Está mais que provado a criação de gado e a forma como se produzem os alimentos tem um impacto relevante no ambiente (talvez ainda maior do que o poder dos consumidores). É por isso que a solução para reverter as alterações climáticas pode estar nas mãos dos agricultores.

Pelo menos é essa a opinião de Anthony Myint, chef de cozinha americano: “Mesmo que se consiga que alguém pague três dólares [mais de dois euros] por produtos biológicos, no momento em que os preços caírem e chegarem ao agricultor, são apenas alguns cêntimos”, refere ao “The Independent”.

É preciso mudar o alvo e começar pelo início: a produção. A teoria de Myint é que não devemos preocupar-nos com a quantidade de carne que consumimos, mas com a qualidade, ou seja, uma produção de carne que seja benéfica para o clima. A ideia desafia a onda de adesão ao vegetarianismo e veganismo, tidos como conceitos benéficos para o meio ambiente.

Contudo, Anthony Myint tem consciência de que enquanto a produção de carne em pastos tiver efeitos nocivos para o clima, devemos reduzir o seu consumo. “O frango intensamente cultivado é tão ‘diabolicamente produtivo’, quanto desumano”, exemplifica Myint.

Na prática, o que o chef sugere é o cultivo saudável do solo, isto é, uma agricultura renovável. Trazer de novo os métodos usados durante milénios — a pastagem de bovinos que fertilizam o solo de forma natural — em vez de monoculturas e do uso de fertilizantes químicos. O objetivo é recuperar para o solo o carbono presente na atmosfera, que influencia a produção e dá origem a alimentos mais nutritivos.

A teoria de Myint não surgiu por acaso e é sustentada pela Comissão de Alimentação, Agricultura e Campo que estudou a forma como o sistema moderno de alimentação e agricultura contribuiu para as alterações climáticas e os problemas de saúde. De acordo com o “The Independent”, a investigação concluiu que os agricultores precisam de mudar a agricultura intensiva para uma produção mais biológica e benéfica para a vida selvagem, incluindo a criação de gado.

Anthony Myint foi recentemente reconhecido com o prémio Basque Culinary World pelo conceito já implementado nos restaurantes Mission Chinese Food, recebendo ainda 100 mil euros pelo projeto Perennial Farming Initiative, que criou com a mulher Karen Leibowitz há dois anos. The Perennial tem como objetivo promover uma pegada zero, envolvendo ações como: ajudar os restaurantes a avaliar, a reduzir e a compensar a pegada de carbono, colaborar com o Estado na aplicação do programa de solo saudável na Califórnia e celebrar as quintas que praticam formas saudáveis de exploração do solo.

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Posted by The Perennial on Tuesday, May 29, 2018

No total 14 juízes — entre os quais Joan Roca, chef do restaurante Celler de Can Roca, em Espanha, eleito duas vezes como o melhor restaurante do mundo, e o chef Massimo Bottura, do restaurante Osteria Francescana, em Itália, distinguido com três estrelas Michelin — avaliaram o projeto do chef Myint.

“Em vez de contribuir para o problema das mudanças climáticas, a gastronomia pode ser parte da solução”, refere a presidente do júri, Joan Roca. O projeto vencedor significa que agora os consumidores podem escolher onde jantar com base numa lista de restaurantes que pretendem ter zero emissões de carbono.

Como chegar a uma pegada zero na restauração?

Leibowitz, a diretora executiva do projeto Perennial Farming Initiative, explica que estão a contactar chefes, agricultores, consumidores, cientistas e políticos “para criar um sistema alimentar renovável baseado num solo saudável.”

Como? Aplicando o método que avalia a pegada de carbono dos restaurantes e passando posteriormente para a compensação das emissões de carbono, feita através do financiamento de projetos de agricultura e energia renovável ou adicionando uma carga de carbono à conta dos clientes.

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Mas os clientes do restaurantes não precisam de se preocupar, porque este acrescento à conta final da refeição representa uma taxa de apenas 1%. Esta taxa não fica para o restaurante ou para o projeto, mas sim para os agricultores, como forma de incentivo pelas práticas saudáveis de cultivo. Recebem assim uma quantia superior a 13 euros por tonelada de carbono removida da atmosfera.

“Nos Estados Unidos da América, infelizmente, subsidiamos a agricultura má e extrativista [extração de matérias-primas da terra para serem usadas pelos consumidores], por isso a ideia de subsidiar a boa agricultura deve ser muito bem-vinda, e a ideia de que, em escala, resolveria o aquecimento global também deveria ser muito otimista”, diz Myint.