Angela Saini. “Todos os dias tenho que provar que sou tão capaz quanto o homem”

A jornalista estudou a forma como a ciência sempre desvalorizou a mulher, mas fala também dos estudos que estão a corrigir esse erro.

A escritora admite que o assédio sexual é comum na comunidade científica

Samuel Costa

Dividida entre duas paixões — a escrita e a ciência —, Angela Saini contempla as duas vertentes em livros sobre temas que envolvem a evolução do ser humano nas suas mais diversas formas. Em “Inferior“, editado pela Desassosego, faz uma ronda por todas as mentiras e meias-verdades que a ciência divulgou ao longo dos tempos sobre homens e mulheres.

A jornalista britânica de 39 anos não demorou a concluir que os preconceitos na investigação científica imperam e que, por muito que já se tenha provado que não, ainda são muitos os que consideram a mulher como ser inferior — daí o nome do livro que veio apresentar em Lisboa.

Em conversa com a MAGG, mantém-se positiva quanto a um futuro mais igualitário, mas admite que o caminho é longo e difícil. E ainda que este seja um livro sobre desigualdade em relação às mulheres escrito por uma mulher, espera que a sociedade veja além disso. “Eu não escrevi este livro para as mulheres, escrevi para quem precisa de ser convencido de que a igualdade não é impossível”, garante.

Escreveu este livro baseado num artigo que fez para o “Observer” sobre menopausa. O que encontrou de tão fascinante que a fez avançar na pesquisa até chegar ao “lnferior”?
Primeiro, nós somos das poucas espécies no mundo a ter menopausa e só isso é fascinante. Mas o que me fascinou mais foi perceber que, na altura em que escrevia a reportagem, havia uma teoria a ser estudada por três cientistas homens sobre o porquê de todas as mulheres terem menopausa. Concluíram com a sua pesquisa que as mulheres deixavam de ter filhos a partir de determinada idade porque, simplesmente, não tinham sexo. Se a ciência fosse racional e objetiva, se não importasse o facto de o estudo ser feito por um homem ou uma mulher, não se chegaria a este tipo de conclusões. Percebi ali que, além da menopausa, também muitos outros temas seriam afetados pelo género do cientista.

No geral, fiquei com vontade de saber mais sobre quem eu era, sobre o que significa ser mulher. Temos tantos estereótipos, tantas ideias feitas que eu só quis saber mais para também eu criar as minhas próprias ideias.

Angela Saini é formada em engenharia pela Universidade de Oxford e em Ciência e Segurança pelo King's College

Os cientistas estudam os dois sexos ou escolhem estudar homens, ou mulheres?
Há uma grande desigualdade nesse campo. Se analisarmos as investigações feitas sobre o órgãos sexuais das outras espécies, há muito mais pesquisa feita em machos do que em fêmeas. E é óbvio que isso também acontece no estudo do ser humano.

Como é que a ciência estudou as mulheres ao longo dos tempos?
Claro que houve boas investigações a serem feitas sobre o comportamento humano e sobre as diferenças entre géneros, mas há também uma forma de pensar baseada na premissa de que a mulher é intelectualmente inferior, que não somos capazes de fazer coisas que os homens fazem. O que a investigação tem feito nos últimos 50 anos é acabar com essa ideia.

Consegue ver um progresso?
Sim. Não podemos dizer que todos os problemas estão resolvidos, há ainda uma grande desigualdade, mas acho que devagar estamos a chegar lá. É assim que a ciência funciona. A ciência progride ao reconhecer erros e a corrigir esses erros.

Considera que homem e mulher devem ser estudados de forma diferente pela ciência?
Se estudarmos o sistema reprodutor, aí faz sentido. Mas na maioria dos estudos não, até porque, biologicamente falando, já existem imensos estudos a provar que as diferenças entre homem e mulher são mínimas. O que nos diferencia são as nossas individualidades. É isso que me faz ser diferente de si ou diferente daquele homem ali. Não tanto o facto de eu ser mulher e ele ser homem.

Isso quer dizer que temos mais diferenças culturais do que biológicas?
Temos diferenças biológicas individuais. Força, capacidade e inteligência são diferenças individuais, mas o que faz com essas diferenças sejam estabelecidas entre homens e mulheres é o facto de serem, desde muito cedo, passadas a cada um de nós. Começa logo à nascença, quando vestimos os nossos filhos de azul ou cor de rosa. Estamos logo a impor-lhes normas de género  e a moldá-los a uma certa forma de estar e de viver.

Quando é que esta divisão por género começou?
Se falarmos de forma geral, é muito difícil de saber. Sabemos que o patriarcado esteve presente desde sempre, mas nós não sabemos tudo sobre o nosso passado, sobre a nossa forma de viver. Mas a pesquisa feita mostra que já tivemos sociedades mais igualitárias do que as de agora.

