Quando prepara uma taça de iogurte com flocos de aveia e fruta, pode colocar um fio de mel — não porque seja um alimento essencial, mas porque dá um sabor doce e reconfortante ao lanche da tarde. Mas quando é um vegan a preparar esta mesma taça, o caso muda de figura. O iogurte de origem animal é substituído pelo de origem vegetal, com a aveia e a fruta não há qualquer problema, mas trocar o fio de mel por alternativas vegetais nem sempre é assim tão fácil.

Esta é uma questão várias vezes debatida entre as pessoas que adotam uma alimentação vegan. Afinal, os vegans podem ou não consumir mel? Há quem diga que a produção de mel não afeta as abelhas, outros defendem que vai contra os princípios do veganismo. Em que é que ficamos? Para esclarecer todas as dúvidas, a MAGG falou com duas nutricionistas vegan.

Mas vamos por partes: antes de perceber se o mel é ou não vegan, primeiro temos de saber o que é ser vegan e como é que o mel é produzido.

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O veganismo está no armário e na mesa

“Os vegans recusam tudo o que envolva o sofrimento ou exploração animal”, refere a nutricionista Ana Isabel Monteiro, definindo de forma breve e sintetizada o conceito de vegan. A Associação Vegetariana Portuguesa completa a explicação e refere que o veganismo “engloba preocupações como o boicote de entretenimento com animais, de vestiário de origem animal (peles, lã, etc.), produtos testados em animais, etc., embora possa ser usado apenas num contexto alimentar (estudos científicos, classificação de produtos alimentares, restaurantes, etc.)”.

Quem segue uma alimentação vegetariana estrita foca-se apenas no regime alimentar inteiramente vegetariano, ou seja, excluindo o consumo de ovos, lacticínios ou outros derivados de origem animal.

Apesar das definições, a resposta para o uso de mel ainda não é clara, uma vez que nem todos sabem como é que o mel chega até aos frascos que vemos nas prateleira do supermercado. Ficam várias questões no ar, como “as abelhas são exploradas?” ou “Elas morrem no processo de produção do mel?”.

Nós esclarecemos tudo.

O trabalho é feito pelas abelhas

O mel surge a partir das colmeias, mas são as abelhas que fazem a maior parte do trabalho. Passam por mais de 50 mil flores todos os dias para recolher o néctar que levam até à colmeia. É aqui que decorre o processo: o néctar recolhido é colocado sobre os favos e são as abelhas mais jovens que transformam o néctar em mel, explica a Agência de Desenvolvimento Regional do Alentejo.

Depois de pronto, o mel é colocado nos alvéolos dos favos e, enquanto isso, outras abelhas têm como função verificar o processo e abanar as asas para manter a temperatura local e secar o excesso de água. No final, os alvéolos são cobertos com uma fina camada de cera. Mas falta acrescentar um aspeto envolvido na produção do mel: “É produzido pelas abelhas a partir do néctar recolhido de flores e processado pelas enzimas digestivas desses insetos, sendo armazenado em favos nas suas colmeias para servir-lhes de alimento.”

Ora, aqui começamos a falar das implicações da produção de mel para as abelhas. “Ao extrair o mel para consumo humano, as abelhas acabam por ficar sem o seu alimento. Aí há apicultores que substituem o mel por soluções açucaradas para que as abelhas possam sobreviver (atenção que esta solução é muito menos rica, porque não tem os minerais que tem o mel)”, explica a nutricionista conhecida como “Laranja.Lima’, nome que escolheu para o seu blogue e página de Instagram.

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Esta não é a única parte negativa na produção deste alimento. Beatriz Batista, autora do blogue “sociedadevegan.com“, explica que a indústria tem um papel decisivo na forma como são manipuladas as abelhas de forma a obter lucro. “Durante os meses em que há um decréscimo de produção de mel, alguns apicultores optam por queimar as colmeias ou deixar as abelhas morrer à fome, uma vez que a manutenção das colmeias é cara.” Aqui já não falamos só de exploração do trabalho deste animal, mas também da consequente morte.

Esta ocorre também por esmagamento ou por vezes quando o apicultor faz a extração do mel. Isto se as abelhas não morrerem antes, ao proteger o néctar, o alimento para o qual trabalham e armazenam para os períodos de escassez. Quando se sentem ameaçadas, “tentam defender as colmeias do inimigo (o apicultor), acabando por picar o fato que estes usam como proteção, onde ficam então os seus ferrões”, continua Ana Isabel. Apesar de não ser uma ação deliberada pelos apicultores, as abelhas acabam por morrer depois de picar.

Depois de perceber o processo da produção e extração de mel, poderíamos ter a resposta imediata para o consumo de mel por pessoas com uma alimentação vegan, mas então porque é que há pessoas vegan que incluem este alimento?

[A falta de] conhecimento

“Normalmente, por falta de informação. Dizem que consumir mel não faz mal às abelhas. Um pouco como a história ilusória de que ‘consumir leite não faz mal as vaquinhas’”. Ou então é a tal história do ‘Mas a minha avó tem abelhas e não as maltrata para tirar o mel'”, esclarece a nutricionista vegan Sónia Dias. Sónia, tal como Ana Isabel Monteiro, não são consumidoras de mel, porque vai contra os princípios do veganismo. “O mel é das abelhas”, acrescenta Sónia.

Se os princípios do veganismo não estão a favor do uso de mel, a solução para quem pensa desta forma passa por eliminá-lo da alimentação: “O mel não é um alimento essencial, seja em que padrão alimentar for”, explica a nutricionista Ana Monteiro, acrescentando que o facto de retirar o mel da alimentação devido a uma dieta vegan não causa carências nutricionais.

Tem origem ou implica a exploração animal? Então não é vegan

As nutricionistas são unânimes na sua opinião. Ana Isabel Silva refere que “visto que os veganos recusam tudo o que envolva o sofrimento ou exploração animal, sim, eu diria que há consenso no seu não-consumo”. Já Sónia, a nutricionista vegan, é mais radical, mas a sua resposta vai no mesmo sentido: “Sim. Veganos não consomem mel”.

Ainda que este não seja um alimento essencial à nossa alimentação, existem já várias alternativas vegan. É o caso do xarope de ácer, o agave, as geleias e o xarope de tâmaras ou a pasta de tâmaras. As duas últimas são “as minhas alternativas preferidas”, refere Sónia.

Mas há outras: “Se estivermos a falar do ponto de vista culinário, temos o xarope de agave, xarope de ácer, xarope de tâmaras, pasta de tâmaras, ou podemos usar mesmo a tâmara em si, bem como banana ou puré de maçã para adoçar.” Mas se estivermos a pensar nas propriedades antioxidantes e antibacterianas, a nutricionista dá opções como os frutos vermelhos, o limão, o gengibre ou a curcuma.