Afinal, comprar alimentos importados não prejudica assim tanto a pegada de carbono

Não se sinta mal por comer laranjas do Brasil, em vez das algarvias. O mais importante é consumir alimentos da época.

Para os consumidores ingleses, as frutas mais amigas do carbono são as bananas da República Dominicana, as maçãs da Nova Zelândia e as laranjas do Brasil

Nos últimos tempos ouvimos falar de várias alternativas para reduzir a pegada de carbono, e entre elas tem-se dado destaque à compra de produtos locais, em vez dos importados. Mas a verdade é que a pegada de carbono pode não estar assim tão em causa quando compra uma banana vinda da República Dominicana. Pelo menos é o que diz o professor Dave Reay, cientista climático na Universidade de Edimburgo, que a 10 de junho lançou o livro “Comida Climática Inteligente”. O livro sugere que a forma como os alimentos são transportados é um fraco indicador sobre a pegada total de carbono de um produto e pode mesmo ser enganador.

“A mensagem sobre o transporte de alimentos é um pouco mais subtil do que às vezes é apresentada”, refere o professor ao jornal “The Independent”. Para o investigador, a mensagem deve ser convertida: em vez de se dizer para comprar local, deve-se aconselhar a compra de alimentos da época. Pode por isso começar a apostar, uma vez que estamos no verão, no melão à venda em qualquer grande superfície, mercado, ou até mesmo à beira da estrada quando está a caminho da praia.

Cada alimento a seu tempo

Para os consumidores do Reino Unido, as frutas mais amigas do carbono são as bananas da República Dominicana, as maçãs da Nova Zelândia e as laranjas do Brasil. “Quando olhamos para o ciclo de vida, o transporte de comida não é uma parte importante. O que importa é a forma como foi produzida e como as pessoas a usam quando chega ao Reino Unido”, diz o professor ao jornal inglês.

Os fertilizantes, os pesticidas e o combustível usado pelas máquinas durante a colheita são os grandes vilões da pegada de carbono. São também os responsáveis por 60% da pegada de carbono logo no início do ciclo de vida de uma laranja que parte de barco no Brasil em direção ao Reino Unido.

O barco é um dos transportes ideais, já que a pegada é significativa quando os alimentos são transportados de avião. “É quando a pegada dos alimentos sobe absolutamente em termos de emissões. Devíamos ter uma proibição total da frota aérea”.

Para perceber melhor, o professor compara as emissões de carbono de uma caixa de amoras: 100g de produção deste fruto produzido localmente ou importado por navio, significa uma produção de cerca de 100g de dióxido de carbono. Se o transporte for feito de avião, este valor aumenta dez vezes, o que se traduz numa pegada de carbono superior a 1kg. Por isso, o professor aconselha que frutas frescas, como as framboesas e os mirtilos, não sejam consumidas fora de época.

Mas vamos continuar a acompanhar o caminho da laranja. Já no Reino Unido, esta é transformada muitas vezes em sumo e é aqui que percebemos o impacto da pegada de carbono tendo em conta a forma como as pessoas usam os alimentos. “No país de consumo, o sumo recebe um grande volume de água se necessário, é embalado e enviado para as nossas lojas”. Por isso, aquele sumo de laranja que consome com umas pedras de gelo a acompanhar com o pão do pequeno almoço, implica uma pegada global de carbono que varia entre o equivalente a 100 gramas de dióxido de carbono por um copo de sumo concentrado e até 400 gramas para os tipos mais caros de sumo natural.

Como converter a situação? “Reduzir o lixo doméstico e melhorar a eficiência do uso de água e fertilizantes nas quintas, destacam-se entre as formas de reduzir a pegada de carbono do sumo de laranja.”

A melhor opção: alimentos da época

“Se apenas assumir que tudo o que está mais próximo de si é melhor, e se pensa que esses mirtilos ou esse pepino produzidos em janeiro na Holanda serão baixos em carbono, eles não serão. Vai ser uma produção intensiva com uma pegada de carbono alta”, refere ao jornal inglês. No fundo, a pegada de carbono dos alimentos será agravada se estes forem exportados de um país onde o clima está correto naquela época do ano.

Além de escolher alimentos da época, o Reay destaca na conclusão do seu estudo: “É a quantidade de carne e de produtos lácteos que consumimos que domina a pegada de carbono da nossa comida.”

Contudo, Derek Stewart, professor e especialista no setor agroalimentar do Instituto James Hutton, faz uma crítica ao livro de Dave Reay. De acordo com o jornal “The Independent”, apesar de Derek achar o livro interessante, considera que alguns dos dados podem ser contestados já que o professor baseou-se apenas nas emissões de dióxido de carbono. Ora, não são apenas estas que estão envolvidas na pegada dos alimentos. O professor indica ao jornal inglês que o combustível usado pelos navios emite o nitrogénio e o enxofre que têm um impacto ainda maior sobre o gás do efeito de estufa do que o dióxido de carbono por si só.

“Num mundo ideal, o carbono envolvido na produção e no transporte seria comunicado ao consumidor nos produtos alimentares para que eles pudessem tomar decisões informadas. Mas, na ausência disso, comer produtos da estação pode ser um bom guia”, refere ao mesmo jornal, Eugene Mohareb, professor de sistemas urbanos sustentáveis ​​na Universidade de Reading.

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