Editorial. Vamos parar com a piada do estagiário, por favor

O texto está mal escrito? Foi o estagiário. O tema não é interessante? Foi o estagiário. Quando é que arranjamos outra piada?

Ser-se estagiário não é ser-se burro ou insignificante. Ser-se estagiário é entrar numa redação com as pernas a tremer porque não fazemos a menor ideia do que vamos encontrar

“Foi um estagiário que escreveu este texto, não foi?”
“Quem é que meteu o estagiário a gerir as redes sociais?”
“O estagiário fez asneira.”
“Esta ideia só pode ter sido sugerida pelo estagiário.”
“Os jornalistas foram-se embora, ficou o estagiário. Depois dá nisto.”

Diz-nos o Priberam que a palavra “estagiário” significa “indivíduo que faz estágio ou tirocínio”. Na cultura popular portuguesa, tornou-se sinónimo de asno, estúpido, inepto, néscio, insignificante. Nas caixas de comentário da MAGG, mais ou menos privadas, não há semana que passe sem uma mensagem deste género. Se há um erro no texto, ou se o tema não vai ao encontro das preferências do leitor, a culpa é do estagiário.

Estagiário. Blec.

Não é que os jornalistas não sejam igualmente asnos, estúpidos, ineptos, néscios ou insignificantes — são, claro que são. Mas uma coisa não invalida a outra, e na corrente de ódio tanto temos jornalistas burros como estagiários. E a palavra estagiário diz tudo. Podemos pôr de parte a adjetivação, a palavra per si diz tudo.

Estagiário. Blec.

Quando comecei a estagiar, com muita pena minha não havia praxes aos jovens jornalistas com absinto, mas a hierarquização era evidente. Nas primeiras semanas, talvez até nos primeiros dois meses, nem sempre me senti como uma pessoa. Não eram todos, claro, conheci desde logo pessoas excecionais, mas havia quem nem sequer se dignasse a cumprimentar-me — ou quem o fizesse como se lhe estivessem a arrancar bocados, tal era o frete.

Nem sempre era fácil. Como se já não bastasse o facto de ter ainda tanto para aprender, de levar de rompante com o escrutínio do público e de temer fazer asneira a cada segundo, ainda havia este bicho penoso que carregava às costas. Eu não era bem um colega de trabalho, da mesma forma que não era bem uma pessoa. Era um estagiário.

Uma última vez: estagiário. Blec.

A “estagiária” não tinha vida pessoal. Era pau para toda a obra, fazia todos os trabalhos que ninguém queria fazer e trabalhava as horas que fossem necessárias porque a vida é assim. A “estagiária” era a burra que cometia disparates — como se fizesse algum sentido fazer asneira num processo de aprendizagem — e a quem tinha que se ensinar tudo. Que seca. Vê-se mesmo que é estagiária.

Repito: o meu estágio esteve longe de ser catastrófico. No entanto, sim, desde aquele momento que a palavra “estagiário” ganhou uma conotação negativa. E isso é injusto.

Ser-se estagiário não é ser-se burro ou insignificante. Ser-se estagiário é entrar numa redação com as pernas a tremer porque não fazemos a menor ideia do que vamos encontrar. Vimos com a cabeça cheia de medos — o meu maior era porem-me a tirar cafés —, e com a pressão de querermos dar tudo o que temos e não temos. Para aqueles que levam isto a sério, é uma oportunidade que pode nunca mais se repetir. E a cada dia que passa nós sentimos essa pressão, essa necessidade de dar mais e ser o melhor.

Queremos ser únicos, especiais e incríveis, mas não temos as bases para ser nenhuma dessas coisas. Cedo percebemos que não aprendemos assim tanta coisa na faculdade, e isso revolta-nos um pouco. Até porque não há propriamente um livro que possamos estudar e aprender a ser jornalistas, isso é algo que só acontece com a experiência — e com os ensinamentos que nos são passados.

Infelizmente, ninguém está com muita paciência para nos ensinar. As redações são frenéticas, stressantes e, sim, cheias de egos. Quem é que quer perder tempo a explicar a um estagiário que escrevemos as idades em número e não por extenso, ou que a palavra País tem de ficar em caixa alta porque é assim o nosso estilo editorial? Já agora, eu nunca tinha ouvido a expressão “caixa alta” até pisar uma redação. E ninguém me explicou que queria dizer maiúsculas.

Nem todos os estagiários que formei têm coisas boas a dizer sobre mim. Todos eles podem encher as caixas de comentários a salientar momentos em que eu falhei ou fiz algo que não devia, mas nenhum é capaz de dizer que não me esforcei para lhes ensinar tudo o que sabia. Alguns tiraram-me do sério — essencialmente, aqueles que claramente não queriam esforçar-se e aprender. Mas tiraram-me do sério porque estavam a perder o tempo deles e a fazer-me perder o meu tempo. Mais nada.

Na redação da MAGG não há piadas sobre “estagiários”. Nenhum estagiário é menos ser humano do que os jornalistas, trabalha mais do que os jornalistas ou é ignorado. Nenhum estagiário fica com uma pergunta por responder, come a um canto sozinho ou tira cafés.

Por isso, tenho de lançar a pergunta: se eu não trato mal os meus estagiários, aqueles a quem dedico 60% do meu dia a formar e a educar para um dia serem jornalistas, porque é que os leitores têm que os ofender?

Vamos parar com as piadas dos estagiários, por favor. O estagiário não é burro, o estagiário está a aprender. O estagiário não é um animal, um ser à parte, um qualquer verme que emergiu das trevas. É uma pessoa. E, na MAGG, podem ter a certeza que não é ele quem gere as redes sociais ou escreve artigos que não são editados. Se têm alguém a criticar, critiquem quem lê os seus textos — sou eu, já agora. Olá. As vossas mensagens são bem-vindas.

Todos nós, independentemente da nossa área, já estivemos numa posição em que “começámos”. Podemos não ter sido todos estagiários, mas todos tivemos um início. Todos tivemos um momento em que aprendemos o que sabemos hoje. Porque é que isso tem que ser mau? Porque é que isso é negativo?

Vá lá. Já chega.

Esta semana, a MAGG conta-lhe histórias de pessoas que decidiram ser mãe e pai a tempo inteiro. São alvo de críticas e questionados permanentemente sobre a sua escolha, mas têm a certeza de que fizeram a escolha certa. Falámos também com o ator que dá vida a António Variações, Sérgio Praia, no novo filme sobre o cantor português. “Havia no António Variações uma sede enorme de viver e a vida atraiçoou-o”, disse-nos. Fomos também conhecer o Selina, o novo hostel da Ericeira, e continuámos a acompanhar o caso Team Strada — o YouTube apagou o canal, mas já há um novo.

Trazemos-lhe também a história do homem que quis ir para Auschwitz: Pilecki fez-se apanhar pelas SS para ser enviado para o campo de concentração. Aqui ajudou a criar e a liderar a resistência ao regime nazi. Impressionante. Descobrimos também 27 casas à venda na zona mais barata de Lisboa, Marvila, e dizemos-lhe porque é que tem de começar a ver “Peaky Blinders”.

Até para a semana.

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