Um conjunto de volumes de anatomia, com ilustrações complexas e desenhadas à mão, que mostram o corpo humano, descascado, camada por camada, carregam em si um “enigma moral”, como descreveu à edição online do canal inglês “BBC”, o rabino Joseph Polak, um sobrevivente do Holocausto e professor de direito da saúde.

“Topographische Anatomie des Menschen” — traduzido como “Atlas of Topographical and Applied Human Anatomy” — é um conjunto de quatro volumes assinados por Eduard Pernkopf, um professor austríaco, médico e nazi convicto.

O livro, que ainda hoje é utilizado por médicos, ainda que não seja comercializado, inclui ilustrações capazes de fazer toda a diferença no momento de tratar doentes. Mas carrega um passado negro. Foi montado à custa dos ideais racistas e xenófobos do Terceiro Reich, através do corte e dissecação de vítimas do regime nazi.

Se por um lado há quem considere que os livros estão contaminados pelo “seu passado obscuro” — fazendo com que os cientistas, na sua utilização, esbarrem contra uma barreira ética —, por outro, é inegável que este será, até à data, o “melhor exemplo de desenhos anatómicos do mundo”, escreve a “BBC”.  “É mais rico em detalhes e mais vivido em cores do que qualquer outro.”

Erich Lepier e Karl Endtresser eram os ilustradores que assinavam os livros, junto de símbolos nazi, como a suástica e a insígnia da polícia política, as SS

Da riqueza de pormenores nas estruturas da pele, do músculos, tendões, nervos, órgãos e ossos, foi o que fez a diferença num dos procedimentos levados a cabo por Susan Mackinnon, da Universidade de Washington, nos Estados Unidos.

Diz ao jornal inglês que se sente desconfortável com a origem do livro, mas que, sem ele, não teria conseguido fazer a diferença na vida de uma pessoa, como já fez. Segundo a médica, “nada se compara à exatidão e detalhes do livro”, que é “particularmente útil para cirurgias complexas, porque ajuda a descobrir quais dos muitos pequenos nervos que percorrem o corpo  estão potencialmente a causar dor.”

Quem era Pernkopf e como é que o livro circulou pelo mundo até à década de 90

O conjunto de livros é fruto de um projeto de 20 anos de Pernkopf, um ilustre académico na Áustria, muito graças ao apoio que deu ao partido de Adolf Hitler. Foi descrito como um “nacionalista ardente” que, desde 1938, vestiu, todos os dias, o uniforme do regime nazi para ir trabalhar.

Subiu a reitor da faculdade de medicina da Universidade de Viena, demitiu todos os membros judeus da faculdade, incluindo aqueles a quem já tinham sido atribuídos prémios Nobel. Em 1939 a nova lei do Terceiro Reich fez com que todos os corpos de prisioneiros executados fossem enviados ao departamento de anatomia da faculdade em que este estava, para que pudessem servir de cobaias de investigação e de ensino.

Apesar de o Atlas já estar em andamento, é nessa altura que Pernkopf mais trabalha: todos os dias, passava 19 horas a dissecar cadáveres, enquanto uma equipa de artistas ficava encarregue de desenhar as imagens que viriam a encher as páginas dos seus livros.

Pernkopf e os ilustradores

“Às vezes, o instituto estava tão cheio que as execuções precisavam de ser adiadas”, diz a BBC.

Segundo Sabine Hildebbrandt, da Harvard Medical School, pelo menos, metade das 800 imagens contidas no atlas vêm de presos políticos: homens gays, lésbicas, ciganos, dissidentes políticos e judeus.

Publicado pela primeira vez em 1937, incluía suásticas e a dupla insígnia de raios, que caracterizava as SS, a polícia política nazi. A edição inglesa de dois volumes, publicada em 1964, manteve estas assinaturas originais, que pouco depois vieram a ser retiradas.

Durante anos, milhares de cópias foram vendidas por todo o mundo, tendo os volumes sido traduzidos em quatro idiomas. Os prefácios descreviam os livros como tendo “desenhos pictoricamente impressionantes”, comparando-os a obras de arte.

