Ele disse-me que não estava pronto para uma relação séria. E agora?

Foi a pergunta colocada por uma leitora esta semana. A psicóloga Sara Ferreira responde de forma frontal e verdadeira.

Não caia na armadilha mirabolante do subconsciente que muitas vezes nos faz “esperar”

JD Mason/Unsplash

Os leitores perguntam, a psicóloga Sara Ferreira responde. É assim todas as semanas. Saúde, amor, sexo, carreira, filhos — seja qual for o tema, a nossa especialista sabe como ajudar. Para enviar as suas perguntas, procure-nos nos Stories do Instagram da MAGG.

Querida leitora,

Antes de escrever este artigo, pensei duas vezes no tipo de resposta que lhe poderia (ou deveria) dar em relação ao que me pergunta: “Ele disse-me que não estava pronto para uma relação séria. E agora?”

Pois é, pensei… e cheguei à conclusão de que me restavam, basicamente, duas belas opções. A primeira, que seria a resposta ordinária, talvez a mais asséptica e a polidamente correta (chamemos-lhe a opção A). E a segunda, a resposta real (a opção B)!

Como os meus lindos e fofos leitores na MAGG não me merecem menos do que simplesmente tudo, acabei por escolher a opção de resposta B. E é essa que hoje gostaria que lesse, mais do que com os seus olhos, com o seu coração. Aconchegue-se a si e acomode-o a ele, ao seu coração, dê uma fungada e desculpe-me qualquer coisinha.

Um relacionamento só corre bem (e tem futuro) quando ambas as partes têm o mesmo objetivo. Quando alguém diz: “Não quero/ não estou pronto para um relacionamento sério”, na verdade, o que ele está a querer dizer é: “Não estou assim tão interessado em ti/tu não és assim tão importante para mim, mas… já que aceitas isso, vou aproveitar/vou usar isso até me fartar ou até encontrar alguém melhor.”

Eu avisei que isto poderia doer… mas é a mais pura verdade. E a verdade, afinal de contas, qual é? É aquela que tanto eu como a leitora já sabemos no mais íntimo de nós, mas que por vezes pode ser difícil admitir: um relacionamento satisfatório baseia-se no interesse e no sentimento mútuo. Numa palavrinha mágica: reciprocidade. Quando a vontade de ficar ou de ter um compromisso mais sério com alguém parte apenas de um dos parceiros, o outro pode estar acomodado à situação e com pouco interesse na relação. 

A esta distância, não faço ideia, obviamente, dos motivos que ele terá para lhe dizer “não estar pronto para uma relação séria” (e seguramente ele terá os motivos dele), mas o que capto de si (com as minhas “anteninhas” sencientes), através do que me pergunta, talvez seja algo que ressoe com alguma (ou bastante!) tristeza e (sobretudo) frustração, ¿verdad que sí?

Talvez a leitora, inclusive, tivesse já outros planos para a sua vida… que incluísse uma outra vida, a vida de um projeto a dois… mas sabe que para realizar isto (que poderia até ser um sonho para si) precisaria da suave conivência de um menino (uhm, talvez preferisse um homem?) que embarcasse consigo rumo a esta “joint venture” de uma aventura a dois pela vida fora.

Minha querida, com o rapaz que aí tem, sabe que é bem provável que fique na rosmenga em casa e que este sonho fique adiado, ou posto em banho-maria, e que o mais certo é que você fique eternamente à espera de Godot.

Se ele não diz nada sobre o futuro a dois, diz não estar pronto para uma relação séria (talvez porque prefira continuar numa relação a brincar), é melhor prestar atenção se você não está a insistir demais na relação. Pode ser difícil abrir mão de uma pessoa amada, mesmo sabendo que o sentimento não é correspondido, mas é o mais saudável a fazer. Num outro artigo aqui na MAGG, expliquei isto ao pormenor.

