Combining Food Diet. Funciona esta nova moda de alimentação lançada por influenciadoras digitais?

Promete uma barriga lisa, mas proíbe a mistura de hidratos com proteína e defende que a fruta só faz bem de estômago vazio. Qual é a lógica?

Combining food diet. Mais uma tendência no mundo da alimentação, agora a ser difundida por influenciadoras digitais, que prometem, via Instagram ou YouTube, que esta nova forma de comer acaba com as más digestões, barriga inchada, indisposição, cansaço — deixando-as (é um cliché, mas aqui vem mesmo a propósito) fresquinhas como uma alface.

Kenzie Burke foi a blogger e instagrammer que difundiu esta “mudança de lifestyle”, como lhe chama — dieta não  — e diz que começar a seguir os princípios que regem esta espécie de filosofia alimentar foi determinante para se começar a sentir bem e a ter uma boa relação com a comida. Outras influenciaras seguiram-lhe os passos, como é o caso de Maggie MacDonald que, num vídeo de 20 minutos, conta tudo aquilo que anda a comer. Os resultados relatados também são os melhores do mundo.

Os princípios da teoria Food Combining Diet dizem que, uma vez que o organismo quebra macronutrientes (gorduras, hidratos de carbono e proteínas) de forma diferente, o melhor será apenas comer, em simultâneo, aqueles que são mais idênticos, de modo a que tudo funcione de forma mais acelerada e fluída. Por exemplo: os hidratos de carbono são mais rápidos a serem digeridos do que as gorduras e proteína, portanto juntar os dois implicaria mais esforço por parte do corpo.

Além disso, sustenta também que esta espécie de cocktail de macronutrientes faz com que diferentes enzimas e moléculas tenham de ser utilizadas em simultâneo nos processos digestivos, o que é uma estafa ainda maior para o organismo.

Portanto, a ideia aqui passa, mais especificamente, por consumir alimentos que sejam processados à mesma velocidade, na mesma sessão digestiva. De outra forma, a teoria diz que a comida apodrece ou fermenta no estômago, obrigando o organismo a usar mais energia para completar aquele processo, o que resulta em inchaço, fadiga, dificuldade de perda de peso e todas essas vicissitudes da má digestão.

De acordo com o que defende Burke — que não é nutricionista, atenção — é que, quanto mais rápida for a comida a mover-se pelo sistema, mais nutrientes conseguimos absorver de cada refeição que ingerimos, se seguirmos a tais regras.

Só que a ciência não está do lado dela. “Nenhuma das regras e recomendações é apoiada por evidência científica. Inclusive algumas não fazem sentido com a bioquímica do nosso corpo”, diz à MAGG a nutricionista Bárbara Oliveira.

Que alimentos é que, segundo os princípios deste plano, não devemos reunir no mesmo prato ou refeição? Há quatro princípios básicos.Vamos conhecê-los e, depois, perceber se fazem, ou não, sentido, com a ajuda da mesma especialista.

A fruta só se deve comer de estômago vazio.

Motivo? Ao que parece, comer fruta e misturar com proteína (ovos ou iogurte) ou com hidratos de carbono simples ou complexos (apesar de a fruta ser constituída maioritariamente por este macronutriente) pode criar trânsito no sistema digestivo, devido aos tempos de processamento dos nutrientes, que, segundo a teoria, ficam numa espécie de fila de espera de digestão, criando fermentação gastrointestinal.

Faz sentido? Não. “Não há filas de espera no nosso organismo para haver uma digestão. O que pode acontecer é, por haver mais alimentos no estômago, ela tornar-se mais mais lenta”, diz Bárbara Oliveira. “Mas nunca vai ocorrer uma fermentação — com ou sem outros alimentos — pelo facto de o interior do nosso estômago ser ácido.”

Não misturar hidratos e proteína na mesma refeição

Motivo? A mistura da proteína com os hidratos — a que predomina em muitas refeições — vai contra o manual de regras da combining food diet, porque os dois macronutrientes usam enzimas distintas quando são processados pelo organismo. São elas a amilase e a pepsina, respetivamente. Como têm diferentes níveis de pH (a primeira é mais alcalina e a outra mais ácida), exigem mais energia ao corpo, que terá de neutralizar estes níveis através de sucos gástricos.

Faz sentido? “Não faz sentido. A digestão é um processo complexo que vai tendo diferentes níveis de pH, o que é imprescindível para que a mesma aconteça”, considera a mesma nutricionista.

Bárbara Oliveira explica, mais detalhadamente, este processo do organismo. “A digestão é um processo que começa logo na boca com a ação da enzima amilase salivar e com a digestão dos hidratos de carbono (do amido, mais propriamente). Depois, a comida vai para o estômago, onde começa a ação do ácido gástrico, constituído por ácido clorídrico e pela enzima pepsina, que começa a digestão das proteínas”, explica.

“O bolo alimentar continua para o intestino delgado, onde se dá a maior parte da digestão e assimilação dos nutrientes — hidratos de carbono, proteínas e gorduras — através da ação de substâncias alcalinas produzidas pelo pâncreas e pelo fígado.”

Dois tipos de proteína animal na mesma refeição também não

Motivo? O princípio para esta espécie de proibição reside no facto de a proteína demorar cerca de 12 horas a ser digerida no corpo. Ao duplicar a quantidade, o organismo tem de trabalhar ainda mais. O resultado é o mesmo: comida a fermentar e problemas digestivos como inchaço e fadiga.

Faz sentido? “Não faz sentido nenhum. No máximo, pode não ser bom juntar duas fontes de proteína porque o indivíduo pode não ter essa necessidade, no entanto, muitas vezes, até é bom reunir vários tipos deste macronutriente para obter vários nutrientes diferentes.”

Os vegetais têm autorização para tudo

Motivo? São considerados alimentos neutros neste manual, portanto pode ser comido com fruta, hidratos, gorduras ou proteínas.

Faz sentido? “Não faz, novamente, sentido nenhum. No entanto, é o único ponto positivo desta dieta: recomenda o consumo de vegetais. Os vegetais são fonte de vitaminas, minerais e muito importantes numa alimentação saudável. Mas, falando de valores nutricionais, são normalmente baixos em hidratos de carbono, proteínas ou gordura comparativamente a outros alimentos — pelo que não está correto dizer-se que podem adicionar-se a tudo.”

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