Foi em 1986 que o Burning Man nasceu. A ideia partiu de dois amigos: Larry Harvey e Jerry James queriam celebrar o solstício de verão e para isso improvisaram uma estátua de madeira, que, mais tarde, seria queimada. O momento, que teve lugar na Baker Beach, em São Francisco, só contou com 20 pessoas e foi sendo replicado nos anos seguintes, cumprindo sempre o mesmo ritual.

30 anos depois, o mega evento continua a queimar a estátua, mas ganhou contornos diferentes: acontece no Black Rock Desert, no estado americano do Nevada, e recebe mais de 50 mil participantes por ano. Pessoas nuas, corpos pintados, decorados com todo o tipo de acessório, barracas, instalações gigantes, o sol e o deserto são os elementos que compõem o imaginário desta experiência — que, há quem diga, é um evento pagão ou uma espécie de réplica do Woodstock. Nós preferimos pensar que faz parte do imaginário do “Mad Max”.

“Seja em Black Rock City ou em qualquer outro lugar do mundo, o Burning Man não foi construído para vocês, foi construído por vocês. O Burning Man não é um festival. O convite para participar é mais do que um convite para uma experiência incrível. Trata-se de criar essa experiência para vocês e para as pessoas ao vosso redor”, disse Marian Goodell, CEO do evento, num post do blogue do Burning Man, publicado em fevereiro.

As extravagâncias visuais continuam a ser regra obrigatória, mas algumas podem ter fugido dos princípios basilares que fizeram nascer este festival de contracultura, onde se promovem ideais como a inclusão e a expressão pessoal, o sentido de comunidade, de criatividade, seja através das roupas, das performances, de construções ou de outras demonstrações artísticas.

Influenciadora fingiu ter estado no Coachella. Veja o vídeo

Com um total de dez dias, a edição do Burning Man de 2019 terminou a 3 de setembro, tendo começado a 25 de agosto. O evento foi marcado por algumas polémicas: além de quase 60 pessoas terem sido detidas, um dos artistas convidados terá, alegadamente, tido sexo no palco — ainda que a polémica já tenha sido desmentida, mas já lá vamos. A isto soma-te presença de bilionários, influenciadoras digitais e várias modelos da Victoria’s Secret.

O sexo em palco

No centro da polémica sobre sexo em público, no palco, está o DJ e produtor australiano Flume, ou Harley Streten, e uma das suas fãs. O acontecimento tornou-se viral depois de a atriz Paige Elkington, supostamente a sua namorada, ter divulgado nos Stories do Instagram o incidente. Tudo começou com uma publicação em que se via um grupo de fãs a segurar um cartaz onde se lia “Flume come mesmo um **?”, acrescentando “lol esperem pela próxima história.”

O vídeo publicado depois mostrava, então, uma mulher na posição sexual comummente conhecida “de quatro”, em frente ao DJ australiano de 27 anos. Tudo apontava para que os dois estivessem a ter sexo.

Um dos poucos registos de Instagram de DJ Flume no Burning Man

Mas, de acordo com as explicações que surgiram na sequência das publicações se terem tornado virais em todo o mundo, a fã que segurava o cartaz, Amber Mercy, pronunciou-se, dizendo que nada de mal se tinha passado. “As pessoas estão a fingir que foi um ato sexual louco quando ele apenas colocou o rosto no traseiro dela”, disse ao “Daily Mail”.

Mercy esteve sempre junto do DJ e da outra mulher, avançado que as duas partes alinharam, em conjunto, na brincadeira. “Houve consentimento dela e ela estava com roupa interior vestida, portanto não era como se eles estivessem mesmo a ter sexo no palco. Foi só diversão no bom modo do Burning Man.”

DJ Flume ainda não se pronunciou. Mercy reforça os elogios ao artista. “Ele é um tipo incrível. Desejo-lhe o melhor e espero que isto não o afete negativamente. Isso ia deixar-me mesmo chateada.”

58 detenções e uma morte em 2019

Mais dramático do que o escândalo que envolve o DJ, foi a morte que aconteceu dentro do recinto. De acordo com o “Reno Gazzete Journal“, na quinta-feira, 29  de agosto, foi encontrado sem vida o neozelandês Shane Billigham, de 33 anos, dentro do carro no acampamento, com alta concentração de monóxido de carbono no sangue. Em 2017, outra pessoa morreu no Burning Man: chamava-se Aaron Joel Mitchell e perdeu a vida quando corria em direção ao grande muro de fogo.