Mas então, como saber se ele gosta de si?  A resposta é simples: ele demonstra. Quando ele quer algo, ele faz, quando não quer, não faz. Qualquer comportamento que estiver cheio de hesitações, mudanças súbitas, inconstâncias, inconsequências e certo desprezo pode ser categorizado no tópico “não quero à séria”.

A leitora nem imagina a truculência com que lido dia a dia, em consultório, mas até fico com “labirintite” só de ouvir as manobras que os homens muitas vezes fazem. Na verdade, nós é que somos mais práticas. Às vezes, chega a ser muito rodeio para pouco resultado. Mas pode crer nisto que lhe digo: não são só as mulheres que desejam compromisso (entenda-se, casamento). Eles também querem, de igual forma, e – tal como expliquei neste outro artigo de resposta a outra leitora – quando um homem quer de verdade, ele corre atrás.

Sabe que, por vezes, temos que ter uma certa fleuma ou terna pachorra para com eles porque nem sempre o que um homem diz é exatamente o que ele quer dizer. Muitas vezes, os homens dão desculpas porque não têm coragem de dizer o que realmente sentem, ou dizem frases vagas porque não querem lidar com aquela situação naquele momento.

Mas, a menos que você esteja namorar uma criança e não um homem adulto, as conversas sérias surgirão no relacionamento e o parceiro deve estar pronto para lidar com isso. Se todas as vezes que você começa a falar do futuro ou de como melhorar/evoluir na relação, por exemplo, ele muda de assunto, é melhor avaliar o relacionamento, isto, claro, se os seus planos pessoais passarem mesmo por casar.

A frase que o seu namorado lhe disse (“não estou pronto para uma relação séria”), bem como outra – clássica – que quase toda a gente já disse ou ouviu alguma vez na vida (“não é nada contigo, o problema é comigo”) vem sempre acompanhada de um pedido de separação e é sentida como um verdadeiro banho de água fria nas expectativas de um relacionamento amoroso, tal como talvez seja o seu caso.

Pode até soar inofensivo, mas aquilo que ele lhe disse pode esconder uma verdade inconveniente: “Eu até gosto de ti, mas não quero ter uma relação séria agora”. E afinal, o que será que existe por detrás desta frase?

Nada de especial. Apenas isto: ele até está a ser direto e honesto consigo, indicando uma completa falta de vontade de se comprometer e sequer abrir espaço para que isso aconteça. E, aqui entre nós, está absolutamente tudo bem com isso!

Um homem que lhe diz que não quer um relacionamento mas ainda assim age como seu namorado e parece gostar, provavelmente gosta. Sim, ele pode gostar. Na verdade, ele é atraído por si também. Mas isso se calhar gera-lhe a si ainda mais confusão, certo?! “Então, como pode ele gostar de mim e não se querer comprometer comigo?!” — poderá perguntar-se a leitora, quiçá, já à beira de um ataque de nervos.

Veja bem. Ele está apenas a fazer o que é bom para ele “no momento”. Não há mais nada tão intenso ou mais profundo a acontecer para ele aqui, neste “momento”. Ele pode gostar da sua companhia, gostar do que você lhe tem a oferecer, ele pode gostar de estar perto de si e é por isso que ele namora consigo e consegue a sua presença.

No entanto, da mesma forma que ele está presente tão intensamente na sua vida agora, ele também poderia desaparecer sem dar uma palavra. Apre, que agoirenta! Mas não me leve a mal. É chato, sim, mas é a vida (real)! Os homens fazem isso o tempo todo. E porquê? Porque ele já lhe disse que não estava à procura de um relacionamento sério!

Como sugeri antes, são vários os motivos pelos quais o seu parceiro poderá não estar interessado em comprometer-se mais seriamente consigo, e da sua parte, não deverão haver cobranças ou pressões. Ele é livre de viver como entender e a leitora a mesma coisa. E em questões de casamento, é legítimo cada um estar no seu momento, mesmo que diferente do outro. Porém, se isso a incomodar, de alguma forma, se isso se incompatibilizar com os seus valores ou a fizer sofrer emocionalmente, talvez valha a pena avaliar o que é que realmente espera encontrar nessa interação (se compromisso ou diversão), para que possa ajustar expectativas e perceber o que é que está disposta a aceitar, sem que acabe por ficar numa posição de perda (sendo que o ideal numa relação digna desse nome é atingir-se um patamar de “ganha-ganha”).

