“Temos filhos para nos superarmos a nós próprios. Naquele dia eu superei-me mesmo, por vários motivos. Porque tive uma filha, porque consegui um parto normal, sem percalços, porque não me senti stressada nem pressionada em momento nenhum.” O testemunho é de Janine Gigante e faz parte do livro “Trazer ao Mundo”, da autoria da jornalista Rita Silva Freire.

No novo livro, com lançamento marcado para esta sexta-feira, 13 de setembro, a autora reúne um conjunto de histórias reais sobre o parto e o que significa ser mãe. É que além de as futuras mães terem de se preocupar com o facto de toda a gente ter uma opinião sobre o que significa dar à luz uma criança, ainda têm de pensar no tipo de parto que querem ter e nos pais que querem ser no futuro.

A propósito do Dia da Grávida, que se celebra esta segunda-feira, 9 de setembro, a MAGG faz a pré-publicação do capítulo dedicado a um dos relatos com o título “O Parto Respeitado”, onde Janine falta sobre a escolha de um “parto humanizado” e como a importância de um plano de parto é fundamental para o “empoderamento do casal”.

Editado pela Contraponto, “Trazer ao Mundo” conta com 264 páginas e vai custar 16,60€.

O parto humanizado e a variedade de opções

“Aos quatro anos o meu filho Guilherme decidiu que não queria ser filho único e pediu uma irmã ao Pai Natal. Era uma ideia que eu também já tinha. Fui à médica fazer um check-up. Ela não só me disse que estava tudo bem, como me disse que, se queria começar a tentar, era a altura certa: estava a ovular. Passadas três semanas fiz um teste de gravidez. Deu positivo.

Nessa altura uma amiga minha, também grávida do segundo filho, disse-me que ia ter o bebé num hospital de uma cidade próxima. Perguntei-lhe porque ia para tão longe com hospitais ao lado de casa. Disse-me que lá eram defensores do parto humanizado. Se havia coisa que eu queria mesmo era um parto normal – não digo natural, porque não quis fechar as portas à possibilidade de anestesia.

Plano de parto. Sabia que pode ter o bebé de cócoras e ao som da sua música preferida?

A ideia de decidir que tipo de parto queria ter e como queria que esse parto se desenrolasse aliciou-me. Comecei a pesquisar sobre esse hospital e sobre o que era, exatamente, o parto humanizado. Li imensa coisa sobre a importância de se ter um plano de parto, sobre o empoderamento do casal, o seu envolvimento na preparação do parto e no parto propriamente dito. Tudo fez imenso sentido para mim. Achei que, se o que eu queria era um parto o mais natural possível, se havia sítio onde eu o ia conseguir era ali. Naquele hospital permitiam-me querer coisas. Marquei logo uma visita. Queria ir conhecer o hospital. Havia o fator distância a considerar, eram 40 minutos de carro na autoestrada. Fiquei encantada. Era ali que o meu bebé iria nascer.

Apesar de estar a meio da gravidez, fiz logo a consulta do Plano de Parto que, normalmente, é feita já no fim da gravidez, quando a grávida já fez as aulas de preparação para o parto e tem mais noção do que quer e do que o hospital tem para oferecer. Mais tarde repeti a consulta.

Mas por tê-la feito tão cedo é que fiquei tão encantada. O plano de parto é feito com uma enfermeira-parteira, numa espécie de entrevista aberta. Nós vamos falando, ela vai apontando e vai dizendo o que é possível. E o que acontece caso não seja. Fica delineado o plano A, mas também o plano B, para o qual se passa no caso de existir alguma complicação. Tudo é salvaguardado e essa informação é partilhada connosco.

Houve mais coisas que adorei no hospital. Desde logo a forma como as enfermeiras falam connosco. Envolvem-nos. Não nos fazem sentir que não percebemos nada daquilo. Depois, é-nos dado um lamiré das práticas do hospital. Percebemos que ali não estamos dependentes da sorte.

