Com o número de vegetarianos e vegan a crescer todos os dias, nunca antes se falou tanto das vantagens de ter uma dieta feita com alimentos de origem vegetal. Muitas vezes, é um estilo de vida adotado por questões ambientais, mas também pelos benefícios que traz à saúde. Este último argumento ganha agora novo fôlego com um novo estudo que se foca nos benefícios para o coração.

O estudo, cujo objetivo era perceber a relação entre o tipo de alimentação — de base vegetal ou animal — e o risco de desenvolver problemas cardiovasculares foi publicado a 7 de agosto no Journal of the American Heart Association. Contou com mais de 12 mil participantes com idades entre os 45 e os 54 anos que foram acompanhados entre 1987 e 2016. O estudo foi liderado por Casey M. Rebholz, professora assistente de epidemiologia na escola de saúde pública Johns Hopkins Bloomberg, em Baltimore, nos Estados Unidos.

Os investigadores classificaram os padrões alimentares dos participantes pela proporção de alimentos à base de plantas que comiam, face aos alimentos de origem animal.

Depois de acompanhar a alimentação dos participantes durante 29 anos, os investigadores concluíram que aqueles cuja dieta era baseada num maior consumo de produtos de origem vegetal eram 16% menos propensos a desenvolver uma doença cardiovascular, como um ataque cardíaco, um derrame ou uma insuficiência cardíaca. Além disso, tinham também um menor risco de morrer de qualquer causa de mortalidade (25%) e a percentagem mais significante, 32%, corresponde à diminuição do risco de morrer devido a problemas cardiovasculares.

Para perceber melhor o estudo, a MAGG falou com duas profissionais de saúde: uma nutricionista e uma cardiologista.

A dieta à base de produtos de origem vegetal é igual à dieta vegetariana?

Não. A base da dieta vegetariana são realmente os alimentos de origem vegetal, mas pode ir além disso. “Vemos agora muitos alimentos processados que são vegetarianos e veganos (sem qualquer produto de origem animal), desde as bolachas e os bolos, passando por hambúrgueres e salsichas. Esse tipo de alimentos nunca deve ser a base, porque continuam a fornecer uma quantidade elevada de açúcar, sal e gordura”, refere a nutricionista Ana Isabel Monteiro.

Indica ainda que a dieta vegetariana pode ser uma forma de manter um coração saudável, caso esta seja bem planeada e estruturada. É preciso fazer as escolhas certas entre as inúmeras ofertas (não necessariamente saudáveis) que existem no mercado.

Doença cardíaca isquémica

Mostrar Esconder

Quando as nossas coronárias estão ligeiramente entupidas e o fluxo de sangue que debitam ao coração está limitado. Os sintomas são dor, opressão e peso no peito, causados pelo esforço do coração para trabalhar com o oxigénio insuficiente que lhe chega pelas artérias coronárias.

http://www.fpcardiologia.pt/cardiopatia-isquemica-o-que-e/

Mas há um outro aspeto que a cardiologista Ana Timóteo, aponta: “esta é uma população dos Estados Unidos e se analisarmos alguns padrões analisados, não há peixe. [O estudo] reflete a alimentação dos EUA e não de Portugal.”

Acrescenta que uma dieta não saudável pode levar ao “desenvolvimento de hipertensão, diabetes ou colesterol, que a longo prazo podem provocar enfartes ou outras doenças cardíacas, que podem levar à morte. Logo, uma alimentação menos saudável leva a um maior risco de desenvolver problemas cardiovasculares, que são uma das principais causas de morte em Portugal.”

Os vilões do estudo: produtos de origem animal

A carne, os enchidos, os ovos, o leite são apenas alguns dos exemplos do produtos de origem animal que hoje em dia são considerados os vilões tanto do corpo, como do meio ambiente.

O estudo apresenta evidências quanto à influencia deste tipo de alimentos, associando-os a doenças cardiovasculares. A nutricionista Ana Isabel indica que tal pode ter a ver com um consumo superior de gorduras saturadas e um menor consumo de fibra e gorduras polinsaturadas.

