Além de uma carreira na área da informática, Gonçalo Gouveia, 40 anos, considera-se um aventureiro com um gosto especial pela exploração. Tanto o é que, em meados de 2017, juntou dois amigos e viajou até à Zona de Exclusão — o nome dado à área restrita montada em redor da central nuclear de Chernobyl. No entanto, garante à MAGG, foi numa altura em que a região não era tão popular como agora, referindo-se à nova vaga de turistas em Chernobyl após o sucesso da minissérie da HBO.

Porque nesta coisa das viagens o difícil é abrandar quando se começa a ganhar o gosto, dois anos depois já estava uma próxima a ser planeada.

É que em julho deste ano, Gonçalo e quatro amigos desafiaram-se a conhecer a Rota 66 — uma das estradas mais icónicas dos Estados Unidos que, ao longo de quase 4 mil quilómetros, liga os estados de Illinois, Missouri, Kansas, Oklahoma, Texas, Novo Mexico e Arizona.

Mas além da icónica estrada americana, havia outro desafio: tentar desvendar tudo o que estivesse para lá do alcatrão e que pudesse ser material de reportagem fotográfica.

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A viagem, que custou cerca de dois mil euros e que teve a duração de duas semanas, começou em São Francisco e não em Los Angeles. Segundo João, a explicação é simples: “Como queríamos visitar o Death Valley, fazia mais sentido partir de São Francisco do que Los Angeles, que nos obrigaria a voltar para trás.”

Alugaram um carro, um Ford Explorer 4×4 que viria a revelar-se fundamental, e fizeram-se à estrada sem terem hotéis marcados.

“Tínhamos a noção de que iríamos avançar cerca de 700 a 800 quilómetros por dia e, por isso, não era possível calcular ao pormenor onde é que iríamos acabar. O que ficou definido foi que ninguém marcava hotel e, à medida que fôssemos avançando, víamos na Booking que hotéis havia nas zonas onde parássemos”, explica.

Apesar de a viagem ter demorado duas semanas, Gonçalo garante que precisava de, pelo menos, mais uma. “Planeámos duas semanas e acabou por ser um tempo muito curto. Percorremos 6.400 quilómetros em apenas duas semanas, o que implicou estarmos sempre com pressa”, lamenta.

Por causa deste tempo limitado, estabeleciam um limite máximo de tempo para estarem parados num determinado local a fotografá-lo. Ainda assim, não tem dúvidas de que foi uma das viagens mais marcantes que fez. Em parte, muito devido ao grupo onde, segundo conta, “sempre imperou a boa disposição”.

E o que encontraram foi uma panóplia de locais, de objetos e de paisagens que lhes eram estranhamente familiares. “São cenários e outras pequenas coisas que todos já vimos em séries ou filmes de televisão mas com os quais nunca tínhamos estado em contacto de forma direta”, explica. E talvez por isso tenha sido tão especial, mesmo nos momentos mais caricatos.

Os cinco amigos desafiaram-se a percorrer a Rota 66 e tudo o que havia para lá da estrada icónica dos Estados Unidos

Gonçalo Gouveia

É que, a meio da viagem e já depois de terem atravessado dez estados, o grupo liderado por Gonçalo foi mandado parar por um xerife. “Estávamos numa autoestrada do Oklahoma e vimos um xerife que, no meio de tantos carros, decidiu pôr-se atrás de nós a fazer sinais para pararmos”, conta.

“Encostámos na berma, sem perceber muito bem o que tínhamos feito de errado, e esperámos”, e é neste momento que o xerife sai do carro com um série de características que já todos vimos antes. “Saiu do carro com o seu chapéu e as botas, típico à filme, e pediu-nos os documentos. Perguntou o que estávamos a fazer e, assim que percebeu que éramos turistas e que estávamos a percorrer a Rota 66, fez uma pausa.”

Depois do silêncio, o alívio. “Ok, podem seguir”, terá dito. Apesar de nada de errado ter acontecido, a situação foi tensa. Ainda que não tenham percebido a razão para terem sido parados, Gonçalo suspeita que tenha que ver com a matrícula do carro — que tem sempre identificado o estado a que pertence.