Ao fazer o plano de parto dei-me conta de que não estava a pedir nada que aquele hospital à partida não oferecesse. Deveria ser assim em todos os hospitais pertencentes ao Serviço Nacional de Saúde. Muita gente diz sobre o seu parto: «Tive sorte com a enfermeira que me calhou, até me perguntou o que eu queria, como eu queria.» Ali não é uma questão de sorte ou azar. É assim que se trabalha. Não temos de estar à espera de ter sorte com o médico ou com a equipa que nos vai calhar.

Perguntam-nos, por exemplo, em que posição queremos estar no parto, que tipo de alívio da dor pretendemos, dão-nos várias opções, explicam que pode ser farmacológico ou não farmacológico, pode fazer-se hidroterapia, musicoterapia, acupuntura. Um rol de coisas que normalmente não se perguntam às grávidas.

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A preparação para o parto foi espetacular. Estávamos sempre a partilhar experiências, os conhecimentos eram adquiridos pelo que contavam as outras mães, não apenas pelo que dizia a enfermeira-parteira que, mais do que dar uma aula, conduzia a conversa, sempre a transmitir-nos uma grande noção de liberdade, a dizer-nos que podemos fazer o que quisermos no parto, escolher a posição, que elas se ajeitam.

Temos de estar como nos sentirmos confortáveis, como o nosso corpo mandar. Que, a qualquer altura, podemos mudar de ideias e, por exemplo, pedir uma epidural. Há muito respeito pela vontade das grávidas. Havia três tipos de aula de preparação para o parto: as mais teóricas, feitas em sala; as práticas, também feitas em sala, com os instrumentos de auxílio no parto, como o banco, a bola de pilates ou o amendoim, e as técnicas de alívio da dor; e as aulas em meio aquático, na piscina municipal. Espetacular.

"Trazer ao Mundo" é editado pela Contraponto e vai ser lançado na sexta-feira, 13 de setembro

Contraponto Editores

A minha filha nasceu às 41 semanas. Na preparação para o parto explicaram-nos que, do ponto de vista clínico, é seguro esperar até esse limite. Depois disso, nada impede os casais de esperar, mas têm que assinar um termo de responsabilidade. Na consulta das 39 semanas a médica examinou-me e disse-me: «O colo está fininho, a apagar. Mas não tem dilatação. Vamos marcar a indução para as 41 semanas. Se entrar em trabalho de parto até lá, muito bem, se não, apresenta-se no hospital no dia e hora combinados.»

Não queria induzir o parto com medicação, mas também não queria ir além das 41 semanas. A médica disse-me que, na consulta seguinte, se tivesse dilatação e assim o quisesse, poderíamos tentar acelerar o parto fazendo um descolamento de membranas. Fui para casa a pensar nisso, mas rapidamente decidi que também não queria.

Resolvi fazer tudo o que estava ao meu alcance para tentar acelerar o parto de forma natural. Bebi muito chá de gengibre e canela, caminhei feita louca todos os dias à noite na praia, comi comida picante, namorei, subi e desci escadas. Resultou. Às 40 semanas e seis dias sento-me a tomar o pequeno-almoço e sinto a minha primeira contração. E percebi que aquilo que as enfermeiras nos dizem é mesmo verdade: «Quando for uma contração vocês vão perceber que é uma contração.» Percebi mesmo. Sem qualquer dúvida.

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Contei ao meu marido e ele enervou-se logo: «E agora? O que fazemos?» «Nada. Fazes a tua vida normal, vemos como é que isto evolui e, quando estiver na altura, vamos.» As contrações chegavam a cada dez ou vinte minutos. Foram-se tornando mais regulares e, à hora de almoço, tinham onze minutos de intervalo.

Nunca tinha passado por um parto normal, já tinha perdido o rolhão mucoso, de minha casa ao hospital ainda é uma viagem de mais de meia hora, por isso achei melhor irmos. Faço o CTG, confirmam as contrações e sou vista pelo médico para fazer a admissão.

