A nova novela da SIC promete continuar a trajetória ascendente das audiências do canal. Chama-se “Nazaré”, estreou esta segunda-feira, 9 de setembro, e teve, durante os breves minutos iniciais, todas as ferramentas necessárias para conquistar os espectadores — dos mais fiéis aos mais céticos.

A história não é nova, e já a vimos replicada em várias séries ou novelas portuguesas. António Blanco (Virgílio Castelo) é CEO de uma empresa onde trabalha com o irmão, Félix (Albano Jerónimo). A relação aparentemente saudável depressa se revela azeda quando se descobre que Félix anda a desviar o dinheiro que não lhe pertence.

Isso gera um conflito entre os dois no qual os espectadores são apresentados a um novo personagem, Duarte Blanco, interpretado por José Mata, o herdeiro de todo o negócio do pai. Estávamos a meio da história e já se prometiam esquemas mesquinhos e jogos de poder.

Do outro lado, há Nazaré, a personagem interpretada por Carolina Loureiro, que depressa se vê num dilema moral: continua a sua vida honesta como pescadora e vendedora de pães com chouriço, ou dedica-se ao crime para ajudar a salvar a vida da mãe.

A MAGG sentou-se no sofá com o bloco de notas e apontou tudo aquilo que gostou e não gostou na nova novela da SIC. Mostramos-lhe todas as coisas boas e todas as coisas más de “Nazaré”.

COISAS BOAS

Os exteriores incríveis e os planos ricos da região da Nazaré

É preciso recuar até ao início de “Nazaré” para perceber todos os pontos fortes de uma produção que promete ser a líder de audiências durante os próximos meses. A história começa com muitos planos exteriores e um trabalho de fotografia muito bom a focar as ondas, e os atletas, durante uma prova de surf que tem tanto de divertida como de intensa.

As cenas de surf estão muito bem filmadas, com bom enquadramento e a luz usada em todos os planos transmite a emoção e a energia que a cena é suposto passar. Os planos de câmara com drones nunca são demais e o facto de a história se passar na Nazaré ajuda a conseguir exteriores panorâmicos, ricos e vivos.

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É durante a prova de surf que surge um primeiro momento capaz agarrar qualquer espectador. A meio da prova, um dos surfistas cai da prancha e fica embrulhado durante segundos numa onda gigante.

O início perfeito para agarrar o espectador facilmente irritável

Aqueles breves segundos em que não sabemos se o atleta vive ou morre parecem simples, mas são cruciais para manter agarrado um espectador que, não sabendo nada da nova novela, procura motivos para não dar atenção a qualquer conteúdo que outro canal esteja a passar ao mesmo tempo. O espectador não perdoa e irrita-se quando sente que o seu tempo não está a ser recompensado.

E o tempo estava a ser bem aproveitado até começarem a surgir os primeiros problemas. Após o surfista sobreviver e ser dado tempo ao espectador de respirar de alívio, surge um novo problema.

A mãe (Custódia Gallego) de Nazaré (Carolina Loureiro) sente-se mal no mercado e é desvendado que tem um problema gravíssimo no cérebro e que a obriga a ser operada em Londres. Problema? Não há dinheiro e é o namorado, Afonso Pimentel, que assume ao que vem e garante que será possível — através de esquemas criminosos e dúbios — arranjar o dinheiro para o tratamento.

A familiaridade com os atores

Além dos clichés e estereótipos usados numa novela, também é importante que seja familiar. Nem que para isso vá buscar algumas das caras mais queridas do público. E nisso, Ruy de Carvalho, Albano Jerónimo (que faz um bom vilão apesar dos diálogos fracos), Carla Andrino, Custódia Gallego e Virgílio Castelo cumprem o papel — mesmo que, neste último caso, as falas sejam tão pobres que dão pena.

Aliás, fica a sensação de que Virgílio terá olhado para o guião e pensado: “Será que se gritar o máximo que conseguir em todas as cenas parece que estou a trabalhar melhor?”. A emoção e a indignação não se fabricam nem se forçam e toda as cenas em que Virgílio entrou ganharam apenas pela sua figura larger than life (maior do que a vida, em português) do que pela capacidade de entrega.

