Apesar de ter manipulado os seus seguidores de forma a cometerem uma série de homicídios violentos e aleatórios, Charles Manson não matou nenhuma das nove pessoas durante o verão de 1969 que marcou Hollywood. Conseguiu sim corromper um grupo de pessoas, que cometeram os crimes que continuam a chocar, mesmo quando inseridos no contexto de um país historicamente violento como os Estados Unidos.

Cerca de 50 anos depois, Manson e o seu culto continuam a servir a cultura popular mesmo depois da morte do líder em 2017. Se dúvidas houvesse, basta olhar para os filmes, séries e documentários que se fizeram na última década e que usam a figura de Manson como inspiração ou como veículo para contar uma história.

Os exemplos mais recentes são “Mindhunter”, a série da Netflix, e “Era Uma Vez… em Hollywood”, o novo filme de Quentin Tarantino que se desenrola em 1969 — altura em que Sharon Tate foi assassinada pelos jovens que obedeceram aos mandamentos do líder e mataram nove pessoas sem remorsos.

O impacto das mortes transpôs fronteiras. Segundo escreve o “Observador”, a notícia chegou a Portugal através do “Diário de Lisboa” que, à boleia da informação que era libertada pelas agências de notícias internacionais, abria assim a primeira página do diário de 10 de agosto de 1969: “Morte trágica de vedeta americana Sharon Tate. Encontrada assassinada ontem na sua residência californiana. (…) Com o corpo da atriz, foram encontrados os cadáveres de quatro amigos seus.”

As autoridades desconfiaram de um dos criados da casa que Sharon Tate partilhava com o realizador polaco Roman Polanski, mas depressa a teoria perdeu força. É que no dia seguinte, a 9 de agosto, duas novas mortes apresentavam o mesmo modus operandi usado anteriormente,

Durante dois meses, até meados de outubro, as investigações levaram a novas suspeitas que nunca se concretizaram em detenções e, embora não admitisse, a polícia não sabia quem tinha cometido os crimes. Só quando Charles Manson e os seus seguidores foram presos pelo furto de um carro é que a história começou a ser escrita.

Segundo a revista “Rolling Stone”, a investigação mudou por completo quando Susan Atkins, uma discípula de Manson, comentou como foi estar envolvida no assassinato de Sharon Tate. A investigação, como hoje a conhecemos, começou a ser desvendada naquele preciso momento — e totalmente por acaso.

Do verão do amor à violência

Mas é preciso recuar até meados de 1967 para perceber o efeito que Manson teve naqueles que, mais tarde, o viriam a idolatrar.

Nesse ano, e recém libertado da prisão, Charles tornou-se num guru espiritual, numa altura em que o chamado Verão do Amor — o movimento hippie que juntou mais de 100 mil pessoas em São Francisco, EUA, e no qual se propagavam ideias de rejeição aos poderes governamentais e ao consumismo em prole da valorização da arte — já estava a decorrer.

Algumas das mulheres que pertencerem ao culto liderado por Charles Manson

Os jovens que se deixaram cativar fizeram-no porque Manson era o único capaz de lhes dar aquilo que eles mais procuravam: uma sensação de pertença num mundo em fase de mudança.

Segundo James Day, realizador do documentário “Manson: The Women”, o impacto que Charles Manson teve naqueles jovens teve que ver com o facto de ter sido capaz de pô-los a olhar para eles próprios outra vez.

“Se fosses até ele com o intuito de encontrar uma figura paternal ou um messias, era isso mesmo que ele te dava. E ele tinha noção do efeito que tinha junto daqueles que o procuravam. Há uma ideia errada de que o Manson andava por Califórnia a recrutar adolescentes para os transformar em assassinos. O que aconteceu é que aqueles jovens estavam à procura de uma ligação e encontraram-na não só com o Manson, mas com todo o grupo”, explica à revista “GH”.

O culto, como viria a ficar conhecido, estabeleceu-se em Los Angeles em 1968 e era formado por pessoas que passavam os dias a assistir às palestras e a ouvir conselhos espirituais do seu líder. Pelo meio havia consumo de drogas e o sonho de um futuro na música.