Fez-me o toque e foi a desilusão total. Tinha só um centímetro de dilatação. Não me internaram. Disseram-me para ir andar para a praia e voltar ao início da noite para ser reavaliada. Foi de rir. Eu andava na rua e, de repente, parava e agarrava-me ao meu marido, a ofegar. As pessoas percebiam perfeitamente o que estava a acontecer. Algumas senhoras até me abordavam, vinham ter comigo e desejavam-me uma hora pequenina. Aqui no Norte é assim.

Ao fim do dia voltei para o hospital, mas não houve evolução nenhuma. Disseram-me: «Isto no seu ambiente vai andar. Vá para casa, tome banho, vista o pijama, deite-se na sua cama, deixe-se estar e vai ver que isto começa.»

Assim foi. Vim para casa, tive contrações a noite toda e, de manhã, estavam mais próximas e com bastante dor associada. O meu marido já estava a preparar-se para ir para o hospital, mas eu disse-lhe: «Não, vais trabalhar e quando for preciso eu ligo-te e vens ter comigo.» Enchi a banheira e estive lá deitada, a ouvir música, a falar com o bebé, a fazer festinhas na barriga. Depois, fui a casa da minha sogra almoçar.

Mas ela mandou o meu marido ir buscar-me. Eu já estava muito aflita, cansada por não ter dormido nada. De cada vez que chegava uma contração, eu nem falava. Nesses momentos, parece que o mundo para todo, tudo congela, em pausa, até que a contração acaba e a vida é retomada como se nada fosse.

Fomos para o hospital. Voltei ao CTG, fui vista e admitiram-me. Estava finalmente com três centímetros de dilatação. Levaram-nos para um quarto e deixaram-nos à vontade. Fiquei muito contente, o quarto até tinha uma piscina para alívio da dor. Infelizmente, não a pude utilizar. Tive de fazer medicação endovenosa, um antibiótico por causa de uma bactéria, que me deixou muito maldisposta, enjoada, a vomitar. Acabei por me resignar à cama. Não conseguia estar de outra forma.

Entrámos no quarto, a enfermeira apresentou-se, apresentou também a auxiliar e disse para nos sentirmos em casa, que podíamos ouvir música, ver televisão, andar, comer. Aproveitei para descansar enquanto conseguia, depois fui para a bola e andar no corredor.

A epidural como “uma picada de mosquito”

À noite, comecei a sentir as contrações muito próximas e a dor cada vez maior. Achei melhor pedir à enfermeira para me observar. Tinha apenas quatro centímetros de dilatação. Foi um balde de água fria. Sabia que o final era mais rápido, mas já estava muito cansada. Ia ser a minha segunda noite em branco. Decidi pedir a epidural. Tive medo de, com a exaustão, não ter energia para puxar.

O anestesista disse-me: «Isto dói um bocado mas, tendo em conta as suas contrações, vai ser como uma picada de mosquito.» E foi. Não custou nada. O médico explicou-me que podia andar. É uma walking epidural: baixam os limites da dor ao suportável e, à medida que sentimos necessidade, vamos pedindo um reforço. Entretanto, dá-se a mudança de turno e entra a enfermeira que me tinha feito o plano de parto. Fiquei muito confiante por ela estar ali. Também estava com as outras, mas ela foi a primeira que conheci. Sentia-me à vontade com ela. Fiquei tranquila e tentei ir descansando.

A dor foi galopando. O momento da expulsão estava a aproximar-se. Por volta das quatro da manhã rebentaram-me as águas. Pedi ajuda para me limpar e trocar e, nessa altura, a enfermeira perguntou-me se estava com vontade de puxar. Disse-lhe que não. Mas ela sugeriu: «O bebé está mesmo aqui. Quando vier a contração tente comprimir o abdómen para ver como evolui.» Assim fiz.

