Super Bock Super Rock. O bom, o mau e o assim assim

Houve sol, praia e preocupações ambientais. Mas também houve filas e falta de avisos. Aqui fica o balanço do regresso do SBSR ao Meco.

O festival voltou a Sesimbra, ao mesmo local em que as edições entre 2010 e 2014 tinham decorrido

Hoje é dia de descanso para festivaleiros. A 25.ª edição do Super Bock Super Rock, que marcou o regresso do festival à Herdade do Cabeço da Flauta, junto à aldeia do Meco, terminou na madrugada deste domingo, 21 de julho.

Foram três dias de praia, de concertos, de pessoas bonitas, de bom tempo, mas também foram dias com filas, estradas cortadas e falta de avisos por parte da organização.

O balanço é positivo, mas há sempre aspetos a melhorar. Aqui fica aquilo o pior, o melhor e o médio dos três dias de festival.

O mau. Duas caixas multibanco para milhares de pessoas — e filas intermináveis

Na fila para a troca de pulseiras ouvimos alguém dizer: “Bem-vindos aos anos 90”. O recuo temporal pode ser um pouco exagerado, mas é compreensível. Afinal, nisto das piadas, quanto maior for a hipérbole, melhor. Isto a propósito do quê? Do multibanco. Na 25.ª edição do Super Bock Super Rockm só havia duas caixas para levantar dinheiro adjacentes, logo à entrada do recinto.

Daniel Pinto, 29 anos, não é fã de Conan Osíris, mas ouviu o concerto todo, na primeira noite, 18 de julho (aquela que recebeu 30 mil pessoas). Não teve remédio: passou 1h30 à espera que chegasse a sua vez para levantar dinheiro, numa extensa fila (que se repetiu todos os dias), junto ao Palco Somersby, onde o artista que representou Portugal na Eurovisão 2019 atuou.

O ajuntamento permanente neste sítio teve como razão a falta de mais máquinas, mas há outros dois pormenores relevantes: o pagamento com cartão não estava disponível (exceto em algumas zonas de restauração) e o sistema MBWAY não foi implementado, ao contrário do que já acontece noutros festivais.

O mau. Estradas cortadas sem aviso, falta de carros Uber e Bolt, filas gigantes para apanhar o autocarro

O multibanco foi uma das queixas mais ouvidas por parte dos festivaleiros, mas houve outros aspetos que falharam na organização — ainda que com o passar dos dias a coisa fosse ficando mais bem oleada.

Antes de avançarmos, é importante destacarmos um detalhe: a Herdade do Cabeço da Flauta não fica no Meco, estando a cerca de sete quilómetros desta aldeia. A realidade é que a localidade mais próxima (e que fica no sentido inverso a Lisboa) chama-se Alfarim. E isto é relevante porquê? Porque quem alugou casa nas proximidades da aldeia, foi surpreendido no primeiro dia, quando, a partir das 15 horas (e até às 4 da manhã), o trânsito da Nacional 377 (a que dava acesso mais direto ao recinto), era cortado aos carros particulares, no sentido Meco – Lisboa.

Resultado: ou estes festivaleiros estacionavam o carro a cerca de três quilómetros do recinto e caminhavam por esta estrada cheia de curvas (a mesma que iriam ter de percorrer de madrugada) ou, de automóvel, voltavam para trás e davam uma volta consideravelmente maior, de forma a fazerem o mesmo caminho dos que vinham de Lisboa.

“Vimos imensa gente na estrada a andar. Era muito perigoso, porque estava muito escuro e já havia gente bêbada”, diz à MAGG João Monteiro de Barros, 29 anos, referindo-se ao regresso dos festivaleiros aos carros

Mas houve mais drama naquilo que se refere aos transportes e às filas, sobretudo no primeiro dia de festival. O cenário à saída do recinto roçava o apocalíptico. Havia pessoas a quererem chamar carros Uber e Bolt (a organização apelou a que os festivaleiros optassem por estes transportes, pedindo às pessoas que deixassem os carros em casa), mas sem sucesso, porque não havia motoristas disponíveis. Além disso, filas intermináveis para entrar num dos autocarros Transporte Sul do Tejo, com destino à estação de comboios Fertagus, em Coina. Segundo João Monteiro de Barros, houve gente que ficou quatro horas à espera. “Eram mesmo muitas pessoas.”

Trocar o bilhete por pulseira — outra vez, no primeiro dia — também foi caótico, sobretudo a partir das 21 horas. Tanto assim foi que, a certa altura, a organização deixou de ter pulseiras disponíveis. Resultado: mais tempo de espera.

O mau. Lana Del Rey a dar autógrafos

Querida Lana, gostamos muito de ti e obrigada por teres cantado todos os nossos hits preferidos. Mas um interregno musical de 15 minutos para poderes tirar selfies e receber beijos dos teus fãs? Nós sabemos que muitos deles estavam ali há horas, mas e o resto da malta que veio ouvir música?

O bom. O sol e o campo

Apesar das falhas, o balanço do festival é positivo. O regresso ao Meco encara-se com alegria, porque será sempre bom assistir a um concerto num sítio onde há árvores, onde há passarinhos e onde o pôr do sol pinta o céu de cores incríveis — bastante melhor do que o Altice Arena. A tudo isto junta-se uma feliz coincidência metereológica, que nos deu dias de céu limpo e de calor.

O bom. Transportes diretos para a praia

Dario Branco

Os festivaleiros campistas estavam felizes. A organização disponibilizou várias formas eficientes de os levar para a praia e de regresso ao recinto. Além dos autocarros, circularam carros de boleia Super Bock, assim como uma carrinha pão de forma. “Os autocarros estão sempre a aparecer, foi uma ótima ideia”, dizem-nos Henrique Coutinho, Tomás Grencho e Vicente Rato, estudantes com idades entre os 17 e 19 anos, que destacam ainda o bom funcionamento e segurança do campismo.

Na opinião dos jovens, o regresso do festival à praia é muito positivo. Estão a adorar a experiência, bastante melhor do que aquela que viveram na edição anterior, quando o festival decorreu no Parque das Nações, em Lisboa. “Honestamente, agora que comparo as duas experiências, vejo que esta é muito melhor. É completamente diferente ser no Meco.”

O bom. Pessoas da aldeia satisfeitas com o regresso do festival

O movimento no Onda Azul, restaurante da praia do Moinho de Baixo, era grande. Mas o estabelecimento preparou-se: reforçou a equipa, preparou snacks rápidos (sandes e salgados) e não serviu a oferta habitual da carta, porque isso tornaria tudo mais demorado. Apesar da agitação atípica, nada se compara ao ano que trouxe Prince (e milhares de pessoas) ao recinto da Herdade do Cabeço da Flauta, lembram todos os proprietários com quem nos fomos cruzando.

Na Churrascaria Mundial, na Aldeia do Meco, o ritmo estava muito mais calmo. “Estamos no pico do festival e não está cá ninguém. Os campistas devem ter comida, supermercado no recinto e transferes para a praia, portanto, aqui na aldeia, está tudo assim parado”, diz Rita Ferreira, proprietária do espaço, ressalvando, no entanto, que vai havendo momentos mais movimentados. Os stocks e equipa foram também aqui reforçados, mas “não valeu a pena.” Apesar de tudo, vê de forma positiva o regresso do Super Bock ao Meco, porque põe esta aldeia no mapa.

Durante a hora do almoço não havia fila no supermercado Coviran, em Alfarim. Ainda assim, Filomena Rodrigues, proprietária deste espaço há 30 anos, mostra-se feliz com o regresso do festival. “Como o festival são três dias, há que aproveitá-los. Acho que é bom. Estamos preparados para isso: temos mais pessoal, mais stock, principalmente nas bebidas. Tem havido azáfama, mas dentro do normal. Nada que se compare à confusão do ano de Prince.”

O bom. Festival limpo

Notou-se no recinto e no campismo: quer a organização, quer os festivaleiros, estiveram preocupados em manter tudo limpo. Além de darem cinzeiros portáteis e dos copos de plástico descartáveis, houve locais para fazer a divisão de lixo em vários pontos do recinto e várias ações de sensibilização para cuidar do ambiente e fazer um uso reduzido de plástico. Estes queridos animais abordaram-nos, pedindo-nos que utilizássemos o menos possível este tipo de material, que tem levado à poluição dos oceanos e morte de vários animais.

O bom. O estilo

A Herdade do Cabeço da Flauta foi invadida pelas mais divertidas camisas, com padrões que ora iam do mais abstrato ao mais concreto, o que inclui têxteis cheio de melancias ou de outro tema assim super fun. No que toca aos looks das mulheres, muitas escolheram botas militares conjugadas com vestidos femininos, com temas florais. Muito bronze e glitter (uma nova moda, que equivale à anterior das coroas de flores na cabeça), mas num registo não tão exagerado face ao que habitaulmente vemos no NOS Alive. Gostámos.

O bom. Woman power

Dario Branco

A disparidade entre artistas masculinos e femininos ainda é grande, mas é preciso perceber que neste universo artístico o equilíbrio ainda está longe de ser perfeito. Ainda assim, foi bom ver mulheres a tomar conta dos palcos. Exemplos: Cat Power, Lana Del Rey, Charlotte Gainsbourg, sem esquecer a poderosíssima Janelle Monáe.

O bom. Conan Osíris e Cristina Ferreira

Foi divertida a atuação de Conan Osiris. O público cantou e dançou sem parar, enquanto o artista que representou Portugal na Eurovisão, em conjunto com o explosivo dançarino João Moreira, ia puxando por ele. A certa altura, fala na “cota” ou (“sócia”) Cristina Ferreira, pedindo-nos para replicarmos este momento:

Teve piada.

O assim assim. Conan Osíris a dissertar sobre a sua humildade

Dario Branco

Tenho em mim a ideia de que falarmos sobre o quão humildes somos é do menos humilde que há. Mas, pronto, como se diz no jargão popular, isto sou só em a pensar.

Assim assim. O festival corrigiu alguns erros — mas já foi um bocadinho tarde

Os problemas de transportes e de filas do primeiro dia — exceto do multibanco — foram corrigidos, em parte, pela organização, que começou a publicar posts no Facebook a dar conta de novas alternativas de caminho ou ainda sobre novas tarifas de carros Bolt. Problema? Já vieram um pouco tarde, como algumas pessoas comentaram na rede social. “A organização que pegue nesse percurso e enfie num sítio que eu cá sei. Puxem lá pela memória do último festival feito no Meco que foi impecável no diz respeito ao trânsito e estacionamento”, diz uma das seguidoras da página. “Estas indicações são para quem e para quê? Para dar aos técnicos que irão desmontar os palcos?”, diz outra.

O assim assim. Poucas mesas para comer sentado

Nós sabemos que festivaleiro que é festivaleiro tem de estar preparado para lidar com a adversidade, o que inclui, obviamente, ter de fazer uma refeição sentado no chão. Nada contra. Mas, quer dizer, podiam ter facilitado. É que bastava porem mais meia dúzia de mesas e de bancos. Há malta que quer desfrutar do seu hambúrguer sentadinho à mesa. Fica o apelo: para o ano, mais lugares para sentar, por favor.

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