Acho fantástico que o nosso Parlamento crie leis que promovam a justiça social para todos os portugueses, maiores, menores, seja qual for o seu género ou orientação sexual. Acho fantástico, mas isto é algo tão básico que mesmo sem legislação isto deveria ser senso comum. Qualquer lei que se faça agora só peca por chegar tarde. Ainda assim, num ano de eleições, medidas deste género não são absolutamente inocentes nem espelham apenas uma preocupação relevante do Governo. Antes, cheiram mais a um piscar de olho a uma Esquerda indecisa e oscilante, que vota um bocadinho a favor dos ventos. À Direita não vale a pena piscar olhos com temas desde género, porque o PSD não pensa de maneira muito diferente e o CDS começa a ter uma escala que roça a irrelevância.

Como pai, quero muito que nas escolas dos meus filhos haja uma política de igualdade e justiça. Mas quero-o a todos os níveis, não apenas no que toca à orientação sexual dos miúdos. Não acho, de todo, que os problemas centrais de discriminação e bullying nas escolas tenham a ver com casos de orientação sexual dúbia, homossexualidade ou discriminação ligada de alguma forma à incerteza de género das crianças. Claro que deve haver casos desses, mas há outros muito mais frequentes, que afetam muito mais crianças, e que me preocupam bastante mais. E preocupam-me mais porque com essas situações pouca gente parece preocupar-se, seja o Governo, seja o Ministério da Educação, seja a própria sociedade civil.

As escolas podem usar o tempo de formação que têm para professores e funcionários a passar-lhes linhas orientadoras sobre o uso das casas de banho pelas meninas, pelos meninos, pelas meninas que se sentem meninos, pelos meninos que se sentem meninas, mas quanto desse mesmo tempo de formação é usado para criar orientações que defendam as crianças de todas as outras situações de bullying e discriminação pelas mais variadas razões?

O que é que está a ser feito nas escolas para combater o bullying digital, em que miúdos humilham os colegas em grupos de What’sApp, filmam crianças em momentos privados e colocam os vídeos a circular nos grupos de chat levando a situações de depressão profundas, isolamento, quebras no aproveitamento escolar, exclusão social?

O que é que está a ser feito nas escolas para combater o bullying verbal, em que o Gordo continua a ser gozado pelos colegas por ter excesso de peso, e com isso a ter problemas graves de auto-estima, que podem levar ao isolamento e à depressão?

O que é que está a ser feito nas escolas para que os bullies parem de agredir os miúdos mais fracos nos recreios, sem que haja vigilância eficiente e, muitas vezes, por falta de provas, não há consequências dessas mesmas agressões?

Lei de identidade de género nas escolas. Guia para não dizer disparates (como “vai haver casas de banho mistas”)

O que é que está a ser feito nas escolas para que as crianças mais pobres, que não têm possibilidades de comprar roupas, ténis, sapatos, mochilas de marcas mais caras não sejam isolados, discriminados, rotulados, e, com isso, terem crises de auto-estima, de identidade, gerarem revolta social, e, consequentemente, passarem a ter menos aproveitamento escolar e menos paz interior?

O que é que está a ser feito nas escolas para que as crianças mais feias, as negras, as filhas de pais chineses, as que usam óculos muito graduados ou tenham acne, as que têm alguma deficiência física se sintam absolutamente iguais a todos os seus colegas, com um tratamento igual por parte de todos, sem qualquer tipo de discriminação na sua liberdade de ser ou agir?

Não sou dos que defendem que os problemas se resolvem um de cada vez, claro que não é por se dar prioridade a um tema que não se pode ir avançando com todos os outros. Ou seja, não é por se passar a formar professores e funcionários das escolas sobre a questão das casas de banho que podem ser usadas por meninos ou meninas, de acordo com o seu sentimento sexual, que vai deixar de se trabalhar em todas as outras áreas. O que não vejo, de facto, são medidas legislativas, políticas educativas que efetivamente façam qualquer coisa visível para que as crianças, e todas as crianças, gordas, altas, magras, negras, com borbulhas, que usem aparelho, que não tenham dinheiro para usar roupas caras, que não tenham namorados, não sejam discriminadas e se sintam isoladas num meio em que estão inseridas unicamente porque não há legislação que as proteja.