“A história de Manson passa-se durante dois anos. As pessoas com quem falei e que estiveram lá dizem que o primeiro ano foi incrível. Havia muito carinho e apoio entre todos. O Manson era simpático, engraçado e boa companhia. Depois as coisas pioraram em julho de 1969 e foi aí que começou o declínio”, revela o realizador à mesma publicação.

A primeira vítima do grupo foi Gary Hinman, o músico que Manson descobriu tinha acabado de herdar cerca de 20 mil dólares (17 mil euros). O guru ordenou a Bobby Beasoleil e Susan Atkins, dois dos seus seguidores mais fiéis, que lhe extorquíssem o dinheiro — mas quando Gary se recusou, mataram-no. Estávamos a 27 de julho de 1969.

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Mas a violência não se ficou por aqui e a história diz-nos que só escalou a partir daquele momento. A 9 de agosto de 1969, Manson pediu aos seus seguidores que se deslocassem até à casa 10050 Cielo Drive e matassem todos aqueles que estivessem lá dentro.

Embora lá morassem Sharon Tate, grávida de oito meses, e Roman Polanski — que estava fora —, a casa pertencia a Terry Melcher, um produtor musical que se recusou a fazer um contrato com Manson. É que o guru espiritual tentou fazer vida da música, escrevendo vários canções e associando-se a vários compositores da cena musical emergente em Los Angeles, tendo os Beatles como influência principal.

Quando os seguidores bateram à porta da 10050 Cielo Drive, o que encontraram foi uma estrela de cinema grávida e quatro amigos. Nenhum deles sobreviveu e o sangue de Tate serviu para que Atkins, não contente com as mortes que tinha causado, escrevesse palavra “pig” (porco, em português) na porta da casa.

Charles Manson em 1969

AP

Na noite seguinte, seria outra casa a ser invadida na zona rica de Los Angeles onde moravam Leno e Rosemary LaBianca. Charles Manson esteve presente e orquestrou aquilo que parecia ser um assalto mas, depois de recolhidos todos os objetos de valor, abandonou a casa e esperou os seus seguidores no carro — que tinham ficado responsáveis de matar o casal.

A profecia de uma guerra racial

Os assassinatos abalaram os EUA e Charles Manson foi considerado uma das figuras mais irreverentes e polémicas de um movimento de contra-cultura no país.

É que terá sido através das várias palestras que o guru transmitia a ideia da iminência de uma guerra racial que ia opor brancos e negros. “Ele disse-lhes que os negros começariam a atacar brancos e, enquanto isto acontecesse, a família Manson iria esconder-se em caves. Quando o conflito terminasse, Manson acreditava piamente que seria capaz de liderar aqueles que restassem”, escreve a revista “GH”:

O argumento lançado pela acusação em tribunal, depois de Susan Atkins ter admitido o envolvimento na morte de Sharon Tate, é que assim que Manson se apercebeu que a carreira na música não tinha futuro, decidiu “focar-se na violência” pela qual ficou conhecido.

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A explicação pareceu satisfazer aqueles que procuravam uma resolução para o caso e Manson foi condenado à pena de morte pelo seu envolvimento nos crimes. No entanto, a sentença passou a prisão perpétua depois de as leis da Califórnia terem abolido a medida.

Apesar do seu envolvimento nos crimes, o realizador James Day não tem dúvidas de que a figura de Manson já serve com personagem americana. “Estamos a vê-lo em t-shirts e em filmes. Parece que se tornou nesta personagem caricaturada de uma pessoa americana e acho que muitas pessoas se esqueceram de quem ele realmente é e daquilo por que foi condenado”, conclui.

O imaginário de Charles Manson e o seu impacto em Hollywood e nos EUA volta a ser recordado em “Era Uma Vez… em Hollywood”. O novo filme de Quentin Tarantino estreia-se em Portugal já na quinta-feira, 15 de agosto (ainda que haja alguns cinemas a antecipar a estreia para dia 14, como é o caso do Cinema Nos Amoreiras ou El Corte Inglés).