Gal Costa, Ivete Sangalo, Xandy, do grupo Harmonia do Samba, os cantores Durval Lélys, Tuca Fernandes ou Adelmário Coelho e o maestro e pianista Ricardo Castro fazem parte do leque dos famosos artistas, políticos ou desportistas com quem Amélia Duarte, 64 anos, trabalhou no seu consultório no Brasil. Formada em biologia e em nutrição, área a que se dedica há quase 30 anos, a famosa especialista está agora a exercer em Portugal, tendo sido reconhecida pela Faculdade de Ciências da Nutrição e Alimentação, da Universidade do Porto, depois de ter sido submetida a provas de equivalência.

Entrar-lhe no consultório com ideias de perder dez quilos num mês não é boa ideia. “Eu não trabalho com estética”, explica à MAGG, Amélia Duarte, na sequência de uma longa conversa na clínica Saúde no Parque, aquela que inaugurou, no Parque das Nações, em janeiro. Falámos sobre as diferenças entre a nutrição em Portugal e no Brasil, sobre como é que a área evoluiu ao longo das últimas décadas, sobre aquilo que a descredibiliza e sobre as especificidades do seu trabalho.

Adiantamos pormenores. Além de aplicar os princípios da nutrição funcional, Amélia Duarte utiliza os da prática ortomolecular, aqueles que equilibram as moléculas do corpo através da introdução de substâncias antioxidantes (tanto podem ser fornecidas via alimentação ou via suplemento), tendo em conta a individualidade bioquímica de cada um. É por isso que a especialista olha para cada paciente como um “projeto”, um ser único, com necessidades muito específicas, que são identificadas dentro de uma teia altamente complexa e interligada. Tudo na nossa vida — as nossas emoções, a nossa profissão, a forma como comemos — mexem com a presença dos nutrientes no organismo e, por isso, é preciso de um corte e costura grande para que a harmonia seja estabelecida.

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É originalmente formada em biologia. O que a levou à nutrição?
Sim, primeiro tirei e ensinei biologia. Decidi fazer nutrição porque essa era uma área que eu já amava, porque estava sempre pensando sobre a alimentação dos meus filhos. Nessa altura, morava no Rio de Janeiro e, ao pé de minha casa, havia um restaurante e um armazém de comida natural. Eu vivia indo lá, vendo e olhando — ainda com olhos de bióloga, não eram olhos de nutricionista ainda. Aí entrei na faculdade de nutrição e conheci o doutor Helion Povoa, que já faleceu e que era o maior médico de ortomolecular no Brasil — foi ele que levou esta área para lá e foi meu mentor. Eu achei aquilo interessantíssimo, porque ele falava que o corpo é formado de nutrientes, que alimentam as nossas células, e que nós precisávamos deles todos. E aí, eu lia dali, lia de acolá, e quis profundar o meu conhecimento nisso. Me formei quase com 30 anos, na época, e comecei a trabalhar muito nessa linha de ortomolecular.

Estas práticas que não se limitam a nutrir —  por isso é que já não vivemos contando calorias, como antigamente. A gente come comida, não come números”

O que trabalham as práticas ortomoleculares? 
Trabalham o equilíbrio bioquímico do organismo. Eu sempre faço uma comparação: basta pensar no nosso corpo como uma orquestra, em que as nossas células são os diferentes instrumentos — se um deles desafinar, vai ficar tudo uma bagunça. A mesma coisa acontece no nosso corpo. Precisamos de todos os nutrientes, e é a nutrição que garante isso, com práticas ortomoleculares, feitas pelo médico ou pelo nutricionista. O médico faz de uma forma diferente: faz mais com suplementos de vitaminas em altas dosagens. A nutricionista também pode prescrever vitaminas e minerais, mas com limites. Aí entra a nutrição funcional, que tem tudo que ver com a ortomolecular.

Nutrição funcional é aquela a que aplica princípios personalizados, conforme os hábitos e características de cada um.
Também. Por isso é que a individualidade bioquímica é fundamental. Cada ser humano tem uma identidade bioquímica.

