Em 2018, o ator Ricardo Castro surgiu irreconhecível na capa da edição portuguesa da revista “Men’s Health”. A transformação foi radical: tinha perdido 52 quilos dos 123 que pesava, com um ganho de massa muscular de 6,4 quilos. O processo levou um ano e meio, tempo em que se empenhou em treinos intensos e acompanhamento nutricional. Hoje, continua em forma e grande adepto deste modo de vida saudável.

Esta sexta-feira, 30 de agosto, o ator, à frente do projeto “Paleo do Castro“, fez uma publicação no Facebook para apoiar o ator Ângelo Rodrigues, que está internado em estado grave, e em coma induzido, após quatro cirurgias e hemodiálise. Em causa, estarão alegadas injeções de testosterona, que levaram a uma infeção grande.

O Culto do corpo e a moral. Os últimos dias têm sido tensos, em seco comecei a pensar as vezes em que acreditei e bebi…

Posted by Ricardo Castro on Thursday, August 29, 2019

“Mesmo as pessoas mais informadas caem nestas situações. Fico triste porque há pouca tolerância”

Hoje Ricardo Castro mantém os hábitos saudáveis que o ajudaram no processo que levou à sua perda de peso. “O ginásio e o exercício físico libertam-me. É uma questão de espiritualidade. Ajuda-me, protege-me, faz-me bem. Durante 38 anos, não tive essa lucidez”, diz à MAGG.

Mas também assume, tal como no post que escreveu, que nem sempre foi assim. Apesar de garantir que nunca recorreu a substâncias como anabolizantes esteroides, conta que já fez uso de soluções que prometiam resultados milagrosos, ainda nos tempos em que pesava mais de 100 quilos. Soluções essas a que muitas outras pessoas recorreram, garante, apesar da sua origem, composição e consequências serem duvidosas.

O ator perdeu mais de 50 quilos, numa transformação para fazer capa da "Men's Health", num ano e meio

“Eu para emagrecer fiz tudo”, conta. “Fiz muitas asneiras até descobrir que a única forma de atingirmos resultados sólidos e seguros é a trabalhar muito, sem atalhos. É com crescimento interior.”

Já tomou xenical, um medicamento que contém uma substância ativa, o Orlistate, utilizado frequentemente para o tratamento da obesidade. E não foi pela via convencional. “Não podia comprar, porque é preciso receita médica e não me iam vender. Então arranjei uma amiga médica — como toda a gente, alguma dia, já fez — e tomei uma caixa daquilo”, lembra. “Mexia-me com a barriga, andava sempre enjoado.”

Além disso, também bebeu seiva, porque também se dizia que era uma espécie de antídoto mágico para o emagrecimento — acabando por não o ser. A isto, juntam-se comprimidos manipulados, criados à medida por um médico de uma clínica e constituídos por vários compostos.

“Uma vez tomei uns comprimidos manipulados e andava meio drogado. Não tinha vontade de comer, de andar, andava sempre calmo. Depois vi que tinha ansióliticos, e uma quantidade de coisas que mudam o comportamento.”

A capa de Ricardo Castro na "Men's Health"

Ricardo Castro confessa-nos tudo isto para chegar a um ponto: “Mesmo as pessoas mais informadas caem nestas situações. Fico triste porque há pouca tolerância e porque andamos a crucificar pessoas publicamente.”

Horrorizado com os comentários que leu nas redes sociais sobre o estado de saúde do ator de 31 anos — de quem não é amigo próximo, mas que descreve como “uma pessoa educada e extremamente correta” —, lembra: “Todos nós, e acredito profundamente nisto, já pisámos o risco. Não podemos criticar assim. Temos é de debater: o que é que se anda a passar?”, questiona.

Dos anabolizantes aos suplementos. Quais são os maiores disparates do mundo fit?

As pressões sociais são enormes e, por isso, “os excessos estão em todo o lado.” Dá vários exemplos: as pessoas que tomam ansiolíticos e conduzem, os estudantes que consomem substâncias para estarem mais focados, os profissionais com carreiras exigentes que, para se manterem acordados, vão pelo mesmo caminho.

“Quando há a pressão da sociedade para se estar sempre bem, é fácil, muito fácil cair nestas situações”, diz. “As pessoas não têm noção das mezinhas a que as pessoas se sujeitam para sobreviver ou responder à pressão.”

“Não vamos culpar os profissionais do desporto”

Para o ator, o problema do culto do corpo está muito para lá das salas de ginásio. A responsabilidade começa em quem vai lá: “Têm de ter noção que num mês não se perdem 20 quilos. O organismo não aguenta a violência de, de repente, haver muitos mais quilos de massa muscular”, diz. “Não posso culpar os ginásios. Muitas vezes são os outros. Há sempre alguém com uma novidade. E toda a gente acredita.”

Ainda assim, sabendo o que é o desespero de querer chegar ao corpo idolatrado o mais rápido possível, e com menos esforço, refere que o grande inimigo desta reação é o próprio mercado, de onde saem soluções perigosas e de acesso demasiado fácil.

“Nas redes sociais é um bombardear de sites da Roménia, de países com um servidor não sei de onde, de esquemas, e isso é que é preocupante. Há muita medicação no mercado que devia ser revista, porque faz mal”, considera.

A suplementação é outro ponto importante: “Mesmo com a suplementação, até a mais legal, tem de ser feita com aconselhamento de nutricionistas. Há pessoas que se põem a consumir e depois nem leem a descrição. Não viram que tinham de beber obrigatoriamente dois litros de água por dia e ficam com os rins e fígado todos destruídos.”

Na opinião do ator, deve debater-se o assunto, de forma tolerante, com o objetivo de perceber porque e como é que isto acontece e existe. “Anda toda a gente calada e a sentir o mesmo”, diz. “Porque isto são coisas que se vão permitindo. Que nós, todos nós, fazemos e permitimos.”