A Amazónia é conhecida como o “pulmão do mundo”, mas talvez seja mesmo só fama. É que a revista norte-americana “The Atlantic” revela o que aconteceria se queimássemos todas as células vivas do planeta Terra. A resposta é dada pelo geólogo Shanan Peters: “Gerações de humanos viveriam as suas vidas, respirando o ar ao seu redor, provavelmente a lutar para encontrar comida, mas sem se preocuparem com a próxima respiração”. 

Afinal, de acordo com a investigação do geólogo da Universidade de Wisconsin, situada em Madison, nos Estados Unidos, o problema que se vive na Amazónia nas últimas semanas não põe em causa a sobrevivência do ser humano. Ainda assim, não deixa de ser uma tragédia — que já resultou em cerca de um milhão hectares de área ardida e “inúmeros animais carbonizados e magoados” encontrados na floresta tropical, de acordo com as declarações de Carmen Silva, coordenadora da Brigada Municipal de Bombeiros Civis de Porto Velho, no Brasil, reveladas pela TSF.

O incêndio tem inundado os media nas últimas semanas, quer pelas consequências catastróficas, quer pela revelação das políticas do governo brasileiro, que têm sido acusadas de serem responsáveis pelo estado de situação em que se encontra a Amazónia. Bolsonaro, à frente do governo do Brasil desde janeiro, tem recusado ajuda e só esta sexta-feira, 23 de agosto, permitiu que as forças militares atuassem no combate deste grande fogo.

Mas apesar de prejudicar o ambiente, colocando em causa milhões de espécies e terrenos onde habitam indígenas e comunidades brasileiras, o que revela o estudo de Peters para concluir que afinal a grande floresta tropical da Amazónia não é o pulmão da Terra? 

Aquilo que o geólogo tentou perceber foi o que aconteceria com a atmosfera se, além de queimar toda a Amazónia, ardessem todas as florestas da Terra — incluindo todos os seres vivos, como as abelhas e as girafas, à exceção dos humanos. A teoria foi apresentada em junho na Convenção Paleontológica da América do Norte, em Riverside, na Califórnia.

97% da comunidade científica acredita nas alterações climáticas. O que defendem os outros 3%?

A esta altura pode estar a imaginar uma enorme catástrofe que resultaria no fim da espécie humana. A verdade, porém, é que os dados apresentados por Peters mostram o contrário e o mesmo refere que praticamente nada mudaria: “A concentração de oxigénio na atmosfera caiu de 20,9% para 20,4%. O CO2 (dióxido de carbono) subiu de 400 partes por milhão para 900 — menos até do que nos piores cenários para as emissões de combustíveis fósseis até 2100.”

E porque é que estas alterações não seriam assim tão significativas? Tudo se relaciona com o oxigénio que circula no nosso planeta. A revista norte-americana explica que o processo de respiração dos humanos representa uma perfeita e completa reversão da fotossíntese — que é necessária —, mas não uma condição suficiente para o mundo.

A própria Amazónia não fornece ao planeta 20% do seu oxigénio resultante da fotossíntese e é responsável por apenas cerca de 6% do oxigénio produzido atualmente pelos organismos fotossintéticos vivos. “A partir de uma perspetiva mais ampla do sistema da Terra, na qual a biosfera cria mas também consome oxigénio livre, a contribuição da Amazónia para a invulgar abundância desta substância no planeta é mais ou menos zero.” Isto explica o facto de as árvores sozinhas não serem suficientes para produzir todo o oxigénio presente na atmosfera.

É que este elemento químico encontra-se também nas rochas, no enxofre dos gases vulcânicos ou no ferro da crosta oceânica. Mas não só. Está debaixo dos nossos pés: “Debaixo da Virgínia Ocidental e de Inglaterra estão vastas selvas adormecidas, com mais de 300 milhões de anos, cheias de centopeias do tamanho de jacarés e escorpiões do tamanho de cães.” Este é apenas um dos exemplos de oxigénio antigo que provém de florestas e de plâncton (que inclui o carvão, o petróleo e o gás natural) com dezenas de milhões de anos.

“A ideia de que devemos o ar que respiramos à floresta tropical, ou o [fitoplâncton] das costas das florestas tropicais, é um pouco errada a longo prazo”, conclui Peters.

A revista norte-americana refere ainda que a maior parte do carbono biológico da Terra pode ser encontrada não só nos combustíveis fósseis — o tal carvão, petróleo e gás natural que referimos — mas também nos depósitos rarefeitos, como é o caso do lamito (uma rocha sedimentar) que se encontra na crosta terrestre. “Há muito oxigénio. Por agora”.

Contudo, apesar das várias formas de oxigénio na Terra, nada relativiza a catástrofe que assistimos na Amazónia. Não só está a matar milhões de espécies, como a desafiar a capacidade do planeta para responder às nossas necessidades de sobrevivência. Afinal, até poderíamos continuar a respirar, mas não sabemos exatamente em que condições o faríamos.