Ter um animal de estimação implica dar, além de carinho, um teto, alimentação, cuidados de saúde e apanhar o cocó que eles fazem quando os levamos a passear. Mas se pensarmos em cada um destes cuidados, há vários fatores prejudiciais para o planeta: muitas casotas de cães são feitas com plástico, a ração dos gatos viaja quilómetros para chegar às tigelas e os sacos servem para apanhar aquilo que não pode ficar nos jardins ou passeios.

Numa altura em que as mudanças a favor de práticas mais ecológicas estão a acontecer — os sacos de plástico das compras estão a ser trocados pelos de rede ou de pano, as idas ao talho estão a ficar menos frequentes, a par de uma diminuição do consumo de carne — há um assunto que ainda suscita dúvidas: como cuidar dos cães e dos gatos de forma sustentável?

Antes de avançarmos, o primeiro passo é saber como respeitar a natureza e os habitats dos animais. Por isso, nem todos os animais devem ter um lugar lá em casa: é o caso, por exemplo, dos papagaios. Se este pertence ao ramo de uma árvore, é lá que deve ficar. O mesmo não acontece com os cães, que diariamente são abandonados e procuram um novo lar. Esse lar, para ser mais ecológico, tem de ter algumas alternativas mais amigas do ambiente. Por onde começar? Falámos com Catarina Marques, veterinária do projeto Veterinários Sobre Rodas, uma empresa de cuidados médico-veterinários ao domicílio.

O espaço para dormir

Seja no interior ou no exterior da casa, o seu animal de estimação vai precisar de um espaço confortável para descansar — mesmo quando o sofá é o lugar de eleição. Para evitar os plásticos e conseguir ter uma casa mais sustentável, há, pelo menos, uma alternativa para os gatos: com dois cabides de arame, um pouco de cartão forte e uma T-shirt velha, fazer uma tenda Do It Yourself (DIY) — expressão que traduzida para português significa “faça você mesmo”.

Além desta, existem outras opções ecológicas: a marca Tiendanimal tem uma casa de madeira, existindo ainda uma feita em papel na Miscota.

Para os cães, estas marcas também têm alternativas no mesmo material: no caso da Zooplus ou da Casotas e Companhia, pode encontrar casas de madeira.

Alternativas para as necessidades “biodesagradáveis”

Levar um saco de plástico para apanhar o cocó do cão é o método mais comum entre os donos de animais, mas também um dos menos ecológicos. Se não dispensar o uso do saco, pode optar pelas versões biodegradáveis. A Earth Rated é uma alternativa, uma vez que apresenta o produto feito com amido de milho. Estão à venda em várias plataformas online, mas pode também encontrá-los na Zooplus ou na Beco Pets.

Se, além de poupar o ambiente, quiser também poupar a carteira, não precisa de comprar nada: basta pegar, por exemplo, nos papéis publicitários que recebe na caixa de correio ou nos jornais que já não vai ler. Pode levar mais do que uma folha (para garantir que não se suja), mas já é o início de uma troca mais sustentável.

Seja qual for a opção, deve saber que o cocó do seu animal doméstico não deve ser colocado na compostagem doméstica, uma vez que esta não atinge uma temperatura suficientemente alta para eliminar as bactérias existentes nos dejetos. Por isso, deve colocar o papel e as necessidades num lixo indiferenciado ou fazer a separação — o papel no lixo comum e as fezes na sanita.

No mundo ideal ensinaria o seu cão a fazer as necessidades na sanita, certo? Não: “Grande parte das zoonoses [doenças que afetam os animais e que em certas condições podem transmitir-se ao Homem e vice-versa] transmitem-se pelo contacto com o pelo, saliva, fezes e/ou urina — logo, será de evitar a sanita, local onde existe maior probabilidade de contaminação”, explica à MAGG Catarina Marques, da Veterinários Sobre Rodas, que abriu em agosto do ano passado.

E quanto aos gatos? A areia comum que se coloca na caixa pode não ser o material mais ecológico. Mas também aqui há alternativas: existe uma areia biodegradável, que se encontra em alguns supermercados. É só procurar por essa informação na embalagem.

Além desta, existe areia vegetal na Husse ou na Petness, que solidifica quando entra em contacto com o chichi do gato, facilitando a separação. E porque é que esta é uma alternativa mais amiga do ambiente? Porque apenas tem de deitar fora a parte solidificada, mantendo a restante — e fazendo com que dure mais tempo.

Outra possibilidade sustentável são os pellets, pequenos objetos de madeira, com forma cilíndrica, que essencialmente são um biocombustível sólido frequentemente utilizado em lareiras e salamandras, mas que também pode servir para fins de cuidado animal.

“Os pellets biodegradáveis são constituídos por papel ou cerradura prensada. É uma opção amiga do ambiente, sem consequências negativas para a saúde dos gatos”, refere a veterinária.

Esta opção permite deixar a caixa dos gatos mais limpa, com menos cheiros desagradáveis e é ainda das mais barata, encontrando-se em supermercados ou em lojas de bricolage e construção.

