Editorial. O grande problema da greve dos motoristas somos nós

Desacatos, discussões, filas intermináveis e jerricãs na mala do carro. Transformámo-nos em animais e a greve dos motoristas nem começou.

O apocalipse está a chegar, portanto não há nada como comprar 22 latas de atum, 32 de salsichas e água engarrafada até mais não

A poucos dias do início da greve, o caos. Começou com a corrida às bombas de gasolina: de repente toda a gente tinha o depósito vazio e precisava de atestar, ou pelo menos era o que diziam aos jornalistas. Por segurança ainda tinham uns quantos jerricãs na bagageira, porque, senhor, nunca se sabe o que pode acontecer. Na segunda-feira pode ser necessário ir a Bragança, mesmo que nunca tenha ido a Bragança e o trabalho seja feito sempre atrás de uma secretária. Como bons portugueses que somos, a velha máxima “mais vale prevenir do que remediar” é o mote que nos acompanha todas as manhãs, juntamente com o pastel de nata e a meia de leite.

Começou com a corrida às bombas de gasolina, dizia eu, continuou com a maratona aos supermercados. O Apocalipse está a chegar, portanto não há nada como comprar 22 latas de atum, 32 de salsichas e água engarrafada até mais não. Imagine-se que somos atacados por zombies e não há nada nos supermercados? Se calhar é melhor atirar também uns dez pacotes de sumo para o carrinho e 20 embalagens de pão fatiado. Vai na volta ainda é preciso ir mesmo a Bragança, e ai Jesus se alguém faz uma viagem dessas sem sandes na geleira.

Não vou discutir a legitimidade da greve ou se as exigências dos motoristas fazem sentido ou não. Só tenho pena que em Portugal as greves sejam feitas sempre da mesma forma, prejudicando quem não tem responsabilidade nenhuma sobre o assunto. Os condutores da CP fazem greve, nós chegamos tarde ao trabalho depois de duas horas enfiados no sovaco de alguém. Os enfermeiros fazem greve, as operações que estavam marcadas há cinco anos, três meses e nove dias são adiadas. Mas pronto. Isso é tema para outro editorial. Como disse, não é por aí que quero ir.

Voltando ao bom do português — não confundir com a rubrica da RTP, em “Bom Português”, refiro-me ao bom “do” português —, nestes últimos dias já vimos um bocadinho de tudo. Na quinta-feira houve desacatos na Damaia quando um homem tentou encher um grande bidão com combustível. Nesse mesmo dia voltou a acontecer o mesmo, e exatamente pela mesma razão, em Almada. Multiplicam-se as fotografias das filas para abastecer, já há falta de combustível e, senhores, a greve ainda nem começou. O que vai acontecer na segunda-feira? Começam as pilhagens, só pode. É que com 22 latas de atum e 32 de salsichas em casa, vai na volta alguém se apercebe que se esqueceu de comprar natas e está o caldo entornado.

O pior problema da greve dos motoristas somos nós. O pior problema da greve dos motoristas somos nós que, movidos pelo medo e pela ganância, nos transformámos em autênticos animais. Nós, que corremos para as bombas de gasolina de jerricã na mão, mesmo que o nosso carro esteja parado há meses ou nem precisemos dele para nada. Nós, que corremos para os supermercados e atafulhamos o nosso pequeno T1 de enlatados. Nós, que nos tornamos seres egoístas e desenfreados, que começamos aos gritos uns com os outros sem sabermos exatamente porquê.

Haja juízo, caramba. Se têm o depósito quase cheio, têm alternativas para chegar ao trabalho ou nem sequer usam assim tanto o carro, para que é que vão a correr para as bombas de gasolina? Se têm comida em casa, porque é que vão para os supermercados apanhar tudo o que são alimentos com datas de validade longas, como se estivéssemos prestes a entrar em guerra? É uma greve. E é a vossa falta de bom senso que está a tornar isto tudo um caos porque, mais uma vez, isto ainda nem sequer começou e já temos mais de 280 postos sem gasóleo e 100 sem gasolina.

Eu não tenho medo da greve dos motoristas, tenho medo de nós. Há pessoas que precisam de facto do combustível para fazerem as suas vidas, seja para irem para o trabalho ou para seguirem de férias para o Algarve. Tudo bem. Só que essa não faltaria se não fôssemos todos a correr para as bombas de gasolina só para dizer que temos o depósito cheio — ou dez jerricãs lá por casa, à espera que alguém tropece neles e o combustível acabe todo no chão.

Vou de férias na terça-feira e ainda não fui abastecer. Tenciono fazê-lo algures no fim de semana, talvez na segunda-feira. Se não conseguir, vou ficar chateada mas também não vou perder a cabeça por isso. Felizmente há comboios e autocarros, aquelas simpáticas alternativas que podem não ser tão cómodas como ir com o rabo sentado no nosso carro mas também não impedem ninguém de ir de férias. Prefiro isso a imaginar-me a tirar o combustível àquele português que mora em Mafra e trabalha em Lisboa, ou àquela portuguesa que tem os filhos em 20 atividades diferentes, todas elas em pontas distintas da cidade.

Há alguém a precisar mais do que eu. Há sempre alguém a precisar mais do que eu. E se pararmos todos um bocadinho para refletir sobre isto, talvez mais se juntem a mim. Ou isto, ou acabo de braço estendido em Bragança, a implorar por boleia e uma sandes de salsicha. Se for isto que o destino me reserva, espero que alguma alma caridosa tenha a gentileza de parar para me ajudar — apesar de não ter planos para ir a Bragança, nunca se sabe. E este é o meu lado bem português a falar.

Esta semana, a jornalista Ana Luísa Bernardino sentou-se à conversa com Amélia Duarte, uma das pioneiras em nutrição com práticas ortomoleculares no Brasil. Do “terrorismo nutricional” que se vê hoje na internet às diferenças entre Portugal e o Brasil no que diz respeito à profissão de nutricionista, houve ainda tempo para falar sobre a importância do intestino e da necessidade de se formarem equipas multidisciplinares.

“No dia em que abandonar o amor, quem voltar os meus bolsos do avesso só encontrará tristeza”. Foi esta a frase escolhida pelo jornalista Fábio Martins colocar no perfil do Tinder, onde foi fingir que se chamava António Oliveira de Salazar e tinha 32 anos. A descrição era uma alusão clara a uma das frases que lhe é muitas vezes atribuída — onde “amor” deve ser substituído por “governo” e “tristeza” por “pó”.

Ninguém podia acreditar que Salazar, devidamente identificado com uma foto, estava no Tinder. Certo? Errado. O nosso jornalista teve umas quantas conversas, ouviu muitos desabafos e ainda ganhou uma stalker.

Há mais. Esta semana a MAGG também lhe dá dicas para comprar ou arrendar casa em Lisboa, segundo duas agências imobiliárias, e conta-lhe a história de Anna, que trouxe para Portugal a escola do bem-estar. Também lhe contamos o que levou uma família numerosa a posar em frente a um cartaz polémico que celebrava a baixa taxa de natalidade em Portugal e mostramos-lhe a primeira fotografia partilhada no Instagram, agora que a rede social se prepara para mudar de nome.

Até para a semana.

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