Quando entra num restaurante e quem lhe canta é Lauryn Hill, sabe que está dado o mote para uma refeição descontraída mas de qualidade. E quando percebe que, às 19 horas, o mesmo espaço, aberto há apenas duas semanas, já está com mais de metade das mesas reservadas, é altura de dar aquele grito interno de vitória por ter dado um tiro certeiro na escolha da noite.

O VdB Bistronomie abriu em Lisboa, perto do Campo das Cebolas, pela mão de dois artistas. Marianne Anska e Clément Van den Bergh são franceses, atores, mãe e filho e apaixonados por cozinha.

VdB Bistronomie

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Morada: Rua das Canastras, 8, Lisboa
Telefone: 962 690 606
Horário: 18h-24h. Fecha à segunda e terça-feira

“Aqui, fazemos da cozinha um palco. A sensação é sempre a de estar a fazer arte”, explica à MAGG Marianne que, ainda que mantenha a carreira de atriz, sempre teve o sonho de abrir um restaurante. E não foi muito difícil encontrar um parceiro, uma vez que se lembra do filho, ainda criança, sentado na banca de cozinha a pedir para ajudar a cortar os legumes para a sopa.

Clément também fez carreira enquanto ator em França, mas desde que se mudou para Lisboa, há dois anos, é em restaurantes que encarna a personagem de mestre de cerimónias.

Abriu em 2017 o Casa dos Pecados, no Chiado, com um sócio francês, mas de origem portuguesa. “Trouxe-me cá a conhecer a cidade, adorei a energia de Lisboa e fiquei”, conta. Antes disso tinha tido um wine bar em Paris e vinhos são de facto a sua especialidade.

Sabe como se distingue um produto natural de um orgânico?

No VdB — sigla do seu apelido e que quer transformar numa marca — existem mais de 60 referências de vinho, quase todos naturais e de produção biodinâmica. “É um vinho que é vivo e há que aprender a apreciá-lo”, explica, deixando o aviso: “Depois de provar destes vinhos, o difícil é voltar aos outros”.

E nós, já com o copo cheio de Quinta da Palmirinha, entramos num caminho sem retorno.

Correram o País à procura do melhor produto

A ideia do restaurante é de Clément, que é francês. Mas a chef de cozinha, Alana Montachio, é brasileira e estudou em Espanha. Os produtos, esses, são portugueses. “Por isso é que não somos um restaurante nem português nem francês. Preferimos ser conhecidos por um restaurante que serve da quinta para a mesa, uma vez que todos os nossos ingredientes são o mais naturais e orgânicos possível“, esclarece Clément.

Por isso, e antes de abrir o VdB, correu este País de norte a sul à procura do melhor produto. Os legumes são comprados no mercado, assim como o peixe, que vem quase sempre de Sesimbra. A carne é do Alentejo e vem de animais criados em pastagem livre. Tudo isto dá origem a uma carta que muda consoante aquilo que encontram à venda. “O camarão e a cavala, por exemplo, vêm mais ao fim de semana, então não estou a servir de momento”, avisa Alana, que esclarece: “Prefiro ser sincera com o cliente do que dar a provar algo que não é fresco”. Trocou o prato de cavala por um de chocos e acreditamos que ninguém ficou a perder. “O mais importante é vender a verdade ao cliente”, garante.

A carta não é longa e está escrita à mão num caderno. “Vamos mudá-la muitas vezes e achamos que esta seria uma boa solução. E é também uma forma de os clientes poderem voltar atrás para espreitar o que já por cá foi servido”, explica Clément.

13 fotos

A entrada está assegurada com uns croquetes de beterraba e queijo feta, cujo tamanho mete respeito. O problema está no facto de virem tão quentes que o sabor a queijo se sobrepõe a tudo o resto, tornando este primeiro prato difícil de terminar.

Ultrapassámos esta primeira desilusão com um peixe fresco — o mercado ditou que seria pampo — servido com tomate coração de boi, o mais saboroso dos tomates. E o auge da noite chega no terceiro ato com o creme de cogumelos com ovo a baixa temperatura. Não sabemos se foi de comer à colher ou da gema cozinhada no ponto certo mas, de repente, aquela comida soube a conforto.

Seguiu-se um pregado servido com moqueca e, outra surpresa, noodles de batata doce cortados de forma tão exímia que, antes da primeira garfada, podíamos jurar que tínhamos à frente um prato de esparguete.

Na hora da sobremesa, lembramo-nos do que a chef Alana disse quando lhe perguntámos qual o método usado para criar este menu. “Em primeiro lugar, cozinhar aquilo que eu gosto de comer”, respondeu, apontado para o kefir com nozes e figos como aquele que ganha o prémio de número um dos doces. E a verdade é que aquilo que parece um iogurte, tem na verdade um travo mais ácido e até ligeiramente picante, a conjugar com o doce das nozes caramelizadas e dos figos frescos.

A refeição termina aqui e nós estamos como começámos: ao som de boa música e com a certeza de que demos o tiro certeiro na escolha da noite.