No livro, menciona o facto de Charles Darwin ter dito que seria “extremamente difícil que as mulheres consigam tornar-se iguais aos homens a nível intelectual”. E diz também que Darwin é “um homem do seu tempo”. Mas não temos agora ainda muitos Darwins por aí?
A sociedade é sexista e os cientistas, além do seu trabalho, são também seres humanos.

Depois de lançar "Inferior", Angela Saini escreveu "Superior", sobre desigualdade racial

Qual foi o estudo mais absurdo que se lembra de ler sobre a diferença entre homens e mulheres?
Há tantos estudos absurdos. Mas há um especialmente absurdo e que, ainda por cima, persiste: aquele que diz que as mulheres, como têm a cabeça mais pequena, têm também o cérebro mais pequeno e, por isso, somos estúpidas. Essa ideia continua a persistir.

E não é verdade.
Claro que não. Sabemos, por testes psicológicos feitos ao longo dos tempos, que o QI de homens e mulheres é idêntico. Medir os crânios não vai ajudar. Tem tudo a ver com proporção, um homem pequeno vai ter um cérebro mais pequeno e não é por isso que é mesmo inteligente e também não é por alguém ter uma cabeça maior que vai ser mais esperto.

Esse tipo de estudos ainda acontecem porque, na grande maioria, são cientistas homens à frente das equipas de investigação?
Não acho que seja só o facto de serem homens, tem que ver com as questões culturais. A nossa cultura é sexista e claro que aquilo que aquilo que um cientista disser vai ser recebido por uma cultura sexista. Mas acho que uma maior representatividade feminina ajudaria, sim.

Percebeu cedo na sua vida que iria sentir-se sozinha na ciência. Descreve um episódio no livro que aconteceu quando tinha 16 anos, e no qual era a única pessoa a aparecer para ver o lançamento de um foguete caseiro. Acha que agora já teria companhia?
As coisas não evoluíram tanto quanto eu gostaria que tivessem evoluído, mas vamos lá chegar. Acredito muito nesta nova geração que vai agora para a escola. As mensagens que lhes vão ser passadas são tão diferentes das que nos passaram a nós e estamos a fazer muito para encorajar as raparigas a ir para as áreas de ciência e a quebrar essas barreiras de género.

Mas a ciência em si também em que ser menos sexista. Ainda há muita discriminarão e assédio sexual. E eu não quero encorajar estas jovens a irem para ciência para, quando lá chegarem sofrerem de discriminação ou assédio sexual.

Na sua carreira, passou por episódios em que teve que que provar que era tão capaz quanto um homem?
Tenho que fazer isso todos os dias. Todos os dias tenho que provar que sou tão capaz quanto o homem. Sinto-me subestimada todos os dias e sei que muitas mulheres sentem o mesmo.

É por isso que temos tão poucas mulheres na ciência?
Sim, mas também porque há discriminação no recrutamento e depois toda a questão do assedio no trabalho.

Acha que o feminismo pode influenciar a pesquisa científica?
Surpreende-me sempre quando as pessoas dizem que a ciência é apolítica. Se a ciência fosse apolitica, porque é que a mulher seria excluída da ciência desde o início? Não foi uma escolha científica excluir as mulheres das universidades, foi uma escolha política. A ciência tem muito a ganhar ao reconhecer uma perspetiva feminista, ao reconhecer que foi a política que pôs a mulher de parte e, com isso, corrigir esses erros.

Se agora, a ciência provasse que não há realmente qualquer diferença biológica entre homens e mulheres, como é que a sociedade iria reagir?
Não acho que a ciência deva ser regida pela ciência, no que diz respeito à igualdade. A igualdade é um princípio que diz que, independentemente das tuas capacidades, todos temos os mesmos direitos e as mesmas oportunidades. É por isso que eu luto. Não luto para que a ciência diga que somos iguais, luto porque é um direito. É uma prova de maturidade da espécie humana.

Como podemos pôr fim a esta sociedade que continua a ver a mulher como ser inferior?
É um longo e complicado caminho e exige um grande esforço mental de cada um de nós. Escrevi um livro sobre a superioridade racial e desde aí que faço um esforço para que, sempre que conheço alguém, não o fazer com qualquer tipo de preconceito. E isso é difícil, mas se todos o fizermos o mundo vai ser melhor.

O facto de ser uma mulher a escrever sobre inferioridade feminina na ciência não pode ser considerado tendencioso?
Eu não escrevi este livro para as mulheres, escrevi para quem precisa de ser convencido de que a igualdade não é impossível. Na minha cabeça tenho sempre a ideia de que haverá gente a pensar que ‘ela escreveu aquilo porque é mulher, porque quer igualdade para as mulheres’.

Por isso é que falei com muitas pessoas, com diferentes perspetivas, todas referenciadas no livro. Tentei ser o mais justa possível e espero que as pessoas o vejam como um trabalho jornalístico não apenas como um livro escrito por uma mulher que quer igualdade. Ainda que seja isso, é muito mais do que isso.

Texto de Marta Cerqueira, fotografia de Samuel Costa.
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