Uma ervilha é tão pequena de tamanho, como de impacto no ambiente

Conhecemos as ervilhas há vários anos, mas ganham agora novo destaque. Sabia que a produção de ervilhas é das mais sustentáveis?

Produzir ervilhas exige menos água, não são necessários fertilizantes nitrogenados, pode ser produzida num regime de rotação de culturas e é um alimento tolerantes à seca

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Ervilhas com ovos escalfados. Aquela receita típica para acalmar estômagos famintos de algo que dê conforto. Para ajustar esta receita tão tradicional aos dias de hoje, só faltava retirar o chouriço para reduzir o consumo de alimentos de origem animal. Mas o que interessa está lá: as ervilhas. Estas além de nutritivas, e, por isso, boas para a saúde, são amigas do ambiente.

De acordo com a revista “Time”, a produção de ervilhas exige menos água, não são necessários fertilizantes nitrogenados (retiram o nitrogénio do ar e armazenam nas raízes), é dos melhores legumes que se pode incluir numa rotação de culturas e, durante o processo de cultivo, são tolerantes à seca. Se pensa que este é um panorama demasiado perfeito e está à espera de ouvir a parte em que se começa a falar de OMG (organismos geneticamente modificados), não se preocupe, porque as ervilhas não passam pelo laboratório. A acrescentar à lista de benefícios está ainda o facto de serem um bom alimento para evitar alergias.

Todos os benefícios das ervilhas podem e devem passar pelo consumo deste ingrediente por inteiro, como por exemplo num salteado de ervilhas com cogumelos, mas a verdade é que “há uma suposição na ciência dos alimentos de que vamos começar a dividir as coisas em componentes. Eu acho que se tornou parte de nossa cultura”, diz Liz Carlisle, autora do livro “A lentilha subterrânea”. Esta divisão diz respeito aos vários alimentos processados que encontramos à venda, cuja lista de ingredientes inclui uma mera adição de, por exemplo, 5% de ervilhas.

Esta é uma forma de marketing muito comum na indústria alimentar para lucrar com os alimentos que se têm tornado famosos no mundo da alimentação, como é o caso das ervilhas que recentemente têm sido mais vezes mencionadas pelos seus elevados níveis de proteína, neste caso, vegetal. Estes variam entre os 5 e os 7%, conforme se são frescas (cozidas ou congeladas) ou secas, bem como à quantidade de fibra e de amido.

Mas atenção, nem sempre esta por divisão por componentes é má. De certeza que já viu no supermercado ou já ouviu falar da proteína de ervilha que vem em pó dentro de uns pacotes grandes e que pode ser aplicada em sumos, batidos, sopas ou em panquecas. Têm um papel principalmente relevante para os vegetarianos ou os vegan que precisam de recorrer a fontes de proteína que não tenham origem animal. Mas a transformação da ervilha pode ter diversos caminhos. Na China, o amido de ervilha é usado para fazer massas e a proteína restante é enviada para os Estados Unidos.

Uma ode às leguminosas

Nos EUA, a maior parte das ervilhas, lentilhas, grão de bico e feijão eram importados até há cinco anos, mas quando as Nações Unidas nomearam 2016 como o Ano Internacional das Leguminosas, houve uma “mudança de paradigma em relação aos alimentos à base de plantas” no país, refere Tim McGreevy, CEO do Conselho das Leguminosas dos Estados Unidos.

O próprio governo americano impulsionou o consumo destes alimentos ricos em nutrientes, autorizando um financiamento de mais de 2 milhões de euros nos últimos dois anos para a Iniciativa Pulse Crop Health do Departamento de Agricultura dos EUA, cuja finalidade é aprofundar o conhecimento sobre as ervilhas. Apesar deste investimento, há países onde a investigação cientifica tem já maiores recursos, como é o caso do Canadá. “Estamos completamente isolados de ervilhas verdes e amarelas, e os canadianos estão a aproveitar isso ao máximo”, refere McGreevy.

Os investigadores acreditam que, independentemente do país, as ervilhas vão continuar a estar em voga, quer na alimentação, quer no estudo dentro dos laboratórios. “Não vejo isto como uma tendência que vai desaparecer à medida que o mundo trabalha para atender às exigências alimentares globalmente”, refere Ron Kehrig, vice-diretor de investimentos do Ministério do Comércio de Saskatchewan, no Canadá.

Pode não desaparecer, mas a simples ervilha como hoje a conhecemos pode sofrer algumas alterações ao longo do tempo. De acordo com a revista americana, Rebecca McGee, criadora de plantas com o Serviço de Investigação Agrícola da USDA, está atualmente a trabalhar numa iniciativa chamada ‘MP3’, que significa “mais proteína, mais ervilhas, mais lucro”, de forma a estudar a natureza genética da concentração de proteína, com o objetivo de encontrar uma forma de tornar a ervilha num alimento modificado ainda mais rico.

A evolução pode não ficar por aqui. A ervilha vai ganhando seguidores na era digital que populariza os benefícios sobre os alimentos, bem como outras novidades da alimentação à base de vegetais. Kehrig refere que no Canadá, que tem mais de 100 milhões de euros para aplicar na investigação de proteínas vegetais e alimentos à base de plantas, já estão a ser feitos testes em favas e sementes de canola (de onde se extrai o óleo de colza que encontramos em muitos alimentos.

Os benefícios proteicos das ervilhas também já se podem encontrar nos hambúrgueres Beyond Meat, que se têm popularizado pelo facto de parecem realmente carne. A proteína de ervilha é um dos principais componentes dos hambúrgueres da marca, mas também inclui a de arroz e de feijão mungo. “Acreditamos que o desejo do consumidor não é que a proteína de ervilha seja a única fonte proteica dos nossos produtos”, diz Ethan Brown, fundador da Beyond Meat.

A marca de hambúrgueres aposta na diversidade, neste caso das proteínas, e é por isso que está para breve o lançamento de salsichas feitas com grãos de tremoço, ou camelina, mostarda e sementes de girassol.

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