Jair Bolsonaro diz que é “normal” e que “faz parte do jogo”. Até pode ser, mas as consequências já são bem reais. O mundo está a reagir aos incêndios na Amazónia de forma ativa e aquilo que o presidente brasileiro considera “normal” reflete-se em campanhas, manifestações e protestos em todo o mundo. Em Portugal, por exemplo, já há até quem se recuse a comprar picanha que tenha como origem o Brasil.

Segundo avança o semanário “Expresso”, há comerciantes de carne a trocar a carne brasileira por alternativas do Uruguai ou Argentina em protesto contra a devastação causada pelos fogos na floresta amazónica. Citando a Associação dos Comerciantes de Carnes do Concelho de Lisboa e Outros (ACCCLO), há já vários estabelecimentos comerciais a boicotar a picanha, a maminha e o lombo de novilho brasileiros, até porque “ao balcão dos talhos e à mesa dos restaurantes há cada vez mais clientes a questionar a proveniência da carne”.

Mas Portugal não é caso único e no Dia da Amazónia, que se assinala a 5 de setembro, damos uma volta ao mundo para perceber como é que os países estão a reagir a uma das maiores catástrofes naturais dos últimos tempos. Na Suécia, os consumidores têm usado as redes sociais para exprimir o desagrado face aos supermercados que continuam a vender produtos brasileiros, nomeadamente carne bovina, café e frutas como mamão, manga, melancia e melão. A Ica, uma das maiores cadeias de supermercados do país, garante que a carne bovina à venda nas suas lojas, assim como o café brasileiro, não provém da região amazónica. Mesmo assim, não põe de lado a ideia de boicotar na totalidade a venda de produtos com origem no Brasil, ainda que admita que essa iniciativa deve partir primeiro do governo sueco.

Também a Nestlé está a reavaliar as compras de carne e cacau de fornecedores brasileiros. A empresa quer ter certeza de que os produtos que importa do Brasil não contribuem para a destruição da Amazónia e garante que vai avançar com “ações corretivas” se algum dos seus fornecedores violar os padrões ambientais.

A Amazónia arde, São Paulo fica às escuras e a água da chuva é preta

Esta revolta mundial foi instigada assim que a Greenpeace avançou, com base em dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), que 6.047 focos de incêndio de 20 de agosto estavam localizados em áreas utilizadas para agricultura e pecuária.

Mas esta recusa em compactuar com as políticas de Bolsonaro — que duvidou até da autenticidade da ajuda internacional no combate aos fogos — chega a outros setores, como é o caso do têxtil. A VF Corporation, dona de 18 marcas, incluindo Timberland, Kipling, The North Face e Vans, anunciou que não compraria mais couro brasileiro e informou que só retoma a compra quando “tiver a confiança e a garantia de que os materiais utilizados nos produtos não contribuem para os danos ambientais no país”.

Esta decisão justifica-se pelo facto de vários ambientalistas garantirem que os incêndios foram causados ​​por especuladores e fazendeiros imobiliários, que têm como prática comum desmatar terras para uso agrícola. Um relatório divulgado em julho aponta que a JBS SA, a maior produtora de carne e couro do mundo, estava a comprar gado a fazendeiros que operavam em terras que o governo disse que não deveriam ser usadas para pastagem.

Mas o mais grave acontece quando esse boicote atinge de forma direta o setor financeiro. O Nordea, o maior banco dos países nórdicos, decidiu suspender as compras de títulos do governo brasileiro, devido a preocupação com as respostas do Jair Bolsonaro dadas até agora aos incêndios na Amazónia. A instituição financeira sediada na Finlândia informou que adotou uma “quarentena temporária” para a compra de títulos brasileiros.