De Patti Smith ao pior glamping do mundo. O bom, o mau e o assim assim do Paredes de Coura

É quase tudo bom, porque houve Patti Smith, New Order e o Taboão. Mas nada é perfeito — sobretudo, quando se junta "glamour" com "camping".

O festival levou cem mil pessoas ao recinto de Paredes de Coura

Já estamos sentados à secretária, em Lisboa. Ontem, 18 de agosto, acordámos a mais de 400 quilómetros, numa tenda em Paredes de Coura. Apesar de pouco mais de 24 horas terem decorrido entre os dois momentos, já sentimos a invasão de saudosismo nostálgico e aparentemente precoce, mas que tem tudo para ser justificado. Estamos no rescaldo de mais uma edição épica do festival e ainda conseguimos ouvir o “Because the Night” de Patti Smith a ecoar-nos nos ouvidos, depois de um dos concertos mais emotivos das nossas vidas.

Durante quatro dias, a começar a 14 de agosto, mais de cem mil pessoas cruzaram as portas do recinto que fica junto à Praia Fluvial do Taboão, para assistirem ao um cartaz repleto de nomes gritantes. Antes disso, o dia fazia-se nas margens do rio, o local de eleição dos campistas, que para lá se dirigiam quando o sol e a tenda não deixavam dormir mais.

O Vodafone Paredes de Coura de 2019 já passou e regressa para o ano, com datas fechadas, entre 19 e 22 de agosto. Até lá, um pequeno resumo com o mais marcantes e menos impressionante da edição que terminou no domingo, 17 de agosto.

O bom. Patti Smith

Presenciámos um momento histórico no curso dos festivais de verão portugueses. O concerto de Patti Smith, a última a encabeçar o cartaz de 2019, fez-nos levantar voo, provocou-nos arrepios e ainda conseguiu trazer-nos algumas lágrimas aos olhos. Sem vergonha. É que, como, no dia seguinte, a cantora norte-americana, de 72 anos escreveu na conta de Instagram (também ela comovida pelo espetáculo que deu): “Foi difícil dizer adeus de tão forte que foi a energia e o entusiasmo.”

Entre os temas “People Have the Power”, “Ghost Dance” ou “Because the Night”, houve espaço para Jimi Hendrix, Lou Reed ou Rolling Stones. Gritámos de pulmões cheios em nome de direitos tão importantes — e num risco iminente de nos serem roubados — como a liberdade. Berrámos contra os nacionalismos e a favor da união, um dos valores que mais tende a escassear nos tempos do individualismo.

Ver uma mulher de longos cabelos grisalhos, rodeada de homens, a protagonizar aquele verdadeiro espetáculo de rock fez a nossa veia feminista pulsar a todo o vapor, porque, por mais que se negue, a idade e o aspeto ditam o prazo de validade dos elementos femininos, sobretudo quando se fala num meio artístico, onde o acesso e visibilidade da mulher são reduzidos.

No final, gritámos Patti, porque as despedidas nunca são fáceis, principalmente quando os tempos que se passaram foram bons. Este foi sobrenatural.

O bom. New Order e Joy Division

Também uma das mais aguardadas bandas e, de longe, um dos melhores e mais divertidos concertos de todo o festival. New Order foram New Order, mas também foram Joy Division. Numa viagem guiada pelos nossos pés, tal foi o dançar, mexemo-nos ao som de “Blue Monday”, de  “Bizarre Love Triangle”, de “Temptation” e despedimo-nos com Ian Curtis projetado no ecrã, ao som de “Love Will Tear Us Apart.”

O bom. Capitão Fausto

Ver a banda portuguesa a pisar o palco principal do Paredes de Coura depois da atuação memorável de New Order deixou-nos nervosos. No palco principal, e despretensiosamente, Tomás Wallestein, o vocalista, também acusava o receio, o que é absolutamente normal quando se misturam dois fatores: uma plateia tão grande e um concerto anterior poderoso de uma banda com décadas de história.

Mas os Capitão Fausto sabem lidar com a pressão. Passado o nervosismo inicial, deram-nos o concerto leve e alegre de que todos precisávamos, com os temas que quase todos sabíamos de cor. Abriram com o “Amanhã Estou Melhor”, a escolha mais lógica para pôr a plateia toda a cantar. Seguiram-se outros tão conhecidos como “Corazon”, “Boa Memória” ou “Sempre Bem”.

Olhando em retrospetiva, a organização não poderia ter escolhido uma sequência melhor.

