Ser vegan começa no prato, mas passa também pelas práticas do quotidiano, nas quais se inclui também a escolha da roupa. São cada vez mais as pessoas que procuram alternativas feitas sem recurso a exploração animal e as marcas estão atentas a isso. Mas será que estas peças, como as que substituem couro animal por couro sintético, são mesmo mais ecológicas?

Antes de responder a esta pergunta é importante explicar o que é o couro: “O termo couro é definido pelos padrões britânicos, europeus e internacionais da Organização para a Padronização (ISO) e refere apenas as peles de animais queimadas para não se deteriorarem”, explica Kerry Senior, diretor da associação comercial da indústria de couro do Reino Unido, ao jornal “The Independent“. Kerry acrescenta por isso que couro vegan não existe.

Ora veja: comprar couro sintético é idealmente a melhor solução uma vez que evita a exploração dos animais para a produção deste material. Mas a verdade é que os animais não são criados apenas com o fim de produzir couro, o que significa que comprar couro sintético leva também à emissão de gases com efeito de estufa e ao desmatamento, tal como na criação de gado. Além disso, ainda que o couro sintético não seja de origem animal e as técnicas tenham evoluído ao longo do tempo, em muitas fábricas, como as do Bangladesh, são usadas substâncias químicas para queimar o couro que acabam depois por ser deitadas nos rios, e, consequentemente, prejudicar o ambiente.

Mas o problema do couro sintético não fica por aqui. “Se está a comprar couro sintético, então precisa de saber que está a comprar plástico”, revela Amy Powney, diretora criativa da marca de luxo sustentável Mother of Pearl. Refere ainda que prefere comprar “couro de melhores práticas”, ou seja, aquele que é feito com materiais naturais e é também mais duradouro.

Pode nunca ter pensado em tudo isto, tal como as milhares de pessoas que compraram este tipo de peças e fizeram disparar as vendas de marcas como a Dr. Martens, que anunciou a semana passada que os lucros aumentaram em 70% num ano — entre março de 2018 e março deste ano — com a venda da linha de botas vegan. Além desta marca, também a Topshop e Adidas apostaram em artigos de calçado mais sustentáveis, de forma a responder à crescente procura dos consumidores por opções vegan.

Dr. Martens aumenta lucros com venda de botas vegan

Mas agora, os especialistas da área da moda criticam a mensagem que algumas marcas tentam passar. É o caso do diretor criativo do alfaiate Norton & Sons, Patrick Grant, que criticou a estilista Stella McCartney, cuja marca é conhecida pelas coleções sustentáveis. Patrick disse em outubro que Stella “por razões éticas baseadas nas suas crenças vegan, tem-nos encorajado a usar plástico em vez de couro. Isso agora parece uma política imprudente.”

A estilista britânica assume no próprio site o uso de poliuretano e poliéster (produtos tóxicos usados nas fábricas têxteis, acabando por se infiltrar nas águas residuais e provocar danos nas plantas e nos animais ao entrar no meio ambiente) nas suas peças, mas reconhece que não o faz sem preocupação. “O lucro e perda ambiental (EP&L) tem-nos mostrado que a maioria do impacto associado com as fibras sintéticas está relacionado com o processo de transformação do óleo em tecido. Nós estamos a trabalhar no sentido da redução do impacto dos nossos materiais através do uso de materiais reciclados e biológicos.”

Alternativas ao couro “não vegan”

Sabe agora que nem sempre pode confiar em todas as peças de vestuário cuja etiqueta tem um selo vegan, ou em campanhas de marketing que o levam a pensar que vai comprar de forma sustentável. Mas as alternativas não se esgotam e já estão a ser testadas em laboratório novas formas de produzir o couro sintético de uma forma realmente ecológica. É o que está a acontecer na Modern Meadow, uma empresa pioneira na fabricação de couro de forma biológica, ética e mais amiga do ambiente, e na marca Piñatex que já incluiu o couro natural feito com fibras de celulose das folhas de abacaxi na coleção de moda sustentável lançada este ano pela da H&M.

Ainda assim, o uso de couro natural é, para muitos, a melhor opção. “Preenche todos os requisitos para um material sustentável. O problema do couro [genuíno] é que se mantém o estigma dos métodos de produção dos antepassados”, refere Rachel Garwood, diretora do Instituto de Tecnologias de Couro Criativo da Universidade de Northampton. A verdade é que os métodos contemporâneos usados pelas indústrias modernas são muito menos prejudiciais do que os processos químicos envolvidos anteriormente na produção de couro.

Enquanto a indústria da moda não desenvolve formas mais ecológicas de produção do couro, Leigh Mcalea, chefe de comunicações da organização anti-desperdício Traid, tem uma sugestão mais simples: comprar em segunda mão. “Evita a perda da vida de animais, a destruição ambiental e a exploração de mão de obra”. Dar uma nova vida às peças só tem vantagens: adota um estilo mais vintage, poupa os recursos naturais e evita quaisquer aspetos negativos (ambientais ou humanos) que decorrem da indústria da moda.