COISAS MÁS

Os avanços repentinos e o teletransporte

E isto parece ser mais um problema de argumento do que de atores. Aliás, uma das grandes falhas da novela é, precisamente, no facto de percorrer a história à velocidade da luz — o que revela um argumento fraco e pouco cuidado. Ora vejamos, estamos a ver uma novela e não uma série limitada a apenas oito episódios de uma temporada, sem saber se há uma segunda.

Há tempo para desenvolver a história, os dilemas, os esquemas e as traições. Não faz sentido que, numa questão de minutos, uma relação aparentemente saudável entre as personagens de Albano e Virgílio termine em morte. Da mesma forma que não faz sentido, logo ao início, a personagem de Carolina Loureiro teletransportar-se da prova de surf para o mercado numa questão de segundos — sem qualquer cena de transição pelo meio.

Personagem de Nazaré

Em ficção, não é fundamental copiar a realidade, mas convém que haja credibilidade, consistência, que as pessoas acreditem que o que estão a ver faz sentido. É por isso que as novelas estão cheias de clichés, de estereótipos.

Ora, uma menina com ar de betinha, que fala à betinha, que tem uma mãe que parece mãe de uma betinha, que tem amigos betinhos do surf, mas que afinal é uma pescadora da Nazaré, boazona, que anda na faina, e que faz motocrosse não é a coisa mais credível do mundo.

A interpretação de Carolina Loureiro, não sendo incrível, cumpre, mas a personagem parece muito pouco consistente, sobretudo para uma protagonista. Vamos ver como evolui com o tempo.

A cena da revelação do desfalque

Dois atores com a qualidade de Albano Jerónimo e Virgílio Castelo não mereciam uma cena tão fraca, inverosímil, apressada, com diálogos tão básicos, como aquele em que António Blanco (Virgílio) confronta Félix (Albano) com um desfalque que ele deu na empresa. Vamos por partes.

Primeiro, um sócio e gestor profissional desvia 1,3 milhões de euros da empresa, durante seis meses (o que dá 216 mil euros por mês), e acha que ninguém vai descobrir? Os dois, António e Félix, são sócios de uma empresa de design de mobiliário na Nazaré, não são sócios da IKEA, por isso, perguntamos: quanto é que aquela empresa pode faturar mensalmente para um dos sócios achar que se desviar 216 mil euros por mês durante seis meses ninguém vai desconfiar?

Segundo, o dono da empresa olha para um papel durante dois segundos, após uma denúncia anónima, e automaticamente confirma que o irmão o está a roubar. Não tenta confirmar, não vai ver relatórios e contas, não dá benefício da dúvida, nada. Acusa-o logo de ser um ladrão. E como é que Félix reage às acusações? Como é que se defende? Não se defende: assume logo que é culpado e que vai repor o dinheiro todo. Tudo muito pouco credível, pouco sustentado e acelerado.

Os planos para a morte

O momento mais baixo é mesmo a cena em que Félix conta à mulher, Verónica (Sandra Barata Belo), que António descobriu o desfalque que deram na empresa. Poucos segundos depois de contar à mulher, Verónica já tem uma solução: matar António num incêndio. E os diálogos? Muito, muito fracos, com clichés como “são eles ou somos nós”, “as coisas precipitaram-se, estamos encurralados”.

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O sentido de pânico e medo deve ser sentido, não deve ser escarrapachado na cara do telespetador com diálogos, que é precisamente o que acontece nesta cena. Uma vez mais, tudo acelerado, desnecessário e sem nexo, ou credibilidade. Cada vez mais, o mau da fita é uma personagem inteligente, complexa, não é um básico, burro e desesperado.

O que é que o Félix estava a fazer no incêndio?

O momento mais sem nexo do episódio acontece quando a propriedade dos Blanco já está a arder, por ordem de Félix, que contratou Heitor (Rui Unas) e os seus capangas para o servicinho. Ora, Unas e os capangas deram fogo à mata em redor da quinta, até aqui tudo certo, mas, e no meio disto, onde é que andava António Blanco? Em casa, na quinta, a discutir com o filho, Duarte (José Mata), sobre o facto de o filho ser um fanfarrão que vive da mesada do pai.

