Ana fundou a Web Summit da cultura. “Não se muda o País a votar de 4 em 4 anos. Temos de fazer a nossa parte”

Fundou a Arte institute em Nova Iorque para dar a conhecer a arte portuguesa. Agora, quer pôr Portugal a mexer e a fazer mais pela cultura.

Ana Miranda tem 42 anos e vive em Nova Iorque desde 2006

Clara Pereira

Ana Miranda está habituada a deixar os outros sem resposta. “Eu não me calo”, assume. E por isso fez orelhas moucas a todos os que disseram que criar aquilo a que hoje chama de “Web Summit da cultura” era impossível, principalmente sem apoios.

Mas foi possível e o evento RHI — Revolution, Hope, Imagination já tem data marcada: de 14 a 21 de setembro, Ana vai juntar artes, negócios e turismo em eventos a decorrer em 11 cidades — Faro, Loulé, Vidigueira, Évora, Lisboa, Torres Vedras, Óbidos, Caldas da Rainha, Alcobaça, Leiria, Guimarães e Funchal.

Não estranhe ver aqui um rinoceronte (o nome RHI é uma referência a rhino, rinoceronte em inglês) a representar um evento em Portugal, ao invés do típico Galo de Barcelos. Ana considera que este animal é mais “imponente” e ainda por cima conta uma história mais interessante: a imagem escolhida é a do rinoceronte do artista Albrecht Dürer que, em 1515, retratou o animal que foi enviado da Índia para Lisboa como presente para o rei D. Manuel. Foi o primeiro rinoceronte vivo visto na Europa desde os tempos dos romanos.

À história e ao poder deste animal, Ana juntou as palavras Revolution, Hope, Imagination (Revolução, Esperança, Imaginação), que poderiam também ser usadas para descrever a forma como Ana leva a vida.

A viver em Nova Iorque desde 2006, criou há oito anos o Arte Institute como forma de dar a conhecer Portugal ao mundo. É neste instituto independente, sem fins lucrativos, que trabalha para a internacionalização da arte contemporânea portuguesa.

E depois de mais de 300 eventos organizados em todo o mundo, decidiu fazê-lo agora também em Lisboa. Não é uma mostra de arte, nem um espaço de performance. O RHI é um “movimento de aproximação”, como lhe chama, entre pessoas que pensam, fazem e investem em arte, sempre com Portugal como ponto de partida. A ideia é juntar no mesmo espaço agentes das áreas da cultura e do turismo para que não troquem só cartões de visita, mas sim ideias para um futuro vivido em conjunto.

Ana quer Portugal a fazer mais

Saiu do País quando Portugal já não lhe dava o que precisava. Era atriz, produtora, tinha duas licenciaturas, uma em Línguas Estrangeiras Aplicadas e outra em Comunicação Social, e uma pós-graduação em Arte e Terapia do Movimento. Cansada de não conseguir fazer nada com tanto conhecimento, rumou a Nova Iorque, que seria apenas ponto de paragem para três meses antes de ir para o Brasil, o seu destino final. O que é certo é que Nova Iorque continua a ser a sua casa e é de lá que dispara arte portuguesa pelo mundo.

Ir para fora faz com que tudo ganhe outra perspetiva. Somos mesmo muito bons em algumas coisas, como a saúde e a educação, coisas às quais não damos o devido valor”, explica a empreendedora cultural à MAGG.

Por outro lado, considera que se Portugal tem que melhorar nalguma coisa, é na iniciativa. “Eu vejo pessoas que vão às Finanças e depois vão para o Facebook queixarem-se da forma como foram atendidas. Não seria muito melhor pedir o livro de reclamações? É que, assim, a pessoa que o atendeu nunca vai melhorar”, refere. Mas este é só um exemplo.

Ana já fez as pazes com a classe política e considera agora que o poder está nas pessoas. “Não se muda o País a votar de quatro em quatro anos. Temos de fazer a nossa parte todos os dias e não ficar à espera de financiamentos”.

E foi exatamente com zero apoios que Ana avançou para o evento que pretende reunir os grandes nomes das áreas da cultura e do turismo em Portugal. “Digo isto sem me queixar. Mas deixo a questão: se a Web Summit — à qual não tiro mérito — tivesse sido ideia de um português, teria o apoio de 11 milhões de euros por ano? Tenho dúvidas”.

Mas não são essas dúvidas que a demovem de seguir e, com 40 mil euros, organizou um evento que, ao contrário do que é habitual, não se fica por Lisboa e Porto. “Como é que temos 23 milhões de turistas a entrar em Portugal e temos locais no interior sem oferta turística suficiente?”, questiona, na esperança de ver essa questão respondida com o networking que promove entre as empresas que vão marcar presença no RHI.

O evento é feito de espetáculos ao vivo, conferências e workshops sobre música, design, arquitetura, ciência, teatro, cinema, dança, literatura e educação. Em Lisboa, acontecem maioritariamente na Culturgest, no MAAT, no Teatro Municipal São Luiz, no Centro Cultural de Belém e na Fundação Oriente e têm como programadores Afonso Cruz, José Luís Peixoto, Marte de Menezes, Pedro Varela, Christophe Fonseca, Nuno Bernardo e John Gonçalves.

Vão estar presentes organizações como o Hot Clube de Portugal, o festival Tremor, a A Avó Veio Trabalhar e Portugal Manual e há concertos de Rita Redshoes ou performances como a “Desnavegar” que reúnem em palco o artista visual António Jorge Gonçalves, o pianista Filipe Raposo e o escritor Ondjaki.

Ana Miranda está curiosa para ver como é que um País “que tanto reclama no Facebook se vai comportar agora”, com todas as oportunidades. “Só não posso ir buscar pessoas a casa”, brinca.

A curadora acredita que esta semana especial vai servir de montra aos estrangeiros, mas que o trabalho tem que ser continuado. “E eu quero acreditar que vai ser feito”, garante.

Ainda que parte dos eventos sejam gratuitos, há talks a partir dos 10€ e workshops até 35€. Consulte aqui a programação.

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