O que é isso?
É uma herança genética, digamos. Você tem genes bons e genes ruins, como câncer ou diabetes. A nutrição funcional e ortomolecular age sobre isso, com alimentos específicos, que vão ter uma ação sobre essas células do corpo. Agem vendo o indivíduo como um todo. É uma teia. É por isso que a nutricionista tem de ser muito observadora e as consultas são muito demoradas. Estas práticas não se limitam a nutrir. Daí que já não vivemos contando calorias, como antigamente. A gente come comida, não come números.

Mas ainda se dá muita importância às calorias.
É. Às vezes as pessoas pegam um alimento no supermercado e saem correndo olhando para as calorias. Eu fico louca de raiva. Não é o mais importante. O mais importante é a composição e, principalmente, a lista de ingredientes. Por exemplo: existe no Brasil um achocolatado chamado Nescau, da Nestlé. As crianças tomam aquilo, mas aquilo é açúcar, porque o primeiro ingrediente é esse mesmo.

Falava sobre a nutricionista ter de ser observadora. A que é que tem de estar atenta?
Você tem que observar tudo: o que o paciente come, a que horas come, quem faz a comida dele, se mora sozinho. Você tem saber tudo sobre a sua vida profissional, observar a composição corporal dele (se tem gordura e massa muscular na quantidade certa), sem esquecer o lado emocional, que é fundamental. Por isso é que a gente fica muito atento aos detalhes.

Uma reeducação alimentar não pode ser só sobre o peso. Prescrever uma dieta é um projeto de cada pessoa”

Pode dar um exemplo de como o lado emocional está ligado à alimentação?
Sim. Por exemplo: se você tem uma tristeza muito grande, se fica muito tensa, o seu corpo começa a gastar demasiado zinco, porque este mineral atua na defesa contra os radicais livres, produzidos pelo stresse. O zinco está, assim, sendo desviado para cumprir esta função.

Só que o zinco é importante para a formação do ácido cloridrico. E quando não há ácido clorídrico, você não digere bem os alimentos. Isso causa o quê? Má digestão, que, por sua vez, faz com que os alimentos não sejam bem digeridos, o que aumenta a presença de bactérias más. Isso tudo gera o quê? Uma agressão na parede do intestino, na impermeabilidade intestinal. Assim, passam para a corrente sanguínea substâncias que o corpo não reconhece. Aí, vem o lúpus e outras doenças auto-imunológicas, depressão, uma série de problemas. Hoje, graças a Deus, a medicina está abrindo bastante os olhos para isso. Assim evitamos usar tanta medicação.

As pessoas andam demasiado medicadas?
Demais! Por exemplo: tanto no Brasil, como em Portugal, as pessoas adoram usar medicação para diminuir a acidez do estômago. Aí, usam todos os prazóis da vida — omeprazol, pantoprazol, lansoprazol. Eu fico louca. Ainda esta semana tive uma paciente que estava usando um medicamento que evita a formação de trombos, mas que agride a mucosa do estômago, e outro que diminui a acidez do estômago. Não faz sentido.

A medicação cuida da doença. Você tem que cuidar da prevenção. E quando a doença existe, você tem que atacar a causa — não basta usar o paliativo. Por exemplo: se você tem um colesterol um bocadinho alto, não tem de sair correndo tomando medicação, porque o valor não justifica. Vá comer melhor, vá ter uma alimentação mais saudável, vá beber água, vá fazer mais atividade física. Coma a casca da cebola, é riquíssima em quercetina, que é importantíssima para a saúde, porque ela dá muita energia e é importante para proteger o colesterol.

Como é que se come casca de cebola? Faz-se um caldo?
Não. Você pega na casca da cebola, limpa a casca, bota no forno, assa. Depois, liquidifica, faz um pozinho, que você bota no suco, nas saladas, por exemplo. A quercetina é uma substância bioativa altamente antioxidante e caríssima, se mandarmos manipular. Isso aqui é um exemplo de como a nutrição funcional e a medicina ortomolecular funcionam ao mesmo tempo.

