola para outra. Quando isso acontece, eles entram num novo espaço de ensino e numa nova turma, onde enfrentam também novos desafios. A mudança até pode ser positiva — depende da idade e do contexto. Mas também pode ser um problema.

A filha de Mariana (nome fictício) tinha 13 anos quando soube que muita coisa estava prestes a mudar. Foi para Lisboa, onde iria estar longe dos amigos que tinha desde infância, dos professores e do local onde cresceu, os Açores. “Não queria vir para Lisboa. Estava muito bem integrada na outra escola e era excelente aluna. Ficou muito triste com a mudança”, conta a mãe à MAGG.

A mudança pode ter sido difícil de aceitar, mas nada fazia prever que seria o início de uma temporada conturbada. “O primeiro dia de escola, bem como o primeiro mês, foi peculiar, visto que praticamente não falavam com ela. Estranhei porque ela é uma miúda extremamente sociável.”

Ao longo do ano, a adolescente começou a dar-se com alguns colegas, no entanto não demorou muito até ser mal-tratada e ficar novamente isolada. “Começaram a surgir ‘ataques’ perfeitamente gratuitos e houve um dia em que metade da turma (porque a outra metade estava na aula) fez-lhe uma espera à porta do pavilhão. Começaram a criticá-la, a gozar com ela, enquanto um deles filmava com o telemóvel e incentivava uma das colegas a bater-lhe. Não chegou a fazer isso, mas esteve perto. Isto foi o culminar de situações diárias que se mantiveram até ao fim do ano letivo, mas que se tornaram um bocadinho menos agressivas”.

Os episódios diários levaram a filha de Mariana a preferir ficar sozinha nos intervalos, fingindo que estava a falar ao telemóvel ou acabando por ligar para a mãe, para a avó ou para uma amiga dos Açores.

A importância de delinear estratégias antes do início do novo ano letivo

As coisas não estavam a correr como era esperado. Mariana tinha vindo com a família para Lisboa em busca de novas oportunidades, uma vez que tinha ficado desempregada. Ainda assim, os pais permaneceram otimistas — e tentaram passar isso à filha.

“Tentámos fazê-la ver que, em Lisboa, teria oportunidade de fazer muitas coisas que nos Açores não é possível, que iria fazer novos amigos e que, em breve, os amigos dela estariam cá para vir para a faculdade. Já para não falar que iria continuar a vê-los nas férias. Fomos ver a escola e o caminho que ela iria fazer para lá chegar”.

Estes são alguns dos primeiros passos que, de acordo com a psicóloga educacional Vera Ribeiro da Cunha, são os mais acertados para os pais prepararem uma fase de mudança: “[A criança] deve ser informada, honesta e claramente, sobre a decisão de mudá-la de escola ou sobre qualquer outra mudança. Outro ponto importante é que os pais mostrem os aspetos positivos que essa mudança vai trazer”.

É recomendável visitar a nova escola e os arredores do bairro onde está localizada, para que a criança se familiarize com as novas instalações antes de se deparar com o novo ambiente repentinamente no primeiro dia de aulas. A psicóloga aconselha ainda que os pais não devem subestimar as crianças, prometendo coisas de que não se tem a certeza. Mais tarde ou mais cedo, elas terão de enfrentar a realidade.

O efeito dominó: se um ataca, os outros também têm de o fazer

O problema de adaptação a uma nova escola envolve um conjunto de fatores que podem (ou não) fazer parte da equação: a timidez do aluno novo, a atuação dos educadores, os padrões sociais que exercem pressão entre os jovens e discriminação individualizada.

“Houve uma colega, a meio do ano, que depois de ter testemunhado mais um ataque à minha filha, veio ter com ela e disse-lhe que estava do lado dela mas que não podia fazer nada para não lhe fazerem o mesmo. Havia um grupo de miúdos na turma que tinha o poder de coagir todos os outros”, recorda Mariana.

Muitas das atitudes refletiam questões mesquinhas, muitas vezes até que ver com a roupa: “Se era de marca, era para imitar a não sei quantas. Se era amarela, era porque ‘tinha falta de sexo’. Aos 13 anos! Cheguei ao ponto de não lhe conseguir comprar roupa porque ela gostava das coisas mas tinha medo de as levar para a escola por causa das consequências”.

Mariana tentou perceber porque é que estes episódios aconteciam. Inicialmente pensou que estivesse relacionado com o facto de ela e o irmão, que foi para a mesma escola, virem “da parvalheira”. Mas o facto é que ele adaptou-se e a jovem de 13 anos não. Decidiu então falar com a diretora de turma para perceber o que é que estava a acontecer: “Perguntei-lhe se ela via alguma coisa no comportamento da minha filha que pudesse levar os colegas a fazer aquilo e ela sempre me disse que também não percebia. A certa altura disse que achava que o facto de ser uma miúda participativa, boa aluna e interessada, podia levar os colegas a acharem que ela era uma ‘chica esperta'”.

