Em 1977, nos Estados Unidos, já se matava violenta e aleatoriamente. O problema é que as autoridades especiais não sabiam como lidar com estes casos e com os suspeitos que, mais tarde, viriam a ser considerados assassinos em série. O nome era adequado porque se referia a pessoas que, além de matar varias vezes durante um período de tempo, pareciam ter um modus operandi específico que os distinguia de outro tipo de homicidas.

A recorrência destes casos e a falta de meios para os compreender obrigou à criação de uma nova unidade especial do FBI que se dedicou a estudar e a perceber a mente de quem cometia os crimes.

É neste contexto histórico que se desenrola “Mindhunter”, a série produzida por David Fincher (“Em Parte Incerta”) para a Netflix e que regressou esta sexta-feira, 16 de agosto, para uma segunda temporada.

Ao longo dos vários episódios, os dois agentes da nova unidade especial viajam pelos vários estados do país para entrevistar alguns dos serial killers mais violentos já presos — e quase todos eles existiram mesmo. É o caso de Ed Kemper que, condenado em 1973 pela morte de dez pessoas, foi uma das figuras principais da primeira temporada.

A segunda temporada acontece em 1977 e um dos entrevistados pelos protagonistas da série vai ser Charles Manson, o líder de um culto que causou o pânico em Hollywood em meados de 1969.

Mas não é o único caso real recordado nos novos episódios. Mostramos-lhe todos os crimes reais que inspiraram a nova temporada de “Mindhunter”.

1. O homicídio de 30 crianças em Atlanta

Entre 1979 e 1981, foram assassinadas pelo menos duas dezenas de crianças negras em Atlanta, no estado de Georgia. Atualmente é um dos crimes mais conhecidos dos Estados Unidos mas, no início, os meios de comunicação não investigaram e as autoridades não agiram — em parte porque não sabiam com que tipo de assassino estavam a lidar.

Matou 30 mulheres, decapitou-as e a história é agora um documentário da Netflix

Em 1982, porém, Wayne Williams viria a ser investigado, e condenado, pela morte de duas das vítimas. Embora não tenha sido possível provar o seu envolvimento nos restantes crimes, as autoridades encontraram provas suficientes para o associar à morte das mais de 30 crianças durante aquele período de tempo.

Como quase todos os casos que envolvem serial killers, também este acabou por ganhar algum mediatismo e gerar polémica quando John Douglas, um dos agentes responsáveis pelo casos, foi acusado pela imprensa de chegar a um veredicto sem que Wayne fosse ouvido pelos tribunais.

É no livro “Mindhunter: Inside the FBI’s Elite Serial Crime Unit”, que inspira a série da Netflix, que o agente recorda o momento em que a polémica começou.

“Dei alguma informação sobre o caso, sobre o nosso envolvimento e sobre a forma como tínhamos chegado ao perfil [de Wayne Williams]. Disse que ele correspondia às característica e acrescentei, cuidadosamente, que caso chegássemos a comprovar que tinha sido ele, que achava que ele seria responsável por uma grande percentagem das mortes. Na sede do FBI tinham todos perdido a cabeça porque parecia que um agente tinha acabado de declarar um suspeito como culpado sem julgamento.”

2. O assassino que enviou cartas à polícia

O serial killer misterioso interpretado por Sonni Valicenti (“The Post”) aparece ainda na primeira temporada durante breves instantes, mas é nos novos episódios que os fãs da série vão conhecer a sua história. Trata-se de Dennis Rader, um homem solitário que matou dez pessoas entre 1974 e 1994 e que conseguiu manter-se longe do alcance da polícia até 2005.

Além de prender e torturar as suas vítimas, Dennis ficou conhecido por enviar várias cartas à polícia e aos jornais locais. O objetivo? Causar o pânico ao descrever a forma como matava as pessoas que escolhia a dedo num processo que podia demorar dias.

O serial killer de 74 anos está a cumprir uma pena de prisão perpétua no estado de Kansas, nos EUA.

3. O assassino que culpou um cão possuído por um demónio

Segundo a revista “Esquire”, a nova temporada de “Mindhunter” também vai investigar a figura de David Berkowitz — conhecido por ter morto seis pessoas e ferido outras sete durante semanas de ataques consecutivos em meados de 1977, em Nova Iorque.

Quem são David Benioff e D. B. Weiss, os criadores de “A Guerra dos Tronos”?

O caso é especialmente insólito pela forma como Berkowitz matou e como se defendeu em tribunal. Só atacava casais que estivessem dentro dos carros e, segundo explicou mais tarde, só o fez porque um cão possuído por um demónio assim o obrigou. Mas o agente John Douglas depressa desmitificou a ideia e fechou o caso, tal como relata no livro.

“A comunidade psiquiátrica aceitou a história dele como se fosse o evangelho por acharem que explicava os motivos. Mas aquilo só surgiu depois de ele ter sido preso. Foi a forma que ele arranjou de se tentar safar. Por isso, quando começou a falar do cão eu disse-lhe: ‘David, deixa-te de merdas. O cão não teve nada que ver com isto’. Ele riu-se e abanou a cabeça como que a dizer que eu tinha razão.”

4. A influência de Charles Manson nos seus seguidores

O trailer da segunda temporada confirmou que uma das figuras entrevistas pelos protagonistas da série vai ser Charles Manson, que sozinho conseguiu influenciar um grupo de jovens a matar e a gerar o pânico por Hollywood em meados de 1969.

Os homicídios que marcaram Hollywood e que inspiram o novo filme de Tarantino

É que apesar de o culto que liderou ter sido responsável por matar nove pessoas em dois dias, Manson só deu as ordens e nunca teve mão direta em nenhum dos crimes.  O líder do culto morreu em 2017 mas ainda hoje continua a servir a cultura popular, a julgar pela quantidade de documentários e filmes que se fizeram sobre o caso.

Damon Herriman (“Perpetual Grace, LTD”), o ator que lhe dá vida em “Mindhunter”, é o mesmo que o interpreta em “Era Uma Vez… em Hollywood”, o novo filme de Quentin Tarantino.