Deitada não estava a resultar. Não sentia o bebé a descer. Pus-me de gatas e, aí sim, senti nos meus ossos alguma coisa a mexer. Mas estava cansada, já não aguentava estar de gatas. Pus-me de lado, com o auxílio de uma bola de pilates em forma de amendoim, que estava entre os meus joelhos. O meu marido pôs-se junto aos meus pés e, quando eu precisava de puxar, empurrava as minhas pernas e ajudava-me a fazer força.

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Assim, lentamente, o bebé foi descendo e coroando. E, devagarinho, nasceu, tendo sido logo colocado em cima de mim. Deixámos o cordão pulsar até ao fim, o meu marido depois cortou-o, com o bebé já à procura do peito para mamar.

Tudo aconteceu num ambiente muito tranquilo, na nossa intimidade, a meia-luz, eu, o meu marido e a enfermeira. Tenho a voz dela gravada na minha cabeça. Era muito meiga, dócil, sempre num discurso de reforço positivo, muito atenciosa, até com o meu marido.

Dizem que quando estamos a ter um filho entramos na partolândia. E, na partolândia, tudo é muito relativo. Eu tanto estava a conversar com o meu marido, como só queria ficar calada e quieta, tal era a dor. Ela soube gerir isso e orientar-nos aos dois muito bem, apoiando-o também a ele. Fez-me muitas festinhas, carinhos, massagens. Conversou connosco para nos distrair e fazer com que eu não estivesse sempre concentrada na dor. Graças a ela este parto foi, para mim, a melhor experiência possível.

O parto como forma de superação

O bebé nasceu, foi para o meu colo e eu chorava que nem uma Madalena. É uma emoção impossível de explicar. O meu marido também chorava, dizia-me: «Conseguiste, foste tu, foste tu que puseste aqui a nossa filha.» É um reconhecimento muito bom. Realmente, fui eu que a tive. Ninguém a tirou de dentro de mim. Eu tive-a. Tive medo de a puxar mas pus lá as mãos para a receber enquanto saía. Ela foi posta ao meu colo e eu estava só ali, deliciada. Olhava para ela, chorava, ria-me, falava-lhe. É uma sensação de êxtase total. Senti-me plena.

A jornalista Rita Silva Freire reúne vários relatos reais sobre o parto

Raquel Wise

Temos filhos para nos superarmos a nós próprios. Naquele dia eu superei-me mesmo, por vários motivos. Porque tive uma filha, porque consegui um parto normal, sem percalços, porque não me senti stressada nem pressionada em momento nenhum.

Precisei apenas de três pontos. Depois de ela mamar, uma enfermeira levou-a para a pesar, medir e para lhe dar a injeção de vitamina K. Ajudaram-me também a lavá-la e vesti-la. Os pediatras viram-na, disseram que estava tudo bem. Passado um bocado fui para o quarto. Estava muito cansada e ainda um pouco enjoada. E fiquei no internamento.

Mas este pós-parto também teve a sua complicação. Passa-se a manhã, a tarde e eu não ia à casa de banho. Nem tinha vontade. Um enfermeiro percebe o que está a acontecer, faz a palpação, tinha a bexiga no limite. Mas não conseguia, de forma nenhuma, fazer chichi. Tiveram de me esvaziar a bexiga com sonda. Disseram-me que às vezes acontece, que o bebé está muito tempo no canal para nascer e o corpo fecha-se para evitar a passagem de micróbios e bactérias.

Estive uns dias sem conseguir ir à casa de banho, a esvaziar a bexiga com sonda, o que não é agradável para quem acabou de ter um bebé.

Por isso, eu chorava, queria resolver aquilo, queria ir para casa. E ia-me obrigando a ir à casa de banho, mesmo que não saísse nada. Passados uns dias, consegui. Fiquei numa felicidade imensa. Ia para casa. As enfermeiras até bateram palmas. Foram família nesses dias. Foi um parto inesquecível, perfeito. Se tiver mais dez filhos, vou tê-los naquele hospital. Ali senti-me querida, respeitada, confiante. Não podia pedir mais nada.”