“Ele deve ter estranhado uma matrícula de Califórnia estar em circulação em Oklahoma [dois estados separados por mais de 2 mil quilómetros], mas correu tudo pelo melhor. Mas facilmente podia ter dado para o torto “, conta.

A pergunta “que parte da viagem mais o marcou?” não tem uma resposta única, mas Gonçalo, com esforço, lá consegue identificar um momento que, na verdade, semultiplica por muitos mais: “A diferença de paisagens de estado para estado”, explica.

"(...) aquilo que mais fascinou foi ver a diversidade de paisagens e de temperaturas à medida que atravessávamos os vários estados do país", revela Gonçalo

João Oliveira

“Quando saímos de São Francisco para Yosemite Park [Califórnia], uma zona muito montanhosa, vimos neve. Estávamos no início de julho. Cerca de 70 ou 80 quilómetros depois, já no Death Valley [a este de Califórnia], encontrámos temperaturas absurdas, uma paisagem deserta e muito seca. Já no Colorado, por exemplo, havia muitas zonas verdes. Sem muito esforço, aquilo que mais fascinou foi ver a diversidade de paisagens e de temperaturas à medida que atravessávamos os vários estados do país.”

Os outro quatro amigos são João Oliveira, Carlos Ferreira, Paulo Santos e António Guimarães que, tal como Gonçalo, selecionaram, em exclusivo para a MAGG, o local preferido de toda a viagem. E têm fotografias para explicar os motivos da preferência.

The Racetrack. O deserto onde as pedras se movem sozinhas (Gonçalo Gouveia)

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Gonçalo Gouveia escolheu o The Racetrack, uma das zonas mais misteriosas e de difícil acesso do deserto de Death Valley.

O local é conhecido como o deserto onde as pedras se movem sozinhas devido aos blocos de gelo que, no inverno, se formam durante a noite e que descongelam com o calor do dia. Segundo conta, o receio de não conseguir lá chegar começou ainda muito antes de a viagem começar.

“Lemos vários comentários, geralmente de americanos, que diziam que aquilo era muito complicado: que tínhamos de ter veículos 4×4 e que muitos turistas não tinham conseguido lá chegar porque os pneus rebentavam.” O cenário não era animador mas tinha uma mística importante — até porque nenhum dos cinco sabia se local poderia estar vedado pelas autoridades.

Da estrada de alcatrão ao trilho de terra batida que era necessário percorrer até chegar ao deserto, foram entre 70 a 75 quilómetros e a viagem demorou uma noite inteira.

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“Avançar de noite era poupar tempo. Assumimos que não íamos dormir e fizemo-nos à estrada com algumas pausas pelo meio e muitas delas para tirar fotografias às estrelas”, conta. Depois de arrancarem às 19 horas, chegaram ao destino por volta das 7 da manhã do dia seguinte, com apenas duas horas de descanso dentro do carro.

É que apesar de terem levado sacos de cama, não se atreveram a sair do veículo para os usarem no solo do deserto onde, explicam, teriam ficado muito mais confortáveis.

“No deserto de Death Valley há tarântulas, viúvas negras e cobras venenosas. Sabíamos de tudo isso quando assumimos que essa noite não seria passada num hotel e cheguei mesmo a ver uma viúva negra durante a viagem”, revela.

Assim que chegaram, os sorrisos e a alegria. “Tínhamos acabado de chegar a um dos sítios icónicos dos EUA, onde nem todos chegam, por isso foi um dos pontos altos desta viagem”, e Gonçalo recorda uma zona totalmente isolada do resto do mundo.

“Não se ouve nada. Há um silêncio profundo e assemelha-se quase a um cenário apocalíptico porque não se veem pessoas, casas ou animais”, explica.

