Tomás Wallenstein, vocalista dos Capitão Fausto, nunca tinha visto a sua perna sem pelos. Despido, foi na banheira de época de casa dos pais que, com uma lâmina, cumpriu esta ritual, associado às mulheres desde os tempos em que as saias encurtaram e as giletes apareceram. O cantor Paulo Pascoal terá sofrido um pouco mais: o alvo foi a axila, o instrumento foi a cera e o método é aquele de arranque brusco e doloroso, tantas vezes repetido por elas em diferentes partes do corpo.

Os músicos são apenas dois dos 16 protagonistas da exposição “Na Pele Dela”, projeto que, partindo de 15 fotografias, vai mostrar algumas figuras públicas masculinas a desempenharem funções que sempre foram vistas no feminino. Aceitaram o desafio de Maria Lopes, 25 anos, e Mário César, 28 anos, os dois mentores do projeto, que, mais do que fazer um carnaval de máscaras, quiseram despertar para os estereótipos, desconstruido visões culturais com séculos de História e mostrando o que é que são as expectativas colocadas em cima da mulher.

Mulheres que não depilam. “O que eu quero é que não exista um juízo de valor feito à mulher que decide não depilar-se”

A depilação é só um exemplo de como eles vestiram o papel da mulher. A exposição, que vai estar no Todos Playground, em Marvila, em Lisboa, de 12 a 13 e 19 a 22 de setembro, vai mostrar Paulo Furtado, ou Legendary Tigerman, a maquilhar-se; Hélio Morais, dos Linda Martini e Paus, como a dona de casa que cuida dos filhos; o ator Albano Jerónimo de lábios pintados; o músico Carlão a fazer croché; ou ainda o artista de Julião Sarmento nos comandos de uma máquina de costura — tudo imagens que representam as diferentes facetas das obrigações e pressões femininas, desde a estética, ao contexto doméstico, à maternidade e ainda situações de época.

“O corpo da mulher é explorado e sempre usado de uma forma muito sexual nas fotografias, nas pinturas de época e, principalmente nos dias de hoje, nas redes sociais. A ideia começou com essa minha preocupação, por perceber que é um corpo muito explorado e  que ao contrário, no masculino, não vemos isso”, explica à MAGG Maria Lopes, uma das mentoras e a programadora cultural do Anjos70 e DJ que já atuou na Soho House Barcelona, Paredes de Coura e Milhões de Festa.

O objetivo não passa por fazer o inverso, isto é, sexualizar o corpo do homem. “Estamos só a promover a igualdade de género. Retratamos ações impostas à mulher, aquelas em que ela é sempre a dominadora e não devia ser.”

Nos bastidores das sessões, com localizações muito díspares (desde o Lux Frágil a uma quinta em Bucelas), o desempenho destes deveres começava antes de Mário César começar a disparar. Depois do guarda-roupa e maquilhagem (caso necessário), os protagonistas entregavam-se à tarefa que lhes tinha sido incumbida para se familiarizem com as práticas e sentirem o que é estar na pele dela.

“Foi tudo muito natural. Estávamos todos muito à vontade. A nossa estratégia passou por pô-los a desempenhar as funções algum tempo antes de começarmos a fotografar”, explica Mário César, fotógrafo profissional. “Por dois motivos: para sentirem na pele as ações que estavam a desempenhar e, consequentemente, transportar mais peso e realidade para as fotografias.”

“A sessão com o Tomás Wallenstein foi interessante porque a foto dele é tão espontânea. Ele teve mesmo o tempo todo a depilar meia perna. Esteve sempre super empenhado”, conta Maria Lopes, enquanto nos vai dando mais exemplos daquilo que se viveu nos bastidores.

Cansaço, salários e desigualdade. “Uma pessoa chega a casa do trabalho e ainda tem outro horário pela frente”

Carlão terá tido menos tempo de preparação, mas teve direito a workshop com quem entende a minuciosa arte das agulhas com gancho. “Nós já estávamos um pouco atrasados, mas ainda houve tempo para o Carlão aprender a fazer croché com a Joana Vasconcelos, porque a fotografia foi feita no atelier dela. Ainda teve um pequeno workshop e foi giro”, lembra Mário César.

A fotografia mais desafiante terá sido aquela que colocou Daniel Matos Fernandes em cima de um cavalo, isto porque o relações públicas não só teve de estar vestido com uma saia, como também de assumir a posição em que, antigamente, as mulheres eram obrigadas a cavalgar — ou seja, de lado.

Além das imagens, a exposição vai contar ainda com um vídeo que não só mostra o desenvolvimento do projeto, como dá voz aos protagonistas que explicam o que sentiram “Na Pele Dela”, discutindo também a causa da igualdade de género. A inauguração está marcada para 12 de setembro, a partir das 18 horas.

Veja cinco imagens que vão fazer parte da exposição, juntamente com algumas opiniões dos artistas que poderá ouvir no vídeo de bastidores.

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