É o consumo regular deste tipo de alimentação que leva ao surgimento “de colesterol, de hipertensão, de inflamação (muito importante no desenvolvimento de doenças coronárias). Por isso, a redução é sempre benéfica”, indica a cardiologista do Hospital Santa Marta.

Além disso, sabemos que a carne que consumimos hoje em dia não tem a mesma qualidade do que aquela que era produzida há alguns anos, uma vez que a indústria alimentar sofreu grandes alterações. E a culpa é de quem? Aparentemente, nossa: “O Homem começou a exigir cada vez mais da indústria. Mais quantidade, mais oferta, mais rapidez, acesso mais fácil. Como seria de esperar, isso teve repercussões. Um frango, por exemplo, fica ‘pronto para consumo’ em semanas, o que prejudica o seu desenvolvimento normal.”

Esta diferença temporal entre a indústria alimentar no inicio do estudo, 1987, e o fim do mesmo, 2016, pode ser um padrão de enviesamento. Ana Timóteo realça que o facto de não sabermos como é que foi a mudança no padrão alimentar dos indivíduos que participaram no estudo, pode ser relevante, limitando em parte a interpretação dos resultados.

5 ideias para tirar o sal do prato, mas manter todo o sabor

“Não temos de ser todos vegetarianos”

Apesar das limitações do recente estudo, este confirma aquilo que muitos outros já haviam indicado: as vantagens de dar prioridade a alimentos de origem vegetal. Tal reflete-se na nova roda dos alimentos, na pirâmide da dieta mediterrânica ou, mais recentemente, no guia alimentar do Canadá, que enche metade do prato com legumes e dá pouco espaço à carne. “Se começarmos realmente a seguir o que evidência científica nos diz, estamos a tempo de reduzir o risco de vir a desenvolver doenças cardiovasculares. E para isso não temos que ser todos vegetarianos!”, refere a nutricionista.

Ana Timóteo está de acordo com esta ideia, até porque o estudo reforça o benefício da dieta rica em alimentos de origem vegetal e não de uma dieta estritamente vegetariana. “O que é bom são dietas equilibradas nos seus componentes. Não devem deixar de ter, por exemplo, peixe, porque têm proteínas.”

A transição para uma alimentação mais amiga do coração (e de todo o corpo) pode começar pela simples redução das porções de proteína animal ou da introdução de alguns refeições vegetarianas no plano alimentar. Pode até começar por experimentar, como exemplifica Ana Isabel, por uma feijoada de legumes — sim, ouviu bem, pode continuar a fazer uma almoçarada em família com feijoada, mas substituindo as carnes e enchidos, por tofu e enchidos vegetais ou simplesmente legumes.

Mas os produtos de origem animal não são os únicos que podem prejudicar o coração. “Alimentos ricos em sal, açúcar e gorduras saturadas, bem como a falta de exercício físico, hábitos tabágicos e alcoólicos”, são outros exemplos de hábitos alimentares e diários, indicados por Ana Isabel, que colocam em risco a saúde cardiovascular.

Mudar hábitos é o primeiro passo

As duas especialistas são unânimes em salientar a importância da prevenção. “Nunca me procuram para prevenir doenças cardiovasculares, mas sim para terem uma vida mais saudável no geral. Felizmente tem havido um aumento de pessoas que querem adotar uma alimentação à base de plantas, o que por si só é bastante positivo, seja por motivos de saúde, éticos ou ambientais”, refere a nutricionista.

A especialista acrescenta que as pessoas não se preocupam com a doença até a terem, situação que se aplica também noutras áreas da saúde: “Quando temos um doente com enfarte, é no momento da alta que pergunta que cuidados alimentares deve ter. Mas quando não há preocupação, cabe ao cardiologista ou médico dar aconselhamento”, conta a Ana Timóteo.

A cardiologista indica que os profissionais de saúde atuam numa primeira instância na promoção de estilos de vida saudáveis para os pacientes, que passam pelo exercício físico e por uma alimentação saudável, baixa em carnes vermelhas e rica em peixe, legumes, vegetais e nozes, por exemplo. Mas quando os riscos são mais severos — como em casos de níveis de hipertensão muito altos — é necessário introduzir fármacos para controlar a condição de saúde.