A discussão acaba, a ação muda-se para a mata onde os incendiários fazem o seu trabalhinho, e quando volta a António onde é que ele está? Num barracão, inconsciente, amarrado a um poste por Félix, o irmão, que lhe pega fogo. Hã? Como assim? Não falta aqui qualquer coisa?

A sensação que dá é que em edição foi eliminada uma cena de transição, em que Félix dá uma marretada no irmão e o arrasta para o barracão. Essa cena não existe, por isso, não se percebe como é que Félix, de repente, está a amarrar o irmão adormecido (adormeceu como? o que é que lhe aconteceu para estar assim?) num barracão e a matá-lo.

Onde é que Nazaré mudou de roupa?

É um pormenor, parece uma coisa picuinhas, mas, como se disse no início, é preciso que as coisas façam sentido e tenham uma sequência lógica. Então, o que se passa é que Nazaré aparece sempre vestida da mesma maneira em dois dias diferentes: de calções curtos, top preto e um blusão camuflado. Vêmo-la assim na cena em que está com o namorado, e em que ele lhe conta que vão roubar a quinta dos Blanco.

Ela fica encarregue de vigiar a quinta. Sai porta fora e na cena seguinte vêmo-la a subir a uma árvore (não a vemos bem a ela, vemos um duplo, que se percebe claramente ser um homem), mas como é que ela está vestida? De calças pretas, cachecol, casaco preto. Ela sai de casa do namorado para ir vigiar a quinta vestida de calçoes e top e na cena seguinte está com outra roupa, sem que haja qualquer elemento de transição temporal.

A PJ a investigar o incêndio

Este é um clássico da ficção: a PJ está onde não deve estar. Vamos lá. Então, começa um incêndio, sem que se saibam as causas. O fogo começa a ganhar dimensão e, de imediato, está a PJ no local a investigar, quando o fogo ainda está ativo. É irreal, não tem credibilidade, não faz sentido sob nenhuma perspetiva.

E aquele beijo no meio do fogo?

Pobre Jorge Palma e a sua “Estrela do Mar”, que serviram de banda sonora à cena em que Nazaré tenta fugir ao fogo, escapar da morte, e é beijada por Duarte.

Isto quando, na vez em que estiveram juntos antes, Nazaré e Duarte andaram à pancada. Na cena seguinte, vão os dois a fugir do fogo, ela fica com uma manga em chamas, ela agarra nela, atira-a para dentro de água, saem os dois à superfície e ele espeta-lhe com um beijo. Hã? Mas não se odiavam?

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Por muito gabiru que Duarte possa ser — e aparentemente é — não faz sentido nenhum aquele beijo naquelas circunstâncias, quando ambos ainda correm risco de vida e só querem fugir a um fogo. Demasiado cedo, demasiado despropositado.

Olha, o meu filho autista comporta-se como um miúdo autista

Quase no final, mais um momento baixo. A cena em que Félix começa a disparatar com a reação do filho, que é autista, e que se está a comportar como um autista. Mas ele é pai do miúdo há cinco minutos? Não devia já saber como é que o filho reage? Não deveria saber lidar com isso? Afinal, o puto aparenta ter uns 20 anos, e à partida foi autista a vida toda. Mas nas novelas nunca se sabe.

O morto que não morreu

Previsível, desnecessário e estúpido. Então, Duarte morreu no fogo, depois de levar com um barrote na tola. Foi para o hospital, veio o sotôr ter com a família e disse: está morto. Choradeira e tal. Normal. Nesse mesmo dia, António foi encontrado morto. Tudo certo. Depois vem o funeral, que se presume que tenha sido pelo menos dois dias depois.

E no funeral quem aparece? Duarte, o morto. Tcharan! Bom, mas então Duarte morreu, o médico disse que ele morreu, e ninguém reconheceu o corpo, ninguém tratou do velório do rapaz, ninguém foi chorar à beira dele? Foi tudo chorar o António e esqueceram-se da existência do Duarte? Que afinal estava vivo? É mesmo preciso isto? Estamos mesmo em 1978 para o pessoal engolir isto? Não.