Sabem aquela funcionalidade do Instagram que acrescenta a hora exata em que é publicado o Storie? O primeiro que Grace Kelly Sá publica todos os dias marca sempre as 4h45. Podem confirmar, não falha.

Nunca foi de dormir até muito tarde, mas foi com a gravidez, há oito anos, que começou a deixar de ter prazer em estar na cama até tarde. “Aproveitei esses meses e a privação de sono quando a minha filha nasceu para mudar os meus hábitos”, conta à MAGG. Desde aí que faz questão de acordar antes do sol nascer. “É um período mágico e de muita energia”, garante.

Convém esclarecer que Grace, de 36 anos, é professora de ioga e autora do livro “Alma Feliz“, no qual fala sobre a tríade que compõe a sua essência: ioga, alimentação vegan e espiritualidade.

Recorrendo à medicina ayurveda, ciência milenar criada na Índia há pelo menos cinco mil anos, Grace explica que este é um período Vata— um dos três doshas ou perfis biológicos que ajudam a descrever o indivíduo — e, por isso, propício à prática de ioga.

Pedimos ajuda a Mariana Alves, terapeuta de ayurveda, para perceber melhor a dinâmica que acontece a esta hora. “O Vata está mais ligado ao ar e ao éter, o que significa que à hora Vata — durante a madrugada —, a atmosfera tem mais energia, o que promove mais flexibilidade, movimento e entusiasmo”. Daí o ioga e a meditação.

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“É a esta hora que há silêncio e calma, o que causa um efeito direto no corpo e na mente. Ao estarmos em sintonia com o nascer e o pôr do sol é a melhor forma de reverter também o processo de envelhecimento. Se olharmos à nossa volta e analisarmos a natureza e como ela se desenvolve, conseguimos determinar que a mesma funciona de acordo com o sol”, refere a especialista.

Grace é prova disso, uma vez que ainda o céu está negro e ela já fez ioga ou foi correr, meditou, sendo que volta a casa ainda a tempo de acordar o marido e a filha que, ainda que alinhem nestes hábitos, não os levam tão à risca. “Mas deitamo-nos todos cedo. O mais tardar 21h15 estamos todos na cama”, esclarece.

Para isso, jantam algo leve por volta das 19 horas, de maneira a não irem para a cama com o estômago cheio, e desligam tudo o que sejam estímulos. “Nem ligamos a televisão à noite e o telemóvel fica no hall de entrada”, explica.

Há exceções, claro, mas são raras. “Na passagem de ano espero pela meia-noite, como é óbvio, mas lá para as duas horas já estou a dormir”, conta, lembrando ainda que, ainda que ponha sempre despertador, acorda sempre naturalmente uns minutos antes.

O mesmo acontece a Alexandra Scorvo, de 47 anos, que, ainda que se deite por volta das 23 horas, acorda antes do sol nascer há mais de 15 anos. Neste caso não tem que ver com energia ou ioga, mas sim com ritmos de sono. “Nunca fui muito de dormir e desde que há uns anos tive um cancro de mama, fiquei com muita vontade de viver e de aproveitar tudo ao máximo. Para mim, dormir é um desperdício”, garante.

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Mas não é. Segundo Joaquim Moita, presidente da Associação Portuguesa do Sono, há que respeitar as oito horas de sono e só quem tem uma variante genética muito rara é que consegue ser produtivo com poucas horas de sono e sem repercussões para a saúde. “É o caso do Presidente da República. Ainda que eu ache, tendo em conta o que já li sobre Marcelo Rebelo de Sousa, que as poucas horas de sono foram treinadas ainda nos tempos do ‘Expresso’, em que tinha que ficar à espera que as páginas entrassem na gráfica”, refere.

Fora essas raras exceções, todos precisamos de oito horas por noite, que não têm que seguir esta regra do deitar muito cedo e muito cedo erguer. “Chega perfeitamente ir para a cama entre as 23 horas e a meia-noite e acordar entre as 7 e as 8 horas”, esclarece, até porque a melatonina [hormona que induz o sono] não começa a ser libertada antes das 21 horas. “O corpo precisa de escuridão para começar a desligar e é por isso que eu defendo que Portugal devia ter sempre a hora de inverno”.

E o mesmo argumento serve para as manhãs. “As crianças precisam de exposição solar para começarem a funcionar. Pelo menos 15 minutos antes de irem para a escola. E isso, no inverno, é impossível. Menos ainda se acordarem muito cedo”, refere o especialista e também diretor do Centro de Medicina do Sono do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra.

Mas Alexandra usa a sua experiência como exemplo de que acordar ainda de noite tem vantagens. “Como ainda toda a gente dorme, aquele é o meu momento”. A professora de inglês aproveita esse tempo para tomar café, atualizar as redes sociais e ainda pedala numa bicicleta fixa em casa antes de ir para o ginásio, cujo horário de abertura não respeita o seu. “Volto para casa às 8 horas, preparo pequeno-almoço e quando os meus filhos e o meu marido acordam, já está tudo pronto”, explica.

Quando se fala em praticar desporto a esta hora especial, o médico Joaquim Moita, é ainda mais rápido a encontrar desvantagens. “O cortisol [hormona que ajuda o organismo a controlar o stresse, a reduzir inflamações e a manter os níveis de açúcar no sangue], está no pico por volta das 6 horas. Se treinamos de forma intensa a essa hora, esses níveis vão aumentar ainda mais, o que pode levar a arritmias e até enfartes”, explica.

Mas tanto Grace como Alexandra já experimentaram treinar mais tarde, e a energia não é a mesma. Talvez sejam elas parte da mínima percentagem de pessoas — cerca de 2%, segundo Joaquim Moita — conhecidas como cotovias, cujo biotipo as faz ter um ritmo de sono diferente, ao deitar e acordar mais cedo — ainda que Alexandra não cumpra as oito horas de sono, servindo como exemplo da maioria. “Diria que 95% dos portugueses não dorme o suficiente”, conclui o médico.