Até aqui não havia nenhuma referência ao seu passado trágico. Foi só no início da década de 90 que os estudantes académicos começaram à procura de respostas. Quem eram as pessoas daqueles atlas? Tendo a história sido descoberta e divulgada, os livros deixaram de ser vendidos em 1994.

Hoje, de acordo com o Royal College of Surgeons, os livros não são utilizados no Reino Unido, apesar de estarem disponíveis em bibliotecas, por motivos históricos. Ainda assim, uma investigação de 2019 revelou que 59% dos cirurgiões estavam cientes de que os volumes de Pernkopf existiam, sendo que 13% dos inquiridos revelou estar a utilizá-los — destes, 69% disseram sentir-se confortáveis em utilizá-los, 15% sentiam-se desconfortáveis e 17% estavam indecisos.

Susan Mackinnon faz parte dos 15%. “Quando me dei conta da origem contaminada e maligna deste atlas, comecei a mantê-lo escondido no meu armário da sala de cirurgia”, diz Mackinnon, que ressalva que o livro é muito útil para cirurgias complexas. Faz, no entanto, questão de revelar a quem está consigo no blog a origem daqueles manuais.

É moral e eticamente aceitável usar este atlas anatómico nazi?

Em 2018, o rabino Polak e o historiador e psiquiatra Michael Grodin prepararam uma resposta académica com base na ética médica judaica sobre se seria aceitável a utilização do atlas, com base na experiência da médica americana.

“Mackinnon não conseguiu encontrar um nervo e ela é a melhor na sua especialidade. O paciente disse-lhe: ‘Eu quero que a minha perna seja cortada se não conseguir encontrá-lo [o nervo]’ — ninguém quer que isso aconteça”, disse Polak. “Então, ela engoliu em seco e pediu que lhe trouxessem o atlas e Pernkopf. Em poucos minutos ela encontrou o nervo, por causa das ilustrações.”

Os volumes, em diferentes edições, do atlas de Pernkopf

BBC

“Ela [Mackinnon] perguntou-me, como pensador moral, sobre a minha opinião. E eu disse-lhe que, se o livro ajudasse a curar a pessoa em causa e ela lhe pudesse devolver a vida, então que não havia dúvida que o Atlas devesse ser usado.”

Os médicos concluíram então que a maioria das autoridades judaicas permitiria a utilização das imagens para salvar vidas humanas, mas apenas sob a condição de a sua história ser divulgada, de forma a que as vítimas que constituem aquelas imagens pudessem ter alguma dignidade.

Pernkopf foi preso depois da guerra e demitido da faculdade. Foi mantido num campo de prisão de guerra dos Aliados durante mais de três anos. Nunca foi, no entanto, acusado de nenhum crime. Depois de ter ido libertado, regressou à universidade para continuar trabalho em torno do atlas, tendo publicado um terceiro volume em 1952. Em 1955 morreu, pouco tempo antes do quarto livro ser publicado.

Passados 60 anos, este atlas anatómico continua a ser uma das melhores fontes para informações visuais em trabalhos anatómicos e cirúrgicos. “Aqueles que aprenderam a estudar com ele, usam-no sempre que têm dúvidas. Na cirurgia do nervo periférico, alguns cirurgiões acham que esta é uma fonte única e insubstituível de informação”, disse Hildebrandt.

Mas a médica acrescenta: “Não uso as imagens de Pernkopf no meu ensino de anatomia, a menos que tenha tempo para falar sobre a sua história.”

Jonathan Ive, especialista em bioética da Universidade de Bristol, no Reino Unido, concorda com a médica. Considera que este atlas é “surpreendentemente detalhado”, ainda que esteja manchado por um “passado horrível.”

No entanto, tem algumas ressalvas. “Se estamos a usar e a colher os benefícios [dos volumes], isso implica, de alguma forma, que somos cúmplices”, considera. “Mas também podemos argumentar que, ao não ser utilizado, o Atlas iria perder-se e não seria mais um lembrete daquilo que aconteceu.”

Apesar da obscuridade em torno dos livros, estes continuam a ser “uma ferramenta vital”, diz Mackinnon. “Como cirurgiã ética, eu penso que deveria usar-se qualquer recurso educacional que ajude a maximizar um resultado bem sucedido.”