O seu namorado pode ter apenas imaginado que vocês estavam apenas a curtir um bom tempo juntos e que não foi feito nenhum tipo de “contrato emocional”… Assim, um homem que diz claramente que não quer um relacionamento, vai ficar consigo pelo tempo que for conveniente para ele (principalmente se houver ‘truca-truca’ envolvido) e ele fará tudo de acordo com as suas próprias regras. Então, e quando não for mais conveniente para ele? Ele poderá seguir em frente, às vezes sem aviso prévio, porque para ele seria bom, logo, para si também. Afinal, foi você quem concordou em continuar com ele mesmo sabendo que ele não estava em busca de um relacionamento sério, não é verdade?!

Dir-lhe-ia, então, que o verdadeiro desafio que é colocado a quem está em situações como estas é que nós (sim, as mulheres principalmente!) quando gostam de alguém, acabam por cair na armadilha da “secreta esperança”.

Esta armadilha reside no nosso subconsciente mirabolante que muitas vezes nos faz “esperar”, esperare, aspectare, expectar, esperançar, expectativar, espetar e especar (como lhe preferir chamar)! Esperar sem mesmo termos a certeza do que esperamos…e isso pode ser um belo de um atraso de vida. No entanto, ele poderá ser capaz de perceber que está a fazer um não menos belo de um “proveito” de si.

Nos nossos intrincados ardis mentais, nós, as “madames XX”, inclusive gostamos de acreditar, ou de possuir essa crença louca, de que em algum momento poderemos ser capazes de “mudar” a mente do nosso homem para finalmente ele estar pronto para um relacionamento sério. 

E o problema com isso é qual?

A bolha pode estourar e os seus estilhaços podem deixá-la vulnerável e suscetível de quebrar (seriamente) o seu coração.

Pois é, dói e não é pouco, sabia? Mas o sofrimento não dura para sempre. Encarar a verdade, ainda que com o coração partido, é melhor do que prolongar um relacionamento medíocre e de “mão única”, à espera de um conto de fadas do qual despontará um príncipe encantado que poderá nunca existir. E no entanto, existem outros, muitos outros amores mundo afora, tem noção?

Antes de se contentar com qualquer migalha afetiva, pelo medo da solidão ou seja lá pelo que for, saiba que você não merece menos do que está disposta a entregar.

Você é uma mulher e sabe do seu valor, então, se o que você procura é uma relação séria, não se deixe levar por estas armadilhas e permita-se a si mesma entregar-se apenas a homens que estão claramente prontos para lhe dar um relacionamento real e/ou que lhe possam dar aquilo que você realmente deseja.

Eu gosto sempre de achar (e acredito) que, tratando-se de relacionamentos amorosos, todos merecemos um “bolo inteiro” do amor, do tempo, da energia, da atenção de qualidade e do compromisso, quer sejamos homens ou mulheres, e não apenas “migalhas” de segundo ou terceiro plano.

É claro que cada caso é um caso, por isso, antes de eventualmente chegar à conclusão de que o seu namorado a está a enrolar, a (sua) resposta sobre o que fazer se ele não quer nada sério vai depender muito do (seu) contexto…

Agora, note que o que ele lhe está a dizer não é uma sentença que determina o final de uma relação. Creio que a leitora já percebeu, na verdade, o que é que ele apenas lhe está a querer dizer. E isso é muito simples e óbvio: ele não quer um compromisso sério. Ponto. Nas entrelinhas disso, o que é que podemos encontrar mais como pedido “latente” que ele lhe faz com uma afirmação dessas? Ele simplesmente não quer que você lhe cobre nada: “Não me cobres namoro ou casamento, porque eu não quero isso agora e, a querer um dia, nem sei se será contigo”. Ouça este recado que ele lhe está a dar e trate apenas de decidir o que é que quer (ou não) fazer com isso, para si e para a sua vida.