O bom. Pessoas, ioga, livros, ócio e contemplação no Rio Coura

No Paredes de Coura toda a gente se conhece, apesar de ninguém se conhecer. Nas águas gélidas do rio trocamos impressões com a pessoa ao nosso lado, como se fossemos colegas de escola. Na fila para o café metemos conversa e, numa descoberta leve e simples sobre o outro, fazemos o tempo passar e dizemos “até logo”. Tudo isto pode parecer muito banal, mas basta pensarmos em como é que as coisas funcionam nos dias normais das nossas vidas: numa fila de supermercado, por exemplo, mais facilmente reclamamos com a pessoa que está à nossa frente do que nos mostramos curiosos em relação a ela — é que se mostrarmos, tomam-nos por doidos.

Além de simpático, o festival do Minho é também um sítio para contemplar e para sentir os prazeres do ócio. O dia arrancava com uma aula de ioga no relvado do Parque Fluvial do Taboão. Ao contrário do que seria expectável depois de noites de concertos, dezenas de festivaleiros aderiam e lá cumprimentavam o sol. O dia seguia com livros, mergulhos, sestas na relva, conversas e horas em cima de barcos, que seguiam ao rumo da corrente da água, com o som das cascatas como barulho de fundo.

O bom. Sporting Clube Courense

A nossa paragem de eleição, depois de umas horas no rio. Banho tomado, o rumo era sempre o simpático Sporting Clube Courense: a garrafa de vinho é boa e só custa 4€, a cerveja vende-se ao preço normal e tanto o presidente como o vice-presidente da Associação já nos cumprimentam com a familiaridade doce de que gostamos. Nota-se que gostam de receber ali a juventude, tanto que ali nos tratam como filhos: disponibilizam as casas de banho para banhos quentes, todas as fichas possíveis para carregar os telemóveis, sem esquecer o extenso relvado do campo jogo de futebol que, naqueles dias, se transforma numa cama improvisada, sossegada e à sombra para quem precisa de pôr o sono em dia.

O assim assim. A quantidade de gente nas margens do rio

É um ‘assim assim’ muito expectável e pouco maligno. Paredes de Coura recebeu cem mil pessoas em quatro dias, o que se notou na enchente de toalhas dispostas, excessivamente lado a lado, no relvado da praia fluvial. Os estreitos caminhos nas margens do Coura também criavam um trânsito lento. Se voltávamos a passar pelo mesmo? Sem dúvida.

O assim assim. Fila de uma hora para beber café

Mais uma vicissitude benigna, que até deu espaço para trocar impressões com outros festivaleiros ou simplesmente alinhar no estado de contemplação em que muitos outros embarcavam. Só havia duas formas de beber café junto do campismo: ou na banca da Delta, onde o sol nos torrava, ou naquele a que apelidámos “o café no cimo da montanha”, o café-restaurante da praia fluvial. Aqui as filas andavam muito devagarinho. Mas o campista não tem remédio e espera, porque só aquele abatanado malandro é capaz de lhe dar toda a força e determinação para seguir, com toda a animação, mais um dia.

O assim assim. Father John Misty

Father John Misty deu-nos um concerto ameno com uma pitada de apatia, o que nos desiludiu, porque esperávamos mais deste cabeça de cartaz. Houve quem dissesse que ouvir aquela atuação era exatamente como escutá-lo via Spotify. A meio fomos embora — e, segundo consta, parece que não perdemos grande coisa.

O mau. O glamping

O único ‘mau’ que, na verdade, se deveria chamar “terrível”. A empresa de glamping (palavra moderna que junta os termos ‘glamour’ com ‘camping’) foi a maior desilusão do festival. É que, apesar de nestas tendas grandes conseguirmos estar de pé, acampar numa Quechua no local onde todos os campistas acamparam continuava a ser, de longe, muito mais glamorouso do que estar neste espaço.

No site prometia-se água quente e um colchão insuflável. Na realidade a água esteve sempre gelada e a estrutura da cama era semelhante à que se utiliza nas casernas militares — sem esquecer que nunca houve lugar para carregar os telemóveis na receção. O sol às nove da manhã fazia-nos dar um mergulho de cabeça da tenda para a rua, porque pouco faltava para asfixiarmos de calor.

O mais ofensivo? O preço: gerido pela empresa Sleep’Em’All, para uma tenda onde cabiam cinco, pagava-se uma modéstia de quantia de 90€ — por pessoa.

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