Sérgio Praia (“Parque Mayer”), 42 anos, observou António Variações ao detalhe para que a tarefa de lhe dar corpo e voz não defraudasse a memória de uma das figuras mais importantes da cultura portuguesa. Estudou-lhe os maneirismos, o timbre vocal, a forma como se expressava e até deixou crescer a barba. Segundo conta, só assim é que fazia sentido incorporar aquele homem que não era mais do que uma pessoa com um sonho.

Depois da peça de teatro “Variações, de António”, Sérgio foi o escolhido para transportar a personagem dos palcos para o cinema numa história que tem tanto de familiar como de tocante.

Realizado por João Maia (“A Espia”), o filme começa quando Variações ainda só era António Ribeiro, e de como foi trilhando o seu caminho até chegar a Lisboa, onde se tornou na figura de sucesso por que viria a ser conhecido. O sucesso, no entanto, nunca o viria a saborear.

Foi já em Lisboa que começou a cortar cabelos, embora preferisse que o identificassem como barbeiro. Mas seria fora do salões e em cima dos palcos que se viria a encontrar e a materializar o sonho de compor músicas e cantá-las para quem as quisesse ouvir.

Com Amália Rodrigues na voz e no coração, António gravou, em 1982, uma versão da canção “Povo Que Lavas no Rio” e um ano mais tarde viria a abrir para a fadista na Aula Magna, em Lisboa. O percurso do homem por detrás do nome de uma das figuras mais importantes da música portuguesa é o alicerce do filme “Variações”, que chega às salas de cinema portuguesas a 22 de agosto.

A MAGG encontrou-se com Sérgio Praia, o ator que lhe deu vida e voz (literalmente, porque não há playback no filme ou nos concertos que tem dado), que conta que o músico era um homem “extremamente simples” e que se assemelhava a uma luz que vive por si só.

A ideia do filme, explica, é celebrar António Variações mas também outros cantores e sonhadores — porque o percurso e a busca pelo sonho é universal e transversal a qualquer um de nós.

Assumiu a barba para o filme “Variações”?
Nem podia ser de outra maneira. Geralmente, uso a barba assim [passa as mãos pela barba curta e rente ao rosto], mas para o filme fiz questão que a barba fosse verdadeira e não uma postiça. Quando fiz a peça de teatro “Variações, de António”, a barba era postiça e era muito desconfortável. Além disso, sentia-me ainda menos personagem.

Já disse que acreditaram mais em si do que o Sérgio. Sentiu uma maior responsabilidade neste papel?
Enquanto ator, tenho respeito por todas as personagens que represento, sejam elas conhecidas ou não. É evidente que o António tem um papel fundamental na cultura portuguesa mas o respeito é o mesmo vindo da minha parte.

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Mas aqui teve de trabalhar e incorporar uma figura importante e, digamos, muito consensual. Isso teve que pesar.
A experiência em relação ao teatro é diferente, eu sei, mas quando tenho de dar corpo a personagens grandes como esta, o importante é descomplicá-las e fazer por torná-las cada vez mais simples. É não querer ir atrás desse lado e dessa tendência de os endeusar e colocá-los em altares.

Claro que sinto essa responsabilidade e sei que é um papel difícil, mas também sei e tenho a segurança de que o António Variações era só um homem que tinha um sonho. E esse sonho era igual ao sonho de qualquer um de nós, em qualquer outro contexto.

O de cantar e o de emocionar?
Precisamente. Essa busca incessante é universal e transversal a qualquer pessoa e a qualquer língua, e é um sonho que pode representar muita coisa. Mas, para mim, foi um dos elementos que mais me tocou neste filme porque toda a vida se resume a esse caminho e a essa procura.

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Mesmo todas as dificuldades, preocupações, e até o tempo que o António teve de esperar para ser reconhecido, foram fundamentais para que aquele sonho se pudesse concretizar. O tempo, neste caso, traduziu-se em anos e ele não pôde desfrutar do caminho que percorreu.

Ao tentar descomplicá-lo, apercebeu-se de que António Variações era uma figura extremamente complexa?
Achei-o uma figura extremamente simples e, para mim, isso chegou. Não preciso de saber tudo sobre as personagens que faço. Aliás, tento não saber tudo porque também tem de haver aqui um lado quase misterioso e mágico. Caso contrário, ser ator ou interpretar papéis não tem interesse.

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É evidente que representar uma pessoa com o peso que o António teve e tem não é brincadeira. Não é fácil, admito. E eu não estou a fugir desse peso, só não quero que isso me domine e me condicione. Sei que era mais bonito dizer que houve momentos difíceis ao fazer este filme, mas não houve. Acho, até, que foi um bocadinho como o incenso.

Desde que o início que senti aquilo como que incenso a queimar devagarinho. Tinha cheiro e queimou até ao fim. No final das gravações, cada um seguiu as suas vidas.

Descreve António Variações como uma luz, uma maneira de ser e estar. Há um em cada um de nós?
Há um coisa que o António tinha que eu admiro muito, que era o facto de estar sempre pronto para qualquer coisa. Era como se estivesse em espetáculo sempre que abria os olhos. Enquanto Sérgio, identifico-me muito com isso e é assim que vejo a minha profissão. Não estou a dizer que é assim que tem de ser, mas gosto de acordar e estar focado no meu objetivo. Nesse aspeto, diria que há um António em cada um de nós, sim.

E esse foco no António vinha desde muito cedo, desde que veio para Lisboa com apenas 12 anos porque queria sair de casa — da sua zona de conforto. Até porque a persistência, que ele tinha muito, é uma das armas da vida. Acredito piamente que, caso ele não tivesse tido essa persistência, facilmente teria desistido da profissão.

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Este projeto ajudou-me novamente a centrar naquilo que eu quero realmente fazer com a minha vida enquanto criador e enquanto contador de histórias. Com o passar do tempo as coisas vão-se desfocando para outras menos importantes e senti que esta foi uma forma de o António me dizer que o meu caminho também era possível. Não temos que estar em todo o lado nem somos obrigados a estar constantemente na berra.

O importante é ir caminhando e ele tinha isso muito presente na sua vida. Havia no António Variações uma sede enorme de viver e a vida atraiçoou-o — mas isso são outras questões.

Esta homenagem passou do cinema para os palcos, com vários concertos e um deles no NOS Alive. Só assim é que fazia sentido?
Acho, genuinamente, que o que faz sentido é celebrá-lo.

Seja em que formato for.
Sim, porque o António é quase como uma massa que vive por si só. Fizemos este filme para celebrar o António Variações, mas também outros sonhadores e cantores. Mesmo que o filme não fosse feito, acredito que o António viveria por muitos mais anos em cada um de nós porque deixou uma obra muito forte.

Claro que fico feliz por dar corpo e voz a esta personagem, mas tenho consciência de que esta luz vai estar presente durante muitos anos.

O filme ainda não foi lançado mas qual tem sido o feedback do pouco que já se conhece?
Não acredito muito nas pessoas que me são próximas. Sou desconfiado, sim [risos], mas prefiro ser assim. Quando são pessoas próximas ou amigos, são pessoas que nutrem algum sentimento por ti e há uma certa tendência em não ver tudo de forma completa e detalhadamente. Prefiro as opiniões de pessoas que não conheça de lado nenhum e que não tenham visto nada meu porque, no fundo, é para essas que trabalho.

Mas o feedback tem sido interessante, apenas com base no trailer. Mas o trailer não é um filme. Quando estrear, cabe a cada um fazer os seus julgamentos e seguir o seu próprio António.