Um restaurante, um bar, um palco e uma loja. As quatro vidas do Lapo

Abriu na Bica um espaço onde se pode ir comer, beber um copo, ouvir música e ainda comprar algumas das T-shirt mais originais de Lisboa.

O espaço abriu onde antes chegou a funcionar uma padaria. As antigas masseiras servem agora de mesas

Estamos na Calçada do Combro, em Lisboa. Já tivemos que fintar 30 estrangeiros só para subir a rua e vimos Portugal transformado em mil peças de souvenir Made in China.

Quando dobrámos a esquina que vai dar ao miradouro do Adamastor — ou o que resta dele, tendo em conta as obras que tapam as vistas — reparamos em mais uma loja a vender produtos que, aparentemente, seriam para turista ver. Mas afinal não. Rimo-nos com a primeira frase da T-shirt, com a segunda frase também e, de repente, damos por nós já dentro do espaço que, ainda que venda Portugal, vende um Portugal com piada.

Lapo

Morada: Rua Marechal Saldanha, 26-28, Lisboa
Horário da loja: 11h-19h
Horário do café: 12h-24h (fecha à segunda-feira)
Horário da sala provador: jantar a partir das 20h30 (portas abertas desde as 20 horas)

“Eu trabalho, tu trabalhas, ele ganha, nós trabalhamos, vós trabalhais, eles ganham”. É assim que se conjuga o verbo numa das primeiras T-shirts brancas que nos saltam à vista. Mas também pode escolher aquela que tem “Exmo. Sr. Doutor” bordado, numa alusão ao gosto português por estes tratamentos pomposos, ou a que ilustra “um café à político, sem princípio”.

Estes trabalhos originais dão-nos vontade de saber mais sobre um espaço do qual apenas nos apercebemos do nome à chegada: Lapo. “Lá em cima tem um café”, indica-nos a pessoa da caixa. E à procura de mais motivos para sorrir, subimos.

É domingo e, por isso, é dia de piano, ainda que seja de manhã. É aqui que percebemos que, ainda que uns degraus acima, a originalidade se mantém. Todos os domingos há música e os do mês de julho está reservado para o madeirense Élvio Rodrigues e o seu projeto Slowburner. No início de 2018, durante dez semanas, Slowburner desafiou-se a compor uma música por semana, e tocá-la ao vivo nas manhãs de domingo via Instagram. Essas dez músicas foram regravadas ainda nesse ano e foram lançadas a 7 de junho deste ano, tanto em CD como em formato digital, numa coletânea intitulada “Sunday mornings are for piano”.

Todas as T-shirts custam 33€

Esta banda sonora tocada ao vivo serve de companhia a quem se senta numa das mesas largas da sala. É que em tempos o Lapo já foi uma padaria, e as masseiras foram transformadas nas mesas onde agora pousam os pratos pensados para partilhar. Há gambas fritas (8,50€), morcela dos Açores com ananás (4,50€), tábuas de legumes, queijos ou porco preto (entre 8€ e 15€), ovos escalfados com ervilhas (9€) e saladas, desde a mais básica, com alface, tomate, cebola, pimentos e orégãos (3€) até à de queijo de cabra gratinado com alface, pera, figo e amêndoas tostadas (8,15€).

Este é um espaço cujas paredes estão forradas a vinis. Encontramos João Gilberto, Schubert e Tom Waits, transmitindo a ideia de que o som por ali é eclético. Na dúvida, apareça a uma sexta-feira ou sábado. A partir das 20 horas começam as noites MELOdiosas, com o músico Melo D no comando da mesa de mistura.

Fazendo o ponto de situação temos, para já, uma loja, um restaurante e uma sala de música. “Mas há mais”, avisa Ana Câmara, uma das sócias do espaço e responsável pela programação cultural.

Descemos as escadas em direção à loja e avisamos: “Mas já estivemos aí”. Ana sorri, como quem sabe que há muito mais a descobrir. É certo que entrámos na loja e Ana aproveita para dizer que todas as peças são de marca própria à exceção das esculturas, que são fruto de uma parceria com artistas do Gerês mas, tal como anunciava, há mais.

Ana dirige-se ao sinal luminoso que indica o provador, ainda que de mãos vazias. “Este é de facto o provador da loja, mas é também uma entrada secreta”, avisa. Abre a porta e, numa sala às escuras, uma vez que só funciona à noite, está todo um restaurante estrategicamente montado ao lado de um palco de cortina corrida.

É atrás desta porta que a magia acontece. É pelo provador que se entra para a sala que junta um restaurante a uma sala de espetáculos

“Esta sala não é só um restaurante”, explica Ana que, por ser também atriz e encenadora, dá o enfoque ao que se passa fora das mesas de jantar. “É um espaço que dedicamos à intervenção cultural e à liberdade artística”, refere. De quarta-feira a sábado, a cortina sobe e cada dia tem uma temática. Quarta-feira sobem ao palco projetos experimentais, quinta-feira é dia de teatro. Seguem-se as “Sextas-feiras Irreverentes” com performances e ao sábado acontecem as “Noites Sonoras”, onde dão a conhecer novos grupos.

Nesses dias, o espectador pode escolher um menu de degustação que inclui jantar e espetáculo. Custa 40€ por pessoa com direito a uma entrada, um prato e uma sobremesa. Quem quiser ver o espetáculo sem jantar, que aproveite a Hora do Brinde, a partir das 22 horas. Aí, paga 10€ para assistir à performance do dia.

O restaurante funciona à carta nos dias sem espetáculo marcado. É de aproveitar a carta inspirada nos sabores alentejanos. As tábuas de queijo, legumes ou charcutaria descem até ao rés do chão para servir de entrada e, para pratos principais, sugere-se uma sopa de tomate (6,50€), açorda de gambas (12€), um ensopado de borrego (16€) ou umas bochechas de porco preto (12€).

Nada no Lapo é estanque e, por isso, não se admire que a carta vá mudando. Já para se pôr a par dos eventos, o melhor mesmo é seguir as páginas de Facebook e Instagram. Foi lá que ficámos a saber que, nos próximos dias, podemos esperar a peça “O Beijo” na sala Provador na quinta-feira e duas noites MELOdiosas nos dias seguintes. Sábado há ainda o concerto de Aixa Trio e domingo já sabemos, manhãs lentas ao som de piano.

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