E como é que isso pode afetar o seu relacionamento?

A admiração e o desejo surgem quando alguém nota uma força pessoal associada a segurança e estabilidade. No caso das mulheres mal-amadas isso não existe. Elas comportam-se como alguém que não está segura de si e está passiva diante da vida (e da sua própria vida interna) e dos movimentos do seu parceiro. Normalmente, elas reagem apenas às circunstâncias e agem como uma marioneta dos joguinhos deles, mas com o tempo isso desgasta a confiança mútua e cria ressentimento.

Faça o que fizer, só não tente convencê-lo a assumir um relacionamento “sério” consigo. No momento em que um homem sentir que uma mulher está a tentar impingir-lhe um relacionamento que ele não quis adquirir por vontade própria, a única coisa que ele vai ver à frente é uma mulher insegura diante dele, e esse sentimento irá confirmar-lhe ou reafirmar-lhe o porquê dele não ter sentido vontade de assumir nada com ela.

Portanto, até para doar amor é preciso saber o timing certo entre dar e receber, valorizar e ser valorizado para que o amor cresça num ritmo natural e não ansioso e desesperado.

Pois é, minha cara. O amor é para os corajosos. Porque uma pessoa quando quer, vai lá e faz. Não tem desculpas, não tem impedimentos, não tem forças contrárias.

Entender os próprios limites pessoais é uma mais-valia e uma sabedoria para o relacionamento amoroso, afinal não é qualquer pessoa que consegue lidar com as pressões, os desapontamentos e certos aspetos incompletos próprios de uma relação.

Fortaleça o seu amor-próprio. Quando você se ama de verdade, não deixa ninguém fazê-la acreditar que é difícil ser amada ou que se alguém lhe demonstra não querer investir emocionalmente em si, não fica a achar que o problema está em si ou em algo seu que é “intrinsecamente” mau ou inadequado… Quando você se ama, só mantém ao seu lado pessoas que a amam igualmente. E isso acaba por ser algo natural. Você mesma não terá interesse em estar ao lado de quem a rebaixa ou menospreza. Trabalhar o amor-próprio é ganhar mais de você mesma e do mundo. Há muito amor disponível para todos. Porquê contentar-se com esmolas sentimentais quando é possível ter todo o amor que quiser (a começar pelo seu próprio amor)?

Quer saber qual é o melhor investimento que você pode fazer? Invista em auto-conhecimento. O conhecimento vai trazer-lhe inteligência, técnica, habilidade e conexões. Conexões fortes. Inclusive consigo mesma. Já se perguntou “o que me separa daquilo que pretendo?” Já dei por mim a fazer esta questão muitas vezes.  Também já a escutei na primeira pessoa em vários processos de desenvolvimento pessoal que facilito.

A tendência é para que a resposta recaia sobre fatores externos e venha de um plano cognitivo. Contudo, quando se decompõe a equação que medeia o ponto em que estamos e o ponto em que queremos estar notamos que o essencial é acreditarmos que é possível alcançarmos a meta desejada. Não só acreditarmos, como acharmos que é merecido. Conseguirmos visualizar-nos já nessa nova realidade. 

Se não acreditamos que é possível e merecido, a nossa perceção e interpretação da realidade bem como a nossa ação ficarão totalmente condicionadas. Tenderemos a confirmar a nossa descrença e assim se geram com frequência ciclos viciosos de frustração, tristeza, ressentimento e insucesso.

Pergunte-se a si mesma, recolha a resposta no seu corpo e no seu coração. Invista em si mesma. Garanto-lhe que o retorno que você vai ter será imensurável e – comprovadamente – caminhará consigo para sempre.

Partilhe
Fale connosco
Se encontrou algum erro ou incorreção no artigo, alerte-nos. Muito obrigado. [email protected]