O momento em que saímos do hospital e chegamos a casa com um recém-nascido é digno de emoções fortes. Embora a grande maioria das mães (e dos pais também) anseiem pelo momento em que deixam a maternidade para trás, para poderem finalmente levar o filho para o quarto que demoraram meses a preparar, é também verdade que a chegada a casa pode ser assustadora.

Por mais cursos de preparação para o parto que tenhamos feito, por mais informação que tenhamos recolhido das enfermeiras no hospital, há sempre questões por responder. E se as mães, irmãs e amigas com filhos podem ser bons recursos para nos esclarecer dúvidas, há quem nem sempre tenha este sistema de apoio — e não nos vamos esquecer das informações contraditórias.

Afinal, dá-se ou não banho ao bebé todos os dias? E limpar a zona da fralda, é com toalhitas ou com compressas? Os bebés podem beber água? E a roupa, com quantas camadas os devemos vestir?

Os bebés não necessitam, nem devem beber água

Para esclarecer estas e outras principais dúvidas no que diz respeito aos cuidados com os recém-nascidos, pedimos ajuda a Miguel Fragata Correia, pediatra no Hospital Dona Estefânia e no Hospital Lusíadas Lisboa, que desmitificou mitos e ofereceu seis conselhos vitais para ajudar nos primeiros meses da vida das crianças.

A água pode ser suficiente para limpar a zona da fralda — e as toalhitas um plano B

Sejamos honestos: principalmente nas primeiras semanas de vida de um bebé, a mudança de fraldas é uma constante, tanto que pode sentir que está a mudar fraldas de hora a hora. E a par com esta rotina, a limpeza desta zona tão sensível do corpo dos bebés é extremamente importante.

Com várias soluções disponíveis, Miguel Fragata Correia dá primazia às compressas com água. “O mais correto e menos irritante para a pele do bebé é limpar apenas com água, com o auxílio de uma compressa”, explica à MAGG.

O especialista refere ainda que as águas micelares podem ser usadas em “segundo plano, caso a água não seja suficiente para remover a sujidade, dado que estas formulações são desengordurantes e toleradas pela maioria das peles”. Já em relação às toalhitas, Miguel Correia afirma que devem ser usadas como “alternativas, apenas fora de casa”.

Para terminar a rotina de limpeza da zona da fralda, o pediatra explica que os cremes próprios para esta região do corpo não precisam de ser aplicados a cada muda, mas apenas quando a zona “se encontrar irritada, vermelha e seca”.

Os bebés não precisam, nem devem beber água

De acordo com o pediatra Miguel Correia, nenhum bebé precisa de beber água, sendo que este gesto pode ter sérias consequências na saúde das crianças e até conduzir a cenários de desidratação: “A água ocupa espaço no estômago, logo, se estamos a encher o estômago do bebé com algo que tem zero calorias, ao contrário do leite, estamos a encher sem dar energia, e as crianças podem perder peso”.

Tal como afirma o especialista, “a maioria dos bebés rejeita a água, felizmente”, e nem os dias de calor são exceção para oferecer algo mais do que leite.

Para além disso, Miguel Correia realça que o leite materno é alimento mais do que suficiente nos primeiros meses da vida das crianças e sacia fome e sede, mas mesmo um bebé alimentado a leite artificial não deve consumir água. “Antes dos 3 meses, nenhum bebé precisa de água. Se precisar, é muito estranho.”

Os banhos devem acontecer dia sim, dia não — mas há bebés que podem beneficiar com banhos diários

Ao contrário dos adultos, que deveriam tomar banho diariamente, os bebés não se sujam tanto nos primeiros meses de vida— tendo em conta que a zona da fralda, que se suja várias vezes ao dia, é constantemente limpa.

Mais: dado ao facto de a pele dos bebés ser extremamente sensível, e poder ficar desidratada e irritada com muita facilidade, Miguel Correia explica que “quanto menos agressões à pele [como o banho ou a aplicação de produtos] existirem, melhor. De uma forma global, diria que o ideal é dar banho ao bebé dia sim, dia não, o que equivale a cerca de três a quatro banhos por semana”.

No entanto, o pediatra refere que existem bebés “que se confortam imenso com o banho”, principalmente as crianças que sofrem muito com as cólicas. E se for esse o caso do seu bebé, “não há mal em dar banho diariamente”.

Produtos de limpeza: os menos possíveis, sem perfume e adequados a recém-nascidos

No que diz respeito a produtos de limpeza, a primeira regra que deve ter presente é que as formulações adequadas a crianças nem sempre o são para os recém-nascidos. “Os produtos de crianças não são produtos de bebé”, alerta Miguel Correia, reforçando que os pais devem ter sempre em atenção se os produtos que adquirem e usam no filho são específicos para os recém-nascidos, “bem como testados dermatologicamente e com pH neutro”.

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Para além disso, o especialista explica que estes mesmos produtos devem ser formulações sem perfume e que devem ser reduzidos ao máximo, para agredir o menos possível a pele dos bebés: “Um gel lavante e um creme hidratante para o corpo são suficientes nos primeiros tempos de vida, para além dos cremes da zona da fralda”.

Quanto à pele do rosto, ainda mais sensível do que a do resto do corpo, o pediatra salienta que nem sempre é preciso hidratar esta zona do corpo nos primeiros meses. “A maioria dos bebés não precisa de hidratar a cara. A precisar, devido ao surgimento de manchas ou irritações, é necessário contactar o profissional de saúde antes de avançar para a aplicação de qualquer produto”, refere o especialista.

Uma camada de roupa a mais do que os adultos é suficiente

Qualquer pai quer que o seu bebé esteja o mais confortável possível e, na impossibilidade destes já se expressarem, tentam adivinhar se as crianças estão com fome, com sono ou com frio. E este último ponto é justamente aquele em que a grande maioria dos pais exagera.

“Um dos maiores erros que os pais fazem é vestir demasiado os recém-nascidos”, alerta Miguel Correia, que chama a atenção para o sobreaquecimento dos bebés. “Muitas vezes, este excesso de aquecimento até é mal interpretado como febre, quando os bebés estão apenas com roupa a mais, e daí com uma temperatura corporal mais elevada”.

E como pode perceber se o bebé está suficientemente vestido? “Num ambiente controlado, dentro de casa, os recém-nascidos estão confortáveis com apenas mais uma camada de roupa do que os adultos”, explica o especialista, que também refere que os mais novos “aquecem e arrefecem rapidamente”, sendo assim preferível colocar mais roupa, se necessário, do que remover.

Hora de dormir: os bebés não precisam de mais do que um lençol

Por mais fofinhos que sejam, esqueça colocar peluches ou bonecos na cama dos bebés. Na hora de dormir, as camas dos recém-nascidos devem estar completamente desimpedidas, as almofadas não devem ser utilizadas, sendo apenas necessário tapar as crianças com um lençol ou, no limite, com uma manta, caso estejamos no inverno.

No entanto, o pediatra Miguel Correia alerta que a temperatura do quarto é que deve ser regulada, “mantendo-se entre os 24 e os 26 graus”, e os sacos de dormir não são para ser utilizados por bebés com menos de 6 meses de idade.

Os bebés devem dormir “deitados de barriga para cima ou de lado”, num colchão firme que pode beneficiar de uma ligeira elevação, “entre 15 a 20 graus, para ajudar nas secreções e facilitar um sono mais descansado” e devem ser posicionados aos pés da cama, e não no topo.