Qual é o primeiro conselho que dá aos pacientes?
A utilização de medicação para parasitas, medicação para verminose. As pessoas deviam usar, de vez em quando. É por causa dos vermes, mas não só: ela tira bactérias ruins — as boas também, mas aí você faz o reforço, com os probióticos. Assim, você refaz sua flora intestinal, o que é ótimo, porque melhora a absorção de nutrientes e reforça o sistema imunitário. Esse é o primeiro conselho, porque o intestino é considerado o órgão mais importante do nosso corpo. É através dele que alimentamos todos os outros. É ali que temos a maior concentração de serotonina. Se tiver um intestino totalmente desequilibrado, você tem tendência em ter mau humor — as pessoas que têm dificuldade em evacuar são mais stressadas e nervosas, por exemplo — depressão, um sistema imunológico mais fraco, uma pior absorção de nutrientes.

Aquilo que eu vejo é que aqui as pessoas cuidam mais da doença, e menos da prevenção — mas isso está mudando agora”

Há contraindicações? Os nutricionistas podem receitar este medicamento?
Não. Você tem que falar com o paciente, aconselhá-lo, mas ele deve consultar o médico, principalmente se tiver um problema de saúde. Como nutricionistas, não podemos tomar uma atitude dessas. No Brasil essa ligação com a medicina convencional é toda muito mais fácil, porque temos uma relação muito boa com os médicos, com os PT, com os psicólogos. Esta interação é muito importante. Tem de haver uma equipa multidisciplinar.

E depois da desparatização? O que é que se segue?
Então, o primeiro ponto é limpar o intestino, repovoá-lo com bactérias boas. Depois, perceber a presença de metais pesados na pessoa — pode ser através de um exame ao cabelo em que se detetam as contaminações de alumínio, mercúrio, chumbo, etc., mas que é muito caro e que nem toda a gente pode fazer. Por isso é que temos de saber tudo sobre o paciente. Por exemplo, uma pessoa que fuma, vai ter mais concentração de chumbo e de radicais livres e, por isso, ela tem que comer mais vegetais.

Depois, dou uma dietinha para a pessoa ir preparando o organismo, como, por exemplo, um jejum intermitente. Enquanto isso, vou para casa com toda a informação que colhi sobre esse paciente — incluindo a avaliação corporal —, vou analisar detalhadamente o seu perfil e traçar aquilo que ela vai comer, vendo, não só as calorias, mas também os nutrientes de que ela precisa.

E quando entra alguém no consultório que só quer perder 10 quilos, por exemplo? Há este processo todo na mesma?
Alguém que entra aqui e me diz que quer perder dez quilos num mês bateu na porta errada. Eu não trabalho com estética. Não é assim. Corpo equilibrado é consequência de uma boa saúde. Primeiro, vamos avaliar a composição corporal. Depois, faço uma análise para ver quanto é que a pessoa tem de perder de gordura — se tiver de perder. É por cima disso que depois vamos trabalhar, sem esquecer o resto das suas necessidades. É tudo uma conjugação complexa. Por exemplo: se essa pessoa tiver um hipotiroidismo, ela vai ter que comer alimentos ricos em selénio. Uma reeducação alimentar não pode ser só sobre o peso. Prescrever uma dieta é um projeto de cada pessoa.

“Hoje são as modas que ditam os planos alimentares”

Falava há pouco da necessidade de se formarem equipas multidisciplinares. Sente que aqui as áreas funcionam de forma mais isolada?
A medicina tradicional às vezes minimiza a medicina mais natural, então existe discordância em alguns pontos, o que é uma bobagem. Essa história de ficar médico e nutricionista disputando e discutindo é ridícula. Tem de haver concordância para ter um bom e maravilhoso plano para o paciente. Não podemos ficar nessa competição, isso é coisa pequena. Tem de haver uma equipa multidisciplinar.

No Brasil é mais fácil, mas também ainda me estou ambientando. Tenho tido mais contacto com as minhas colegas nutricionistas, que são meninas mais jovens, a maior parte — até porque a nutrição aqui também é uma área mais jovem. Mas eu falo sempre para elas: vocês têm de lutar mais pela profissão de vocês.

