A segunda temporada da série “Mindhunter” chegou a 16 de agosto à Netflix, e apesar de muito elogiada pelo público e pela crítica — no IMDb tem uma pontuação de 8,6 em 10 — está a gerar controvérsia em Atlanta. Se os episódios da primeira temporada andaram à volta de entrevistas a serial killers para criar um perfil sobre estas pessoas, a segunda continua este trabalho mas acompanha exaustivamente o autor dos homicídios que ocorreram em Atlanta. Entre 1979 e 1981, 30 pessoas, maioritariamente crianças, foram assassinadas.

Wayne Williams foi considerado culpado pelos crimes que aconteceram na cidade americana do estado da Geórgia. A história é verídica: na vida real, Williams, um fotógrafo freelancer de 23 anos, cobriu algumas cenas do crime antes de ser preso, de acordo com o jornal “The Atlanta Journal-Constitution“. O jovem negou sempre ter cometido os homicídios, no entanto acabou por ser considerado culpado. Ainda hoje, a polícia acredita que Wayne esteve envolvido em pelo menos 23 mortes. Contudo, em 1982 foi condenado apenas pela morte de Cater e de Jimmy Ray Payne, de 21 anos. Foram os últimos jovens afro-americanos encontrados sem vida, de acordo com o jornal norte-americano.

Este ano, 29 casos de Atlanta foram reabertos. A justificação não está no impacto da série da Netflix, mas sim no facto de Wayne Williams continuar a garantir que é inocente.

Sheila Balthazar perdeu o enteado Patrick nesta onda de homicídios. O jovem tinha apenas 12 anos e desapareceu perto de uma cabine telefónica pública onde estava com um amigo a 6 de fevereiro de 1981. Uma semana mais tarde, a polícia encontrou o corpo de Patrick estrangulado. Sheila e o marido assistiram à remoção do cadáver da floresta através da televisão. “Foi devastador. Nunca senti nada assim na minha vida”, conta à revista “Women’s Health“.

“Eles apenas continuaram a encontrar corpos”, recorda, salientando de seguida: “Podia ser o filho de qualquer pessoa”.

Crinaças desaparecidas e assassinadas em Atlanta. O enteado de Sheila Balthazar está referenciado com a letra F

Bettmann/GettyImages

Sheila sente-se na obrigação de continuar a falar sobre o caso, que foi relembrado através da série. Ver o trailer de “Mindhunter”, diz à revista, foi reviver o momento mais doloroso da sua vida. Ainda que admita que a série captou o verdadeiro terror do caso, falhou ao não falar com os familiares das vítimas. Balthazar gostaria que os criadores da série — bem como os autores de artigos recentes e de podcasts sobre o episódio que assombrou Atlanta — falassem com as famílias que passaram por aquele momento. Teria sido melhor do que, inesperadamente, verem a sua história na televisão.

Os 4 casos reais que inspiraram a nova temporada de “Mindhunter”

“Passaram-se 40 anos e ainda se estão a aproveitar de nós enquanto pais”, disse Balthazar. É por isso que, garante, considera que as famílias deviam ser compensadas pela Netflix. “O mundo precisa de saber o que aconteceu”, refere Sheila, acrescentando que “quando tudo se resume a isso, nunca poderei dizer o suficiente”.

A “Women’s Health” contactou a plataforma de streaming para comentar as palavras de Sheila, no entanto não obteve resposta.