Várias mulheres já passaram por períodos em que a menstruação decide não aparecer no dia exato que marca no calendário ou na aplicação do telemóvel. Normalmente o que acontece é que simplesmente tardou em surgir, noutros casos a mulher vem a descobrir que está grávida. Só que às vezes o cenário pode ser mais complicado. Passam-se semanas, meses e até anos. Esta ausência de menstruação é sinal de que algo não está bem e tem um nome que muitas mulheres desconhecem: amenorreia.

Como é que a amenorreia influenciava as mulheres no Holocauso

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A menstruação durante o período do Holocausto podia até ser um tema tabu, mas influenciava a vida de várias mulheres. Prova disso é um estudo de Hermann Stieve, que revela a forma como o stresse que se vivia em Auschwitz influenciou o funcionamento do sistema reprodutivo feminino. A ausência de menstruação nesta época — amenorreia — decorria da desnutrição, do choque e do stresse que viviam pelo facto de poderem morrer sem chegarem a ter filhos.

O “History Today” faz referência a um argumento de Hannah Arendt, que indica que a menstruação podia ser ainda uma razão de união entre as prisioneiras dos campos de concentração. Isto porque as mulheres mais velhas ajudavam as adolescentes que tinha a sua primeira menstruação (menarca), já que não podiam contar com o apoio da família, muitas vezes já morta.

Ainda que a menstruação salvasse muitas mulheres da violação, uma vez que os homens repudiavam o sangue, nem sempre era desejada, possivelmente por razões de higiene. “Prefiro morrer do que ter sangue a escorrer pelas pernas”, desabafou na altura uma mulher vítima do Holocausto.

O problema, com variadas causas, existe há vários anos, havendo até relatos de amenorreia na altura do Holocausto, escreve a revista “History Today“. Nesta época, as mulheres dos campos de concentração estavam sujeitas a elevados níveis de stresse, o que aumentava a probabilidade de deixarem de ter menstruação. Hoje em dia a realidade é diferente, mas o problema ainda existe. As causas é que são diferentes.

“Com o aumento da prevalência de distúrbios alimentares, também os casos de amenorreia hipotalamica funcional (uma das causas de amenorreia) aumentaram”, explica à MAGG Margarida Santos, médica de medicina geral e familiar e mestre em nutrição clínica. “Adicionalmente, acho que os profissionais de saúde estão também mais sensibilizados para o assunto, aumentando assim a quantidade de diagnósticos feitos.”

Mariana Rocha, mais conhecida como Miss Fit, percebeu que algo não estava bem quando deixou de tomar a pílula e a menstruação não voltou de forma normal. Aguardou vários meses para que a situação regularizasse, mas isso não aconteceu. Foi então que consultou a médica de família e a ginecologista. Mariana é conhecida nas redes sociais por um estilo de vida que alia a alimentação saudável ao exercício físico. Como admite à MAGG, não esperava aquilo que estava a acontecer.

“Era uma amenorreia provocada pelo meu estilo de vida, que, até à data, sempre considerei ser o mais saudável”.

Depois de fazer exames hormonais, o diagnóstico foi “simples”: “Excesso de treino, baixa percentagem de massa gorda, falta de descanso e de horas de sono. Nessa altura estava com aproximadamente 13% de massa gorda, sendo que o ideal em mulheres saudáveis ronda os 20%. Treinava quase sempre duas vezes por dia e eram raros os dias em que dormia mais do 6 horas por noite.”

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Mas esta é apenas uma das causas que podem levar à amenorreia. Antes de chegar às restantes, é preciso esclarecer o que é a amenorreia. Quatro especialistas explicam-nos o que é este problema e como resolvê-lo.

O que é a amenorreia?

De forma simples, é um sintoma que consiste na ausência de menstruação durante mais de seis meses. É este período longo que se diferencia dos ciclos irregulares, que se caracterizam pela variação de menstruação para menstruação de mais de nove dias.

Mas existem dois tipos de amenorreia: a primária e a secundária. Aquilo que as distingue é a causa. No caso de amenorreia primária, Fernanda Águas, Diretora do Serviço de Ginecologia do CHUC, explica que acontece nos casos em que “uma jovem não tem a primeira menstruação (menarca) até aos 16 anos, ou até aos 14 anos na ausência do desenvolvimento dos caracteres sexuais secundários”. Já quanto à amenorreia secundária, ocorre depois de a mulher já ter sido menstruada e é denunciada pela falta de menstruação durante mais de três meses, ou mais de três ciclos menstruais típicos.