É diferente ser nutricionista em Portugal?
A nutrição em Portugal não é uma profissão tão valorizada como no Brasil. Minha consulta no Brasil custava 100€. Cheguei aqui, comecei a cobrar o mesmo e só vinham brasileiros. Os portugueses não vinham, porque conheciam outras que cobravam 10€. Só que a que cobra 10€, está a marginalizar a profissão. É aí que está o perigo: será que ela é nutricionista? Eu já me bati com algumas que não são. Não são nutricionistas, não têm curso da faculdade de nutrição. Eu já diminui o meu preço e passei para 60€, com uma promoção de verão, o valor equivalente ao que cobra uma boa parte das nutricionistas portuguesas, que são meninas estudiosas, meninas que fazem funcional, boas profissionais.

Aquilo que eu também vejo é que aqui as pessoas cuidam mais da doença e menos da prevenção — mas isso está mudando agora. No Brasil, a nutrição existe há muito mais tempo, tanto que a Ordem de Nutrição portuguesa é muito mais jovem. Lá, nós [nutricionistas] podemos prescrever mais, criar fórmulas. Fica tudo mais personalizado. Cá há uma limitação muito maior para a nutricionista.

A blogueira manda beber água com limão de manhã e, no dia seguinte, todo o mundo sai bebendo água com limão. Há coisas que até são interessantes e boas, mas há pessoas que não têm nada que ver com nutrição e que se acham nutricionistas”

Há quanto tempo é que a nutrição, no Brasil, age do ponto de vista da prevenção?
Desde que eu comecei a trabalhar na área, há mais de 20 anos. Nessa altura, já se aplicavam as práticas moleculares. A nutrição funcional veio depois, mas já existe há algum tempo. Mas também existe uma medicina preventiva maior, porque a medicina curativa é muito mais cara do que cá. No Brasil você vai para o médico e não paga menos de 200€ por uma consulta.

É nutricionista há 30 anos. Como vê a evolução desta área?
A evolução é muito boa. A nutrição hoje é muito mais científica. Antigamente, a gente só contava caloria: “Fulano tem tanto de altura, tanto de peso, precisa de comer tantas calorias.” Isso hoje já não é o mais importante, mas era o que botavam na cabeça da gente naquela época. Mas as coisas foram evoluindo, com a ortomolecular, com a nutrição funcional, e hoje é completamente diferente — agora, a nutricionista usa as substâncias bioativas dos alimentos, como medicação. Há muitos anos a visão era mais numérica.

Mas se eu comer demasiadas calorias, vou engordar. A equação continua a ser válida.
É válida, claro. Mas não é a mais importante. Se eu pego um paciente que tem insuficiência renal, eu vou ter que fazer a dieta dele, com todas as calorias e nutrientes contados ao pormenor —  tenho que ter mais cuidado, porque, por exemplo, a proteína dele tem de ser milimetrada. Mas não é por isso que vou deixar de usar substâncias bioativas. Por outro lado, uma pessoa saudável não precisa que isto seja tão detalhado. É importante que se dê prioridade aos alimentos funcionais. Mas é evidente que a nutricionista prescreve as quantidades. A batata-doce, por exemplo, tem betacaroteno, que se transforma em vitamina A — que é extremamente importante para a imunidade, para o cabelo, para a visão —, mas eu não vou chegar para você e dizer para comer à vontade, porque você vai engordar. A batata-doce é calórica. É preciso ter bom senso.

E a proliferação da informação nutricional na Internet?
É o terrorismo nutricional. Eu fico louca com tanta maluquice que vejo na internet. A blogueira manda beber água com limão de manhã e, no dia seguinte, todo o mundo sai bebendo água com limão. Há coisas que até são interessantes e boas, mas há pessoas que não têm nada a ver com nutrição e que se acham nutricionistas. E essas coisas minimizam a ciência da nutrição. Cada macaco no seu galho. Depois, por causa disso, vêm as modas: não pode comer glúten, não pode comer lactose, tem que fazer a dieta X. Isso é maluquice, é um exagero.