O festival no deserto esteve também no centro de alguns crimes de natureza sexual ou posse de drogas, com 58 pessoas presas (de seis países e dez estados), incluindo uma por posse de arma de fogo — mais do que na edição de 2018, que contou com 43 detenções.

O tabloide inglês “The Mirror” recorda uma história de 2014, em que uma mulher, enfermeira, descreveu uma experiência de agressão sexual no festival.

Depois de aceder ao ritual obrigatório para todos os caloiros — o batizado com pó — montou a sua tenda, meteu a sua máscara de poeira e foi visitar o famoso Templo, um dos marcos do evento e um espaço de meditação. A enfermeira, cuja identidade não é revelada, descreveu esta experiência como “realmente poderosa.”

Na noite do segundo dia no festival, porém, deitou-se na sua tenda, instalada no deserto do Nevada, dormiu e acordou com um susto. Ao nascer do sol, sentiu alguém a entrar: “Senti alguém que se pôs atrás de mim, rasgou as minhas calças e senti um pénis duro”, cita o “The Mirror”.

“Então, ele mordeu o meu pescoço com muita força, tentando prender-me, tentando penetrar-me por trás.” A mulher conseguiu dizer ao homem para sair de cima dela e ele acabou por fugir.

A popularidade e o Instagram

Aquilo que pretendia ser um festival de contracultura acabou por ser tornar num mega evento. A popularidade cresceu e hoje, além dos que seguem uma filosofia mais hippie, há também bilionários, modelos da Victoria’s Secret e ainda influenciadores digitais que aqui encontram um cenário perfeito para alimentar a sua fama.

Poppy Delavigne, irmã de Cara Delavigne

No início deste ano, MarianGoodell, a CEO do festival, publicou uma texto no blogue do Burning Man, onde refletia sobre o caminho que o evento estava a levar. Criticou aqueles que usavam o Burning Man como cenário para a propagação de estilos de vida e para o aumento de popularidade no Instagram — o que inclui promoção a marcas ou product placement.

Além disso, falou ainda na discriminação que teve conhecimento existir, através de depoimentos ouvidos no simpósio, na Suíça, sobre a disseminação da cultura Burning Man.

Aqui ouviu a experiência de um artista reformado de 70 anos: “Estou dececionado com as atitudes dos veículos mutantes e dos carros de arte. Os seus guardiões são muito discriminatórios sobre quem deixam andar neles. Na verdade, disseram-me: ‘Não, é tarde demais para as pessoas idosas saírem’, ‘não és bonita o suficiente’ e ‘estamos apenas a aceitar miúdas giras agora’. Perguntei a outros membros do acampamento e ouvi histórias semelhantes. Um casal gay disse que, durante três anos, tinha tentado entrar num veículo tendo-lhe sido negado o acesso, todas as vezes.”

“O Burning Man esforça-se para contrastar tecnicamente com o mundo consumista típico, baseado no status, saturado com as marcas e otimizado para a sua conveniência”, disse a organização. “Criamos Black Rock City todos os anos porque acreditamos que é importante ter um tipo de experiência totalmente diferente — baseado no que cada um tem para contribuir — para dizer, criar, fazer e compartilhar”, disse a CEO.

Porém, não a mensagem não terá mudado muita coisa. Além de um serviço de glamping de luxo que acomodava pessoas, com valores até às 40 mil libras (cerca de 44 mil euros) — o que vai contra os ideais do evento, que pretende promover a criação e a fuga ao mundo capitalista —, foram várias as estrelas que passaram pelo evento para fazer exatamente aquilo que Marian desaprovava.

Kelly Gale, modelo da Victoria's Secret também participou no Burning Man

Paris Hilton marcou presença, com o bilionário Ray Danilo. Pauline Ducruet, da realeza do Mónaco e neta de Grace Kelly, também. Kelly Gale, modelo da marca de lingerie Victoria’s Secret também participou no Burning Man, surgindo no Instagram em cima de uma bicicleta.

Diplo, DJ norte-americano chamado Thomas Weley Pentz, também foi uma das celebridades a marcar presença no festival do Nevada, assim como as irmãs Cara e Poppy Delevigne.

No entanto, ainda no extenso texto publicado no blogue, a CEO ressalva. “Não me interpretem mal, há muitas pessoas que estão a fazer as coisas bem. Existem dezenas de milhares de indivíduos generosos, atenciosos e criativos que investem tempo e esforço significativos para criar uma experiência extraordinariamente envolvente que está além de qualquer coisa neste planeta. Mas algumas pessoas simplesmente não estão entendendo o que é a cultura Burning Man, e todos somos responsáveis ​​por mudar isso.”