Usar um ponto final para terminar uma mensagem é má educação?

Quem nunca estranhou o ponto final numa mensagem de WhatsApp? Especialistas explicam que pode ser lido como sinal de passivo-agressividade.

Cautela na hora de usar um ponto final no WhatAapp — há quem possa sentir que está chateado

“Podes comprar pão?”

“Sim.”

Pensamento: “Quem é que ele pensa que é para usar um ponto final numa frase?”.

Esperemos que não seja bem assim, mas vamos imaginar que esta conversa corre na janela de WhatsApp que tem com o seu namorado ou namorada. Aquele ponto final é normal? É que numa conversa que começou há anos e que não tem data para terminar, este sinal de pontuação parece ser demasiado definitivo para ser utilizado, certo? Talvez. Ah, maravilhoso mundo da internet.

O desconforto que surge quando nos confrontamos com uma mensagem de texto em que se usa o ponto final pode ser grande, porque tem potencial para desenvolver sentimentos de preocupação ou de revolta, levando a que se fique com a sensação de que a pessoa com quem comunicamos está chateada ou ofendida com alguma coisa.

Pode parecer uma paranoia sem motivo, mas até pode haver fundamento. Gretchen McCulloch, que assina um livro “Because Internet: Understanding the New Rules of Language“, referente às regras de linguagem digital, explica que, nos dias que correm, estes sentimentos são normais, bem como os conflitos que daí surgem — facilmente resolvíveis e perdoáveis. Isto porque o ponto final passou a assumir uma conotação quase “passivo-agressiva” em mensagens de texto, explica a autora à “BBC”.

Tanto assim é que, segundo a mesma, os mais jovens entendem o ponto final como sinal de má educação. “Se uma pessoa jovem está a enviar uma mensagem a alguém, a forma de dividir pensamentos passa por expo-los, um de cada vez, em mensagens diferentes.”

O conflito deste problema de primeiro mundo acontece porque, nisto das mensagens, quando se excede o mínimo necessário para transmitir a informação  — como é o acrescento do sinal de pontuação —, abre-se espaço para dúvidas e novas interpretações.

Esta questão não é nova, não houvesse já estudos a refletirem sobre isto. A investigação de 2015, “Mensagens de texto sem sinceridade: o papel do ponto final em mensagens de texto“, realizada pela Binghamton University, nos Estados Unidos, demonstrou a impressão negativa deste sinal de pontuação: vários estudantes analisaram diferentes mensagens de texto e consideraram menos sinceras aquelas que tinham utilizado o ponto final.

Nas conclusões, Celia Klin, a autora do estudo, considerou que “ao falarem [presencialmente], as pessoas transmitem mais facilmente informações sociais e emocionais com o olhar, expressões faciais, tom de voz, pausas e assim em diante” — tudo opções que não existem nas janelas de chat, onde emojis, pontuação e determinadas expressões escritas funcionam como mecanismos de substituição.

Não é que o ponto final não deva ser utilizado. De acordo com McCulloch, não há problema em usá-lo, quando o objetivo passa, precisamente, por adotar um tom mais sério.

Caso o propósito não seja esse, então é melhor escolher um ponto de exclamação ou até mesmo a ausência de pontuação. Isto porque, segundo a autora, o curto circuito dá-se “quando se envia uma mensagem positiva com a seriedade do ponto final”, fator que contribui para a tal sensação de passivo-agressividade.

Segundo Erika Darics, professora de linguista da Universidade de Aston, em Birmingham, “quando os amigos não costumam usar pontos finais num grupo de WhatsApp e alguém o faz, então é porque essa pessoa está, provavelmente, a tentar mostrar como é que se sente.”

À BBC, a mesma especialista considera que a utilização de emojis é positiva na linguagem virtual. “[Os emojis] aumentam a consciência da linguagem e podem ajudar-nos a entender as subtilezas de outro tipo de comunicação, como a política ou da publicidade.”

E não considera a sua utilização sinal de preguiça. Pelo contrário: “Isso estimula a criatividade linguista.”

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