No primeiro dia do desafio, Rute Caldeira mostra a realidade. Publica imagens dos rios poluídos do Bangladesh — país de onde vem grande parte do fast fashion — faz Stories com números sobre os microplásticos que todos os dias acabam nos oceanos a cada lavagem de roupa e alerta: “Cabe-nos a nós tirar a venda dos olhos e constatar em que situação está a mãe natureza”.

A autora dos livros “O Poder da Meditação” e “Simplifica a tua Vida” não é conhecida por escrever sobre temas como moda ou mercado do têxtil. Mas a verdade é que foi esse o tema que escolheu para dar um arranque ao projeto Dois meses sem desperdício, para o qual reuniu dez mulheres para falarem do que pode ser feito nas mais diversas áreas para tornar o planeta mais verde.

Ainda que Rute tenha uma consciência ambiental apurada há muitos anos, o verdadeiro clique deu-se com o que aconteceu na Amazónia. “É aterrador. Mas, ao mesmo tempo, senti que não havia uma conexão emocional com as imagens que circulavam nas redes sociais e na televisão”, refere à MAGG. Culpa a distância entre o Brasil e Portugal, mas também a memória curta da maioria. “Durante três dias não se falava de outra coisa, no entanto, na semana seguinte já ninguém se lembrava da Amazónia”, garante.

Mas Rute lembrava-se e todas essas memórias fizeram com que pesquisasse e lesse ainda mais sobre o impacto da desflorestação, mas também sobre todas as áreas que têm um efeito direto no futuro do planeta. “Decidi que tinha que agir quando fui à FNAC e vi um livro cujo título era ‘A nossa casa está a arder‘, frase que eu tinha já usado para exprimir a minha indignação”.

Comprou o livro e contactou individualmente uma série de mulheres cujo trabalho há muito admirava, todas ligadas à sustentabilidade. “A ideia é aproveitar esta ideia de influenciador para influenciar realmente, e pela positiva”, explica à MAGG. E a verdade é que recebeu um sim imediato de Joana Limão, Eunice Maia, Filipa Maló Franco, Catarina Pinto, Joana Couto, Violeta Lapa, Lisa Joanes, Sofia Mano e Inês Gaya.

A Amazónia arde, São Paulo fica às escuras e a água da chuva é preta

Estas dez mulheres vão, durante dois meses, partilhar no Instagram informação, dicas e soluções com tudo o que tenha que ver com evitar o desperdício. E porquê dois meses? “Porque demoramos 21 dias a mudar um hábito e 60 dias até que fique realmente enraizado”, salienta Rute Caldeira. E para não perder nada do que é dito, o melhor mesmo é seguir a hashtag #2msemdesperdicio.

Cada uma tem seis dias para falar sobre o seu tema, mas o desafio é sempre conjunto. “Eu vou falar sobre a indústria têxtil e, durante esse período, a ideia é que as outras mulheres partilhem aquilo que mudaram no seu guarda roupa ou na sua forma de consumir”. E a verdade é que se for ao perfil de Filipa Maló Franco, a autora do blogue e do livro “Terra Maya“, ela sugere que passe a comprar mais em segunda mão e Inês Gaya, psicóloga e terapeuta de mulheres, conta que selecionou a sua roupa de maneira a ficar apenas com aquilo que usa, tendo doado a outras mulheres tudo o que não precisava. Já Joana Limão, publica uma fotografia, na qual veste uma túnica de algodão orgânico tingido à mão como exemplo de uma peça mais sustentável do que aquelas vendidas em lojas de fast fashion.

Quando chegar a sua semana, a chef, stylist e fundadora da plataforma Please Consider tem como missão dar ideias práticas para uma cozinha saudável e amiga do planeta. E, à MAGG, Joana deixa uma ideia: “Se quero fazer torradas não preciso de comprar uma torradeira. Fazê-las no forno não é muito sustentável, mas usar uma frigideira é uma ótima opção”.