A verdade é que não são os donos, mas sim os felinos, quem escolhe se os pellets são ou não uma boa alternativa. “[A opção é] frequentemente rejeitada pelos gatos mais exigentes, que parecem não gostar da sensação dos pellets nas patas”, refere Catarina Marques.

O pelo e a higiene dos animais

Para tirar os pelos dos animais, há duas alternativas surpreendentes que são mais ecológicas. Uma delas é uma simples luva de borracha. Apesar de o material ser de plástico, pode ser uma boa opção se já tiver algumas em casa, acabando por reutilizá-las. Mas pode também fazer um pequeno investimento e comprar um removedor de pelos. Pode encontrá-lo em várias lojas de animais online ou até mesmo na Amazon.

Quanto ao banho dos cães (os gatos sabem bem tratar deste assunto sozinhos), existe uma vasta gama de produtos de higiene sustentáveis. Tal como para os adultos há champô e sabonete sólidos, para estes animais o mesmo acontece. Tem alguns pontos de venda como a Pegada Verde, a Seven Bubbles, a Porta dos Sentidos e a Dr. Bronners.

A higiene e os cuidados de saúde também incluem a desparasitação, que é administrada a partir de embalagens ou blisters compostos por uma elevada percentagem de plástico.

Não podendo prescindir do bem-estar dos animais, resta saber se é possível contornar o uso de plástico: “Têm surgido algumas alternativas multidose, mais amigas do ambiente, como é o caso do Profender para gatos, no qual o desparasitante se encontra acondicionado num frasco de vidro com tampa revestida de teflon”, indica a veterinária.

Por favor não dê beijinhos ao seu animal — é perigoso para todos

Ração a granel: sim ou não?

A comida vendida a granel estende-se ao mundo animal. Só que esta pode não ser uma medida assim tão sustentável. É que, de acordo com o grupo no Facebook “Lixo Zero Portugal” — dedicado a práticas quotidianas sustentáveis — há incongruências graves: há estabelecimentos que “compram essa ração nos sacos de 15 quilos para venderem em porções mais pequenas. O desperdício com as sacas acaba por acontecer na mesma”, revela um dos membros do grupo.

Além disso, não sabemos em que condições é que a ração é armazenada, podendo perder propriedades ou ser contaminada por fungos presentes no ambiente, pela exposição ao oxigénio.

Ainda assim, se considerar que esta é para si a melhor forma de poupar o ambiente, encontra ração a granel em alguns supermercados, como o Jumbo ou na marca Green Beans.

Se for uma escolha consciente, pode mesmo ser mais vantajosa: “Comprar ração a granel é, acima de tudo, uma opção mais amiga do ambiente. A ração a granel não traz nenhum benefício adicional para os animais, quando comparada com a ração vendida em embalagens”, esclarece a veterinária Catarina Marques.

Mas analisemos outras alternativas: se não conseguir fugir ao plástico das embalagens da comida dos animais, pode optar por utilizá-los como saco para o balde do lixo. Outra das sugestões ecológicas é comprar ração portuguesa, 100% natural, que encontra na Naturea ou na Petfield. Por último, pode ainda comprar em maiores quantidades — é uma das principais medidas para reduzir o impacto ambiental, já que maior quantidade significa uma pegada ecológica menor.

Mas ao comprar uma embalagem de 20 quilos será que, depois de aberta, a ração vai ter a mesma qualidade e manter os mesmos nutrientes? De acordo com a especialista, sim: “Os nutrientes são mantidos”, diz, acrescentando que deve condicionar a comida numa caixa térmica. Além disso, a validade da embalagem deve ser verificada.

Se está a pensar dar uma alimentação vegetariana ou vegan aos seus animais, também encontra alternativas em várias lojas, como a Easygreen.

A questão que várias vezes se coloca prende-se, no entanto, com o impacto que esta dieta pode ter na saúde deles. A veterinária do projeto dos Veterinários Sobre Rodas esclarece: “Um número significativo de estudos tem demonstrado que os cães e os gatos também podem ser saudáveis ao serem alimentados com dietas vegetarianas/vegan, desde que estas sejam nutricionalmente completas e equilibradas. Nestes casos é importante monitorizar regularmente o pH urinário”.

Para brincar também há alternativas ecológicas

O seu cão pode até já ter uma bola de plástico e não é por isso que deve deixar de a usar ou deitar fora. Mas quando o tempo de vida do objeto estiver a chegar ao fim, pode procurar alternativas mais sustentáveis, criando, por exemplo, uma bola artesanalmente.

Como? Basta pegar em meias velhas ou farrapos espalhados em casa. Depois, terá de enrolá-los e fixar o molde com algumas linhas de costura, dando origem a um novo brinquedo. Esta é uma opção transversal aos animais domésticos mais comuns, mas há outra para os cães: sapatos velhos.

Uma última sugestão é um género de DIY com materiais que acabariam na reciclagem (ou em alguns casos no lixo). Basta utilizar embalagens de gel de banho ou de champô — se não tiver em casa, porque já optou pelas soluções sólidas, peça a um amigo —, colocar no interior um pouco de ração ou de biscoitos, para fazer algum barulho, e fechar a tampa. Resultado: um chocalho ecológico que cães e gatos vão adorar.