Não há posturas complicadas nem respirações difíceis de coordenar. Não há mantras nem roupas feitas especialmente para a prática. Mas não é isso que é importante. “O importante é estar presente e tirar aqueles minutos para esquecer o resto”, lembra Inês Afonso, a cara por detrás do Yoga Beyond the Mat, um perfil que criou para divulgar as suas aulas de ioga que, agora, têm um grupo de alunos especiais: os refugiados que chegam a Lisboa.

Atualmente com 27 anos, Inês começou a praticar ioga há cinco, “mas de uma forma pouco disciplinada”, conta à MAGG. O verdadeiro contacto com a prática deu-se quando foi para Londres viver, onde conseguiu conciliar o trabalho numa galeria de arte com um aprofundar sobre as diferentes técnicas do ioga.

Mal chegou a Portugal, tirou a formação de professora e, no mesmo ano, começou a dar aulas. Primeiro, eram os amigos as cobaias, mas não tardou até ter interessados em aulas particulares e escolas a cederem-lhe um lugar no horário.

Mas Inês há muito que se dedicava ao voluntariado, e chegou até a passar temporadas no Brasil e em Itália, onde trabalhou junto de crianças ou em bairros mais carenciados. E foi num desses projetos que viu, pela primeira vez, o ioga a ser usado como ferramenta para a inclusão social.

Com esta experiência e com o curso de professora na mão, contactou instituições onde pudesse oferecer este serviço de forma voluntária. Chegou a fazê-lo com crianças em Lisboa, numa associação que organizava atividades extra-curriculares em bairros desfavorecidos e, mais recentemente, dedica o seu tempo livre a ensinar a prática a refugiados acabados de chegar a Lisboa.

Há uma nova escola de ioga em Lisboa — e esta parece uma casa

As aulas acontecem às quartas-feiras no Centro de Acolhimento Temporário de Refugiados (CATR), no Lumiar, e Inês conta que, mesmo sem falarem a mesma língua, a comunicação flui. “O ioga é uma ferramenta muito poderosa”, garante. Já deu aulas a refugiados que chegaram recentemente da Somália e da Costa do Marfim e que ainda não falam português. “Mas por gestos, por imitação, tudo acontece”, garante.

Durante aquela hora, a prática é leve, sem posturas complexas, porque o mais importante, considera, é que aquele seja um espaço de refúgio. “Se lhes der uns minutos de bem-estar já fico feliz”, diz à MAGG.

Inês não quer ser a única e acredita que haverá mais professores de ioga a querer ajudar. “Eu posso ser o meio de comunicação entre as instituições e os professores dispostos a ceder uma ou duas horas da sua semana a este projeto”, esclarece. Qualquer dúvida, a Inês está beyond the mat.