Cada caso é uma causa

O primeiro passo quando uma mulher deteta este sintoma é procurar ajuda médica: “Inicialmente poderão contactar o médico de família, um ginecologista ou um endocrinologista”, indica a médica de medicina geral Margarida Santos.

Depois disso, dependendo da especialidade, o médico prescreve alguns exames de forma a perceber o que é que originou a ausência de menstruação. A ginecologista Fernanda Águas refere que, quando uma mulher apresenta este sintoma, “a ecografia pélvica, se possível via endovaginal, é um exame de fácil realização, muitas vezes realizado no âmbito da própria consulta e que pode dar informações úteis para o diagnóstico e orientação terapêutica”.

A ginecologia, sendo uma das primeiras especialidades, normalmente consultadas pelas mulheres que ficam sem menstruar durante muito tempo, é o ponto de partida para os passos que se seguem. Umas das causas mais frequentes é a síndrome do ovário poliquístico — que se relaciona com desordens endocrinológicas que, de acordo com a CUF, afeta várias mulheres em idade fértil. Este é um dos exemplos em que é necessário recorrer a outra especialidade: “Quando o ginecologista se apercebe do problema endócrino, envia a doente para a endocrinologia”, refere Mário Rui Mascarenhas, professor de endocrinologia e doenças do metabolismo da Faculdade de Medicina de Lisboa.

De acordo com a médica Margarida Santos, as causas podem então estar relacionadas com “gravidez, alterações anatómicas do útero, alterações genéticas, alterações hormonais relacionadas com a tiroide ou o hipotálamo, alterações de estilos de vida como stress, excesso de exercício físico, desnutrição, etc.”.

Mário Rui Mascarenhas acrescenta à lista ainda outros motivos para a ausência de menstruação: “Alguns medicamentos, por via indireta, podem causar amenorreia, como é o caso de algumas substâncias utilizadas na depressão. Outras causas são as induzidas por algumas terapêuticas: quimioterapia ou radioterapia”. Estes tratamentos, continua, podem causar problemas na função ovárica. Alguns medicamentos usados para combater o cancro da mama também podem originar a amenorreia.

Mas entre todas as causas apontadas, no que toca ao excesso de exercício físico e à desnutrição, a origem pode estar nas redes sociais. Como? Através da difusão de informações erradas sobre a nutrição e o desporto ou da compulsão que se cria sobre esses temas. Margarida reconhece que apesar de as redes sociais serem excelentes plataformas para promover estilos de vida saudáveis, pode haver um desequilíbrio: “Os fundamentalismos e a procura de perda de peso incessante podem levar a distúrbios alimentares graves. O excesso de exercício, o stresse e a restrição calórica constante, são alguns dos fatores que podem levar a este problema, e que devemos evitar.”

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Ainda assim, cada caso é um caso — tal como cada plataforma é uma plataforma. É por isso que Miss Fit, enquanto influenciadora que começou por partilhar conteúdos sobre as suas práticas desportivas e alimentares, refere: “O meu objetivo sempre foi o de passar o exemplo de uma rotina e modo de vida saudáveis. Acabei por cair no erro do ‘exagero’, de levar ao extremo esta intenção e sofri as consequências. Nunca escondi o que se estava a passar comigo e, inclusivamente, escrevi sobre isso várias vezes no meu blogue.” Hoje em dia, os próprios conteúdos alteraram-se devido ao problema com que teve de lidar, tentando passar a mensagem de que “devemos ser disciplinadas e preocupadas com o nosso corpo, mas, sobretudo, com a nossa saúde”.

A pílula resolve a falta de menstruação? Vou ter dificuldade em engravidar?

A resposta é não. “A pílula não trata nenhuma das doenças que causam este problema. Pode, no entanto, ser utilizada como uma forma de compensar as alterações hormonais existentes na amenorreia. Com esta finalidade é utilizada, por exemplo, na síndrome dos ovários poliquísticos, nas amenorreias hipotalâmicas (distúrbios alimentares e excesso de exercício físico) e nas insuficiências ováricas prematuras”, explica a Diretora do Serviço de Ginecologia do CHUC.

