Os ponteiros do relógio marcavam as 15 horas, mas era como se a noite tivesse chegado mais cedo a São Paulo, no Brasil. É que a cidade escureceu por completo devido às nuvens negras que esta segunda-feira, 20 de agosto, cobriram o céu da cidade. Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia do Brasil, o fenómeno deve-se ao choque entre uma frente fria e o fumo dos incêndios que estão ativos há cerca de três semanas na Amazónia.

O alerta foi dado no início de agosto quando o estado do Amazonas, no Brasil, declarou estado de emergência com o aumento do número de queimadas ilegais na floresta amazónica. Segundo escreve a revista “Vice”, o período das queimadas ainda só vai no início e espera-se que dure até meados de outubro.

Mas os números são problemáticos. Segundo o especialista Mike Parrington, citado pela mesma publicação, os incêndios na Amazónia libertam cerca de 500 a 600 toneladas de dióxido de carbono num ano.

As queimadas estão associadas ao processo de desflorestação

Reuters

Desde o início de 2019 já se registaram 200 toneladas de emissões para a atmosfera — e a tendência é para que este número continue a aumentar.

No entanto, as notícias são apenas um reflexo daquilo que vários estudos já previam em meados de 2014 onde se associou as queimadas a um aumento significativo de desflorestação nas florestas. Os alertas internacionais foram sempre ignorados por Jair Bolsonaro que, quando tomou posse, em janeiro, prometeu desenvolver a região para efeitos agrícolas e exploração mineira.

97% da comunidade científica acredita nas alterações climáticas. O que defendem os outros 3%?

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) relevam que, só em junho, se assistiu a um aumento de 88% de desflorestação em toda a região da Amazónia. Sem surpresa, o presidente refutou os números, desvalorizou a investigação e falou numa campanha contra o Brasil.

Enquanto isso, a Amazónia continua a arder e na quinta-feira, 15 de agosto, registaram-se cerca de 9.507 focos de incêndio na região que é considerada vital para o combate aos efeitos do aquecimento global. O fumo dos incêndios percorreu quilómetros, escureceu São Paulo e fez com que a chuva fosse preta.

São Paulo escureceu às 15 horas

“Só um pequeno alerta para o mundo: o céu ficou escuro hoje em São Paulo e vários meteorologistas acreditam que se trata de fumo dos incêndios a milhares de quilómetros, na Rondônia ou no Paraguai. Imaginem o quanto está a ser queimado para gerar todo este fumo”, escreveu uma jornalista brasileira no Twitter.

Não demorou muito para que, em São Paulo, fossem vários os cidadãos a sair à rua para tentar compreender o fenómeno. É que além do escurecimento repentino durante a tarde, a chuva que caiu era também ela negra.

Segundo o canal Globo, uma análise preliminar no Instituto de Química da Universidade de São Paulo confirmou a presença de substâncias vindas dos incêndios que serviram para alterar a cor da água. Mas um especialista explica que o episódio poderia “ter tido um efeito muito pior nas pessoas” se tivesse acontecido sem a presença de uma frente fria que trouxesse chuva.

Uma garrafa com água da chuva que caiu em São Paulo quando a região escureceu

Globo

Apesar do fenómeno, o canal brasileiro diz que a Companhia Ambiente do Estado de São Paulo, responsável pelo controlo da qualidade do ar, garante “não ter havido anormalidade de partículas no ar ” e que este “já está relativamente limpo” devido à ocorrência da chuva — mesmo com a alteração da cor.

Face às novas acusações de que as suas políticas estão no centro do problema, Jair Bolsonaro defendeu que os incêndios na Amazónia são normais para esta altura do ano já que “é época de queimada”.

“Agora estou sendo acusado de tocar fogo na Amazónia. Nero! É o Nero tocando fogo na Amazónia. Alguém sabe o tamanho da Amazónia? Vamos colocar quantas pessoas para apagar fogo na Amazónia? Lá é época de queimada. O que se aproveita no momento é que está tudo mudando e eu estou tocando fogo”, disse aos jornalistas.