De Chernobyl para Lisboa. “Quando lhe dei uma escova de dentes para a mão, ele escovou o cabelo”

Bogdan Shpak vive na aldeia mais próxima da central de Chernobyl. Cada temporada que passa em Portugal dá-lhe mais um ano de vida.

Bogdan gosta tanto de Portugal que já pediu à Zita para não voltar. "Gostava de vir para cá estudar", conta à MAGG

Zita traz a mão em cima de ombro de Bodan quando se aproximam. Dois beijinhos e um “boa tarde” a uma, dois beijinhos e um “hello” ao outro. “Olá!”, responde de imediato e com entusiasmo. Afinal, depois de cinco verões em Portugal, Bogdan Shpak, de 12 anos, até já diz que o bitoque é o seu prato favorito.

Traz na cabeça um boné com a bandeira nacional e, ainda que baixinho e a medo, todas as palavras desta conversa lhe saem num português quase perfeito. E isto aprendido durante as cinco semanas que passa em Portugal. “Quando chega à Ucrânia, já não tem com quem praticar”, explica Zita Paula, que, com 61 anos, decidiu abrir as portas de casa e da sua vida a uma criança que vive em Zorin, uma aldeia ucraniana dos bosques de Ivankiv, a cidade habitada mais próxima da Central Nuclear de Chernobyl.

É que ainda que Bognan tenha nascido mais de vinte anos depois do maior acidente nuclear alguma vez registado, as consequências são ainda hoje bem reais. E ainda que não existam números oficiais e os estudos continuem a ser desenvolvidos, há quem acredite que os gases libertados durante a explosão na central afetará as onze gerações seguintes.

Bogdan não tem nenhuma doença física, tem um desenvolvimento intelectual dentro da média, mas Zita conta que toda a gente se espanta quando diz que está prestes a fazer 13 anos. “Ele está comigo há cinco anos e, em termos de altura, pouca diferença sentimos a cada ano”, conta.

Zita tem 61 anos e há cinco decidiu receber uma criança de Chernobyl em casa. "Até eu tiver saúde, é para continuar", garante

Mas se de altura a diferença é mínima, em quilos a história muda. “Cada vez que cá vem ganha pelo menos três quilos”, exclama Zita. Bogdan ri-se, mas admite que não há nada como batatas fritas, bife e ovo estrelado. “E bananas”, lembra, ainda que a primeira vez que tenha visto uma tenha sido em Portugal. Aí, chegava a comer três ou quatro de seguida.

Bogdan não sabia o que era um iogurte ou um kiwi. Não sabia comer com dois talheres e nunca tinha lavado os dentes. “Quando lhe dei uma escova de dentes para a mão, ele escovou o cabelo”, conta. Tinha medo do chuveiro, porque na aldeia onde vive não existem casas de banho e ficou a olhar para Zita quando ela lhe deu um pijama para vestir à noite. “A realidade é muito diferente da nossa, mas numa semana ele estava totalmente integrado”, garante.

Com as duas filhas já crescidas, Zita quis experimentar ter um rapaz

Este é já o 11º. ano que Portugal recebe um grupo de crianças de Chernobyl. A ideia surgiu quando o então CEO da Liberty Seguros em Portugal, José António Sousa, soube de um programa semelhante em Espanha e decidiu replicar por cá.

Foi assim criado o Verão Azul, um programa que traz a Portugal jovens com idades entre os seis e os 16 anos, de maneira a interromper o ciclo de radioatividade a que estão sujeitos diariamente, durante todo o ano.

Em 2009 vieram 13 crianças, este ano eram 29. Ao todo, mais de 100 jovens passaram por Portugal e voltaram mais saudáveis, nem que seja um bocadinho. Segundo algumas estimativas, passar um mês longe das zonas afetadas, com acesso ao sol e uma alimentação adequada, pode valer a estas crianças mais um a três anos de vida.

E foi exatamente quando ouviu estes números que Zita decidiu que aquela não era mais uma reportagem sobre Chernobyl que estava a passar na televisão. “Enquanto mostravam pormenores da realidade de lá e da possibilidade de nós, em Portugal, podermos ajudar decidi. ‘Vou avançar”, conta, ainda que nunca pensasse ser uma das escolhidas.”

Mas no dia seguinte recebe um telefonema a perguntar se preferia um menino ou uma menina. “Como tenho duas filhas já crescidas, desta vez decidi escolher um menino.”

E chegou Bogdan, muito calado e assustado, mas com os olhos bem abertos para absorver toda uma nova vida. Não falava uma palavra de português e Zita, no início, munia-se do Google Translate para comunicar. “Pesquisava as perguntas em ucraniano: ‘tens fome?’ ou ‘tens frio?’ e aos poucos fomo-nos orientando.”

As filhas de Zita deram uma ajuda e, além de falarem com ele sempre como se ele percebesse tudo, apostaram nos jogos didáticos. “Compramos o ‘Quem é Quem’ para que ele aprendesse a dizer mulher, homem, velho, novo. Foi um bom arranque”.

Apesar de no início, Bogdan ter estranhado alguns dos hábitos da família portuguesa, Zita garante que agora nunca muda a sua rotina. "Adaptou-se a tudo com a maior das facilidades"

Bogdan aprende rápido e quer sempre saber mais. “Ensinei-o a comer de faca e garfo, a tomar banho na banheira, a escovar os dentes e, dias depois, já não era preciso dizer-lhe nada”, garante Zita. Aliás, não sabe se será geral, mas acredita que teve muita sorte com a criança que lhe calhou. “Se me vê com um saco, vem ajudar, segura na porta para passarmos e não há refeição que faça que não acabe com um ‘obrigado'”, conta.

Cinco semanas que valem por um ano

Zita, que trabalha como secretária do supremo tribunal administrativo, sabe que todos os anos tem que conjugar as férias com a chegada de Bogdan. “Não mudo a minha rotina, mas essas cinco semanas são dele.”

Quando estão em Lisboa, prefere os dias na praia, quando vão para a Beira Alta, onde Zita nasceu, aí é a piscina que ganha. “É tal a alegria que nós nem o vemos”, conta Zita.

Os dias na aldeia são passados na companhia da família, mas nenhum membro e tão importante quanto o avô. “Chama-lhe assim por ouvir as minhas filhas fazer o mesmo”, explica Zita. É com ele que joga ao prego, ao xadrez e às damas. “Já demos com ele no café da aldeia a jogar à bisca dos 9”, exclama. Bodgan ri-se, sempre baixinho, mas os olhos até brilham ao pensar nesses dias passados num campo onde é fácil respirar.

A partida para a aldeia na Ucrânia está quase aí, uma vez que o voo de regresso está marcado para domingo, dia 18 de agosto. Na mochila leva roupa de inverno doada pelos amigos de Zita, para que Bogdan distribua pela família. Mas também leva saudades. “Sabes o que é?”, perguntamos. “É sentir falta quando estamos longe”. Bognan ainda não foi, e já pensa no voltar.

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