Sabemos que gelo da Gronelândia está a derreter, que a água que consumimos tem plástico e que a indústria pecuária tem elevadas emissões de gases com efeitos de estufa. Para fazer face às alterações climáticas, há dois conceitos cada vez mais conhecidos — e que talvez já quase saiba de cor o que significam. O vegetarianismo anda à volta da alimentação de base vegetal (exclui carne e peixe e derivados de origem animal) e o veganismo acrescenta à equação a exclusão de todo o tipo de práticas que envolvam a exploração animal — como o uso de roupa de lã ou de produtos testados em animais.

Mas agora há um novo conceito: ser climatarian. De acordo com o dicionário britânico de Cambridge, define-se como alguém que “ajuda a salvar o planeta através das escolhas alimentares. Tipicamente os climatarians cortam na carne e outros alimentos com uma elevada pegada de carbono.” O conceito apareceu pela primeira vez em 2009, mas só em 2015 é que apareceu no Top das novas palavras de comida do jornal norte-americano “The New York Times“. Com a importância cada vez maior das práticas sustentáveis, volta a dar que falar agora.

Aquilo que distingue um climatarian de um vegetariano ou vegan é que não se limita a olhar para o que come, mas tenta entender qual a sua origem e impacto no meio ambiente. “Consumir apenas frutas, legumes e vegetais não garante o respeito pelo meio ambiente, se cada gomo de tangerina que se come estiver envolvido em plástico”, refere o jornal “El País Brasil“.

Ao contrário dos vegan, os climatarians até podem comer carne — preferencialmente a carne de porco, já que poluem cerca de cinco vezes menos do que a carne de vaca ou de frango — mas a diferença está no equilíbrio. “Não se trata de parar de comer carne, apenas de comer menos”, referiu Shay Eliaz, chefe do programa “O Futuro da Comida”, na consultoria Deloitte, numa conferência realizada em Málaga em junho. A redução do consumo é uma forma de travar a produção da pecuária, responsável por 14,5% dos gases com efeito de estufa.

#SetembroSemCarnePt. Há um movimento para o ajudar a deixar de comer carne (pelo menos durante 1 mês)

No fundo o que interessa a um climatarian é saber a viagem que os alimentos fizeram para chegar aos mercados e supermercados locais (devido à emissão de gases do efeito estufa no transporte), reduzir o consumo de carne e de peixe, mas garantir que, quando são consumidos, provêm de criações mais sustentáveis e com menos exploração animal. Também é importante escolher alimentos sazonais e produzidos de forma responsável e utilizar todas as partes dos alimentos. A casca da banana, por exemplo, é rica em nutrientes e pode ser usada para fazer chá ou mesmo um bolo.

Depois de perceber por que princípio se rege um climatarian, resta perceber como funciona uma ida às compras: “É preciso assumir que a vida dá trabalho. E que as coisas básicas como a nutrição e o descanso também exigem esforço. Isso transmite-nos valor em relação ao que consumimos e à ação de consumir”, explica a cineasta Xiana do Teixeiro ao jornal brasileiro.

Apesar de não haver um corredor de produtos sustentáveis no supermercado, não é assim tão complicado escolher os produtos certos. Antes de comprar, um climatarian pensa se precisa mesmo de uma manga que vem do Brasil ou de fazer um sumo de laranja quando não é a época delas. Em vez destes alimentos, opta por comprar os legumes da época para compor a sopa, como a abóbora e o courgette. “A questão-chave está no consumismo”, refere Julia Wärnberg, professora da Universidade de Málaga. 

Outro processo das compras passa por comprar produtos de marcas que incentivem a reutilização de embalagens ou fazer compras a granel de forma a evitar os plásticos descartáveis. Todas estas medidas adotadas pelos climatarians podem ajudar a converter a forma de vida para a qual a sociedade de consumo caminha: “A cozinha do século XX não vai existir na segunda metade do século XXI. Os pratos serão reaquecidos e só se cozinhará por hobby”, referiu Juan Roig, presidente da cadeia de supermercados Mercadona.