Apesar de ter falado com a diretora de turma sobre o problema, Mariana conta que esta não chegou a fazer nada em concreto. Só chamou à escola a mãe do aluno que filmou o ataque, mas apenas com o objetivo de chamar à atenção para a recolha de imagens. “Não se pode recolher imagens dentro da escola. Não fosse parar à internet”, recorda a mãe.

Como ajudar a ultrapassar a exclusão

Para Rita Reino Kinch, agora com 21 anos e a viver em Azóia, Sintra, a mudança foi mais difícil — chegou mesmo a entrar em depressão. O episódio aconteceu na altura em que a família se mudou da Carolina do Norte para Wisconsin, nos Estados Unidos. Foi uma das várias mudanças que fizeram devido às constantes alterações de trabalho do pai de Rita até virem para Portugal. Na altura tinha 10 anos e lembra: “Nos primeiros cinco anos vivemos numa zona muito materialista onde cada criança tinha de ter as roupas com as marcas mais caras e conhecidas. Com 10 anos quase todos já tinham iPhones e a tecnologia mais recente”. Isto originou situações de bullying, recorda.

A mãe, Sofia, consultora de design e social media marketer, reconhecia a importância de delinear estratégias. Foi por isso que, conta à MAGG, na altura tentou amenizar o ambiente vivido na escola com uma atividade que a filha adorava. “Como a Rita tinha e ainda tem uma paixão pela dança [razão pela qual está a formar-se como terapeuta de dança para crianças com deficiências], mal nos mudávamos, fazia logo o esforço de a levar a várias escolas de dança para ela encontrar um sítio em que se sentiria bem e onde se pudesse expressar pela dança”.

Ainda assim, o estímulo não foi suficiente. Quando a situação se agravou, Sofia recorreu à ajuda de vários especialistas para ajudar no caso: “Arranjei uma psicóloga para nos ajudar no processo que a Rita estava a passar, pois entrou mesmo em depressão”. Rita não só baixou o rendimento escolar (até à data sempre tinha sido boa aluna), como deixou de querer brincar com as outras crianças da escola, refugiando-se em casa e chorando muito.

“Na altura tinha bastante raiva do pai, porque sentia que ele lhe tinha estragado a vida com a mudança”. O acompanhamento psicológico foi feito durante sete meses mas, a par deste, o apoio de Sofia, dos colaboradores da escola e a dança tornaram-se fundamentais para ultrapassar a depressão.

“Só no último ano em Wisconsin é que gostei mesmo de lá viver. Aliás, adorei esse último ano, porque tinha conseguido entrar por audição num liceu de artes, tipo o filme ‘Fame’. O mais interessante é que era das poucas caucasianas no liceu. Foi um dos melhores anos da minha vida”, relembra Rita.

Ouvir os filhos e levar os seus sentimentos a sério é uma das melhores atitudes que os pais podem tomar, de acordo com a psicóloga educacional Vera Ribeiro da Cunha. “Não ignore os sinais de alerta ou a sua sensação de que ‘alguma coisa não está bem’. Os problemas de saúde mental não ‘passam com a idade’, nem se resolvem sozinhos. E podem levar a problemas graves como insucesso escolar, recusa escolar, conflitos familiares, dificuldades de relação com os outros e agressividade. Nessa altura é crucial procurar ajuda”.

Pode-se falar de um “trauma” do aluno novo?

“A palavra ‘trauma’ é muito pesada. A integração nem sempre é fácil e depende muito das características da personalidade de cada um. O truque é estar atento a alterações de comportamento dos filhos. E claro, recorrendo à ajuda de um profissional caso seja necessário para os ajudar”, refere a especialista.

No caso de Mariana, como estava desempregada fazia questão de estar em casa à hora de almoço para dar apoio à filha: “Ela contava como tinha sido a manhã e ‘digeríamos’ as coisas. Tentávamos relativizar dentro do possível. Mas tornou-se muito complicado continuar a usar o argumento de que a mudança poderia ser uma coisa boa”.

Naquela altura, a filha acabou mesmo por baixar as notas, o que foi complicado para toda a família: “Para ela a escola é importante. Ela gosta imenso e investe e foi prejudicada porque não conseguia ter rendimento”.

Não foi um período nada fácil. Mas acabou por ser ultrapassado. Atualmente com 15 anos, a jovem conseguiu resolver a situação enfrentando os colegas que lhe faziam bullying e arranjando novos amigos. “Hoje tem um grupo de amigos (de outras turmas) com quem gosta de estar”, conta a mãe, realçando que tudo o que se passou transformou a filha numa mulher “mais resistente”.

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