Há pessoas que só precisam de dormir 6 horas por noite

Uma mutação genética faz com que algumas pessoas descansem o suficiente em menos tempo. Um médico explica à MAGG porquê.

Há pessoas que sentem efeitos físicos e psicológicos quando dormem menos de 8 horas

Sempre ouvimos dizer que temos de dormir pelo menos oito horas por dia para termos um sono realmente descansado e conseguirmos ser mais produtivos no dia seguinte. Mas, de acordo com um estudo realizado pela Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos, e publicado a 28 de agosto no jornal “Neuron”, isso não se aplica a todas as pessoas.

As oito horas de sono continuam a ser a média de que a maioria das pessoas necessita para descansar — e muitos sentem diferentes efeitos quando dormem menos do que é suposto.

“Sabe-se que o sono é importante para um restabelecimento do ponto de vista cerebral, com alta importância na nossa sobrevivência, qualidade de vida e até profissional. A falta de sono pode levar à diminuição do desempenho no trabalho, fazendo com que se gaste mais tempo na execução de tarefas e conduzindo até a decisões erradas”, explica Vítor Fonseca, coordenador da unidade de pneumologia do Hospital de Cascais, à MAGG. “Pode também estar associado a um maior absentismo laboral, com impacto económico. Muitos investigadores defendem que não dormir bem, pelo menos 7 ou 8 horas por noite, pode levar a uma morte prematura ou a patologias como Alzheimer, cancro, diabetes, depressão, e um maior risco cardiovascular”.

Mas também há pessoas para quem seis horas de sono são mais do que suficientes para se sentirem bem. Isto pode dever-se a um gene que algumas pessoas têm, que os acorda quando já dormiram o tempo necessário. Uma mutação do gene ADRB1 pode fazer com que haja um aumento da atividade cerebral, o que faz com que a pessoa acorde.

“O gene ADRB1 é um gene que todos os seres humanos possuem, sendo este responsável pela codificação de recetores cardíacos responsáveis pela nossa frequência cardíaca, chamados beta-adrenérgicos. Investigadores descobriram, em famílias com um elevado número de indivíduos que dormiam poucas horas, mas com um sono reparador, que possuíam uma mutação deste gene ADRB1 e que estes dormiam menos duas horas do que a médias das pessoas”, explica.

Os cientistas responsáveis por este estudo descobriram mais de 50 famílias que precisavam de menos de seis horas de sono por dia para ficarem bem. Com base numa destas famílias, estudaram a fundo este gene que permite que as pessoas fiquem acordadas mais tempo. Nesse caso específico, todos os que não precisavam de muitas horas de sono partilhavam dessa mutação genética, enquanto que os que gostavam mais de dormir não a tinham.

Ainda que seja genético, a família não tem toda que ter obrigatoriamente esta mutação do gene ADRB1, visto que “basta que um dos progenitores tenha para que haja uma possibilidade de herança do mesmo. Contudo, basta que um dos progenitores não tenha o gene para haver uma probabilidade de não haver uma transmissão do mesmo”, afirma.

Quanto à melhor altura para se dormir estas seis ou oito horas, Vitor Fonseca explica que tem tudo que ver com a exposição solar. “O ser humano evoluiu e está altamente adaptado ao planeta Terra e à exposição solar, e o nosso metabolismo e ritmo circadiano estão programados para serem ativados sob os primeiros raios de sol, com o reverso quando esta exposição termina. Preferencialmente este período maior de sono deverá ser de noite. Profissionais com turnos noturnos e rotativos estão mais expostos ao desenvolvimento de doenças do foro cardiovascular, cancro e diabetes.”

Vitor Fonseca explica que dormir menos horas pode estar associado a uma série de doenças

Durante o estudo, o mesmo teste foi feito em ratos. Os cientistas concluíram que os animais com esse gene dormiam menos 55 minutos do que os outros.

“É impressionante que saibamos tão pouco sobre o sono, tendo em conta que a maioria das pessoas passa um terço da sua vida a dormir. Este estudo é uma fronteira interessante que nos permite perceber a complexidade dos circuitos cerebrais e os diferentes tipos de neurónios que contribuem para o sono ou para o estar acordado”, explicou Louis Ptáček, professor do departamento de neurologia da Universidade da Califórnia, ao “Daily Mail“.

A descoberta de um gene que mantém as pessoas acordadas pode ajudar à criação de novos medicamentos para ajudar as pessoas a dormir.

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