Quando se fala em amenorreia, outra das preocupações mais comuns é a gravidez. Muitas mulheres, diagnosticadas em idade fértil, receiam não poder ter filhos. Esse era também um dos receios de Mariana Rocha.

“Era o que mais me angustiava. Tinha o objetivo de ser mãe a curto prazo e o facto de não ter o meu sistema reprodutor regularizado assustava-me bastante. Desde que me foi diagnosticada a amenorreia, fui acompanhada sistematicamente pela ginecologista, para perceber como estava a reagir o meu corpo às mudanças de rotina que estava a implementar”.

Entretanto, Mariana engravidou — está já perto das 40 semanas —, mas revela que na altura em que soube foi uma surpresa feliz, até porque apesar dos progressos, a situação não estava totalmente regularizada.

Mas esta questão pode ser mais complexa e é por isso que a par do acompanhamento ginecológico, pode também ser importante a ajuda psicológica. “Facilita o processo de consciencialização e de aceitação do quadro clínico. Neste sentido, promove a aprendizagem e o desenvolvimento de estratégias de ‘coping’ [estratégias cognitivas ou comportamentais a que um indivíduo recorre para enfrentar desafios do quotidiano] em prol do equilíbrio psicológico, mental, físico e espiritual”, indica Carolina Birr, psicóloga clínica especializada na psicologia do exercício, do desporto e da performance.

Outra questão que possivelmente não ocorre de imediato quando se fala de amenorreia é a forma como esta pode afetar a saúde dos ossos — assunto de que provavelmente já ouviu falar quando se trata da menopausa. É que há uma hormona, o estrogénio, que é importante num ciclo menstrual normal e responsável por proteger a saúde dos ossos. Ora, “quando estão em níveis abaixo do normal de forma crónica, a densidade mineral óssea pode ficar comprometida e aumentar o risco de osteoporose e, eventualmente, de fraturas ósseas”, explica Margarida Santos. Mas isto só acontece quando a amenorreia se prolonga no tempo.

Não se trata a amenorreia, trata-se a causa que fez surgir o problema

“Para alguém que adora treinar e que tem uma rotina de exercício físico muito consistente, é extremamente complicado aceitar que tem de abrandar, descansar mais e aumentar a percentagem de massa gorda. Percebi que para resolver a situação precisava de ser mais forte do que os meus receios de ‘ficar gorda’ ou ‘flácida’, e aceitar que o ritmo que estava a seguir não era saudável e não me estava a fazer bem”, conta Miss Fit.

É por isso que em casos como este, associados ao excesso de exercício físico ou ainda a carências nutricionais, o acompanhamento psicológico é fundamental. De acordo com a psicóloga Carolina Birr, em alguns casos esta é a única forma de conseguir alterar o quadro clínico. A especialista lida com vários casos relacionados com excesso de exercício físico e com transtornos alimentares cujos sintomas mais comuns são a ansiedade, a depressão e uma baixa autoestima. Mas sejam estas ou outras as causas, a psicóloga explica que “a aceitação da situação clínica e o compromisso da pessoa com os objetivos do tratamento são essenciais para que o processo avance a um ritmo positivo”.

Entre os especialistas, a resposta sobre o tempo de duração do tratamento é consensual: “Tudo depende da causa da amenorreia”, refere a ginecologista Fernanda Águas.

Analisemos caso a caso: quando se trata de uma amenorreia primária, que pode ter causas genéticas ou malformações genitais, a especialistas refere que pode não ter um tratamento etiológico, ou seja, que trate diretamente a causa da doença. No caso da amenorreia secundária relacionada com problemas endócrinos, explica Mário Rui Mascarenhas, o tratamento pode levar anos. “Em relação aos tumores da hipófise, o desaparecimento destes varia entre dois a três anos, mas o reinício das menstruações pode acontecer um a três meses após o início do tratamento”.

O endocrinologista exemplifica ainda outras situações clínicas: em lesões da hipófise, doenças da tiroide e de algumas alterações das glândulas suprarrenais, os fármacos podem ajudar no tratamento. A amenorreia também acontece em casos de obesidade mórbida, cuja recuperação da função do ovário ocorre à medida que perdem peso. Já quanto à “anorexia nervosa, enquanto não tiverem a percentagem mínima de reservas de energia acumuladas no corpo (sob a forma de gordura) as alterações dos ciclos menstruais têm tendência a continuar”, conclui o especialista.