Entre as 7 e as 10 horas da manhã, o grupo tirou fotografias e aproveitou para explorar numa altura em que as temperaturas rondavam os 20 graus e estavam “razoavelmente agradáveis”. Na viagem de volta, no entanto, eram 12 horas quando o termómetro do carro chegou a alcançar os 44 graus.

A Cidade Fantasma de Chloride (António Guimarães)

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António Guimarães, informático de 47 anos, garante à MAGG que cada um viveu a viagem à sua maneira “mas havia um ponto em comum à volta do qual todos orbitavam”: a estrada.

“Por muito que nos desviássemos da Rota 66 havia sempre alguém no grupo que perguntava se lá iríamos voltar. Era o Gonçalo, responsável por guiar o grupo via GPS, que se apressava a acalmar-nos e a dizer que sim”, recorda. Para António, percorrer aquela estrada é esquecer o mundo real e imaginar-se num Hollywood de há várias décadas ou num contexto onde a exploração do ouro e da prata era o que fazia a economia dos EUA avançar.

Mas um dos locais que mais lhe ficou na memória foi, sem dúvida, a Cidade Fantasma de Chloride, em parte porque lhe permitiu reviver de perto a infância. “Revi-me nos cenários de filmes do faroeste e recordei os apaixonantes desenhados animados que via muitas vezes em criança, como Lucky Luke”, conta.

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Chloride foi fundada em 1863 e ainda hoje é considerada a cidade mineira mais antiga do estado de Arizona, onde a exploração de materiais como a prata foram fundamentais para a economia da região e do país. O facto de ser considerada uma cidade fantasma não é por acaso: é que embora já tenha sido habitada por mais de 100 mil pessoas, em meados de 2000 já só lá viviam cerca de 350 habitantes.

“Apesar dos poucos habitantes, encontrámos lá um casal que, com muita paciência e simpatia, nos ajudou a recriar algumas das cenas mais icónicas dos nosso filmes”. Mas diz que sair da cidade “foi um problema”, principalmente porque havia muita coisa para ver e para fotografar.

“Enquanto o Gonçalo procurava bombas de gasolina abandonadas, o João conversava com o casal da aldeia que nos ajudou e o Paulo via-se em dificuldades para tentar filmar um habitante embriagado que estava à volta de um velho carro abandonado”, recorda.

O deserto de Monument Valley (João Oliveira)

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O local escolhido por João Oliveira, informático de 47 anos, foi o deserto de Monument Valley onde estiveram, sem saber se podiam, durante toda a noite. Chegaram ao local ao final do dia e o hotel onde tinham previsto dormir estava esgotado. Ainda assim, João não tem dúvidas de que isso foi o melhor que podia ter acontecido.

“Queríamos aproveitar o final do dia, a noite e o amanhecer no Monument Valley”, por isso dirigiram-se até à entrada que só permitia veículos às 20 horas. “Será que podemos passar a noite no parque?”, foi a dúvida que permaneceu em todos os membros do grupo à medida que conduziam, lentamente, pelo trilho de terra batida entre as rochas.

Depois de completarem o percurso, o grupo parou para jantar e aguardou, de forma despercebida, pela noite cerrada. O receio era que fossem convidados a sair se descobertos por algum responsável pela manutenção do local turístico.

“Foi divertidíssimo tentar desligar as luzes automáticas do carro para que não nos descobrissem ao longe. Com tanta preocupação, acabámos a ativar o alarme [risos]”. Mas o grupo nunca foi expulso e isso permitiu conhecer um local que, embora já conhecessem do cinema, é único.

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“A noite estava fria mas ninguém sentiu isso enquanto as temperaturas não desceram para os oito graus. O amanhecer, com a luz do sol a pintar com cores quentes todas aquelas paredes naturais, foi arrebatador”, conta João.

Além dos cenários que fotografou, explica que foi a simpatia das pessoas que tornou a viagem ainda mais “mágica”. “Quando não conheciam Portugal, rematávamos com Cristiano Ronaldo e ficava tudo resolvido”, e recorda uma senhora habitante de uma aldeia rural que os surpreendeu. 

“Abordou-nos enquanto fotografávamos e deu-nos bolos caseiros servidos numa bandeja. Além da simpatia, descobrimos que era uma senhora que conhecia muito bem Portugal e a história dos Descobrimentos. Foi uma agradável surpresa.”

O Grand Canyon (Carlos Ferreira)

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Carlos Ferreira, informático de 47 anos, decidiu aventurar-se pela e para lá da Rota 66, porque cresceu com o imaginário do faroeste no cinema e dos livros de banda desenhada. Além disso, diz à MAGG que um dos seus hobbies é fotografar e esta viagem de duas semanas, a primeira de Carlos fora da Europa, permitia conciliar tudo isso.

“Foi a viagem da minha vida”, diz Carlos que escolheu o Grand Canyon como o seu local preferido. Especialmente, continua, por revelar “a força da natureza em bruto onde a paisagem, em toda a sua essência, não tem dedo humano.”

O céu vermelho e o local icónico ficou registado em fotografias, mesmo que Carlos fosse muitas vezes pressionado por António, que ficou conhecido como “o homem dos bifes”.

“Mesmo para tirar fotografias à Horseshoe Bend [a curvatura em forma de ferradura de cavalo que divide o rio de Colorado e o deserto] tive sempre o meu amigo, António Guimarães, a pressionar para irmos embora porque, às 19h30, achava que não ia haver restaurantes abertos com bifes e café expresso. Mas eu não podia perder os tons vermelhos pintados no deserto pelo sol”, recorda.

No final do dia, António conseguiu comer “um bife enorme” e Carlos tirou as fotografias que tanto queria e que o deixaram deslumbrado. À pergunta “voltaria a percorrer mais de 6 mil quilómetros?”, Carlos não tem dúvidas. “Sem hesitação e com o mesmo sorriso nos lábios”, garante.

A Cidade Fantasma de Gold King Mine (Paulo Santos)

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Paulo Santos, técnico de redes informáticas e com 43 anos, garante que embora os cenários sejam montados é ver ali algum interesse. Nem que seja pela forma como transmitem “um pouco de como foi o auge da mítica estrada” com oficinas, bombas de gasolina e carros típicos.

“Um dos pontos positivos da viagem foi ter sido feita em pleno verão. Como estava muito calor, não apanhámos enchentes de turistas e isso permitiu fotografar alguns dos locais praticamente vazio.” Mas garante que nenhum dos destinos o surpreendeu.

“Vejo estes locais como sítios turísticos que, por já terem sido fotografados e as imagens terem sido disponibilizadas na internet, acabam por perder o efeito surpresa. Já sabemos ao que vamos e todos os locais estão preparados para o turista ver. São giros apenas por serem muito diferentes daquilo que vemos da Europa e da ideia que nos dá do passado”, explica.

Apesar disso, Paulo destacou a Cidade Fantasma de King Mine por ser uma antiga aldeia mineira, fundada em 1890, por uma empresa que procurava extrair cobre a uma profundidade de 1.200 pés abaixo do solo. Só que durante as escavações, houve um twist: é que ao invés de cobre, encontraram ouro.

Uma das características da localização é que, mesmo depois de a mina ter sido encerrada em 1981, “o terreno foi comprado pelo atual proprietário que a manteve tal como ela ficou depois do fecho.” Isso permitiu que, ao longo dos anos, o local servisse como uma espécie de museu de vários carros e objetos antigos.

“Existem ali mais de 180 veículos vintage juntamente com equipamentos da mina, edifícios históricos e um moinho que foi usado para esmagar o minério [um conjunto de minerais]”, recorda. A cidade fantasma está localizada a cerca de 140 quilómetros a sul da Rota 66 — à qual voltaram depois de tiradas todas as fotografias.

“Mesmo sendo um local turístico, há pontos interessantes. Especialmente para quem gosta de fotografia, como eu. Os cenários transportam-nos para outra época e é algo que não encontramos na Europa.” Um sentimento